Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

Vamos hoje falar sobre amor... e panquecas!

“Vamos hoje falar sobre amor... e panquecas!”.            Aquilo não poderia ter ficado pior... Não que eu não gostasse de panquecas, o que na verdade era um acompanhamento perfeito para um saboroso café expresso italiano caramelizado, mas naquele momento a última coisa que eu precisava era de um programa de culinária passando em um ...

Casa na Árvore

            - Só... faltam... cin... cin... cinco... quilô... quilômetros... de... vol... ta... – ofeguei, me jogando contra uma árvore ao lado, esperando verdadeiramente que seus galhos me pegassem no colo e suas raízes se desprendessem do solo, me levando de volta à cidade.            “De todas as ideias estapafúrdias que eu já tiv...

Permanecer

             - Oh, céus! É um colapso, tenho certeza! – disse titia Gertrudes, colocando a mão direita na testa e usando a esquerda para verificar se o pequeno sofá onde ela teatralmente iria finalizar sua cena estava confortável o suficiente.          &...

Com amor, eu.

               “EU - TE - AMO!”            Gritei, e repeti, e gritei de novo, fazendo questão de ignorar os olhares fuzilantes que se voltaram para minha mais sincera declaração de amor! Sorrindo, quase deixei uma lágrima rolar pela minha face, e inspirei profundamente, de forma que o aroma inebriante e absolutamente mágico daquele e...

Era meia-noite...

Era meia-noite.            Poderia ser meio dia, ou mesmo nove horas da manhã... Mas como, evidentemente, isso seria normal demais para o gosto peculiar e irônico do um destino, era meia-noite, e eu estava parada diante um casebre que daria inveja aos contos nebulosos e obscuros que assombram as noites de pessoas decentes e honestas c...

Torrões de Açúcar

            “O que não mata, engorda!”            Disse, colocando mais quatro (além dos três anteriores!) torrões de açúcar em seu café expresso, tão negro quantos seus olhos que brilhavam ao ver cada quadradinho se dissolver em sua bebida. Revelando suas covinhas em um sorriso que combinava perfeitamente com cada ruga de sua face al...

Não sou um duende...

            “Não sou um duende...”            Disse, e repousou seus grandes olhos, levemente assimétricos, corados por uma estranha mistura de verde-musgo e marrom-terra, sobre mim. Eu, particularmente, não sabia se mantinha meu olhar sobre seu nariz protuberante e evidentemente comprometido por um resfriado inconvenientemente úmido...

Era frio...

            Era frio, era aguado, mas era café.            E, sinceramente, na posição em que eu me encontrava, não estava em condições de exigir um genuíno cappuccino al latte da mirrada senhorinha banguela que oferecia seu doce sorriso como acompanhamento gratuito de seu café frio e aguado no copinho de plástico, vendido na entrada...

Cheiro de verso, sabor de poesia

                   Hoje não é prosa, mas poesia.            Pois é, meu caro amigo... Como você mesmo sabe, venho a algum tempo peregrinando por essas paragens não muito distantes, reconhecendo risos e orvalhos que refletem sombras e auroras do meu próprio recanto pessoal... Venho me correspondendo com você, relatando minhas mais inéd...

Extra açúcar

“Extra açúcar”...            E eu apertei de novo, e de novo, e de novo... e nada aconteceu. Mas pelo amor de Deus! Já fazia meia hora que eu estava travando uma batalha com a única máquina de café expresso do hospital que tinha latte nas opções daquele painel multicolorido onde o botão “extra açúcar” fora feito apenas para enfeitar,...

Tinha gosto de solidão e mel

              Tinha gosto de solidão e mel.            Assumo (sem culpa) a responsabilidade do mel, já que pedi uma porção extra para misturar à fumegante xícara de café que pedi na única biboca aberta às onze da noite de um domingo de inverno. Mas solidão foi por inteira conta da casa...            Não que eu esperasse uma superlota...

“Era louco”

“Era louco”E assim resolveram nomear. Não por maldade, obviamente, mas por mero deslize de um, de outro, e de todos, que se esqueceram de um pequeno (mas notável) detalhe característico do ser humano: antes de serem algo, todos são, invariavelmente, alguém.Mas esse alguém, em particular, não tinha quem se lembrasse de suas travessuras de ...