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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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16/11/2019 às 12h50

Na livraria...

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           - MAS ISSO É UM ABSURDO! – bradou uma voz esganiçada, lançada em plenos pulmões qual uma flecha em direção certeira ao irredutível (e irritantemente calmo) dono daquela livraria local que era, diga-se de passagem, quem atendia ao caixa, naquele momento. Olhei em direção ao som acalorado da discussão (ou melhor, do monólogo que se desenhava, já que a dona da voz de caixa de som estourada ocupara-se demais em lançar seus protestos a quem quer que quisesse – ou não – ouvir, enquanto o senhorzinho apenas ouvia, silenciosamente, em uma serenidade invejável), observando que a fila se acumulava, unindo fregueses impacientes, ouvintes curiosos e funcionários solícitos que, tenho certeza, arquitetavam em sua mente uma forma “acidentalmente” amarrar a mulher e lança-la para fora da loja.

                Em pé diante uma das várias estantes antigas daquela livraria local, me perguntei novamente o porquê não havia decidido ir à cafeteria ANTES de passar por aquele pequeno comércio. Havia acordado naquele dia com uma disposição invejável, decidida a aproveitar tudo o que aquela pacata cidade e aquela pequena pousada tinham a me oferecer. Não iria me ocupar com o cheiro de mofo do sótão onde estava instalada, pela ausência de quartos disponíveis na única hospedagem daquele vilarejo sem nome; e nem por um instante mais iria me irritar com a presença de um, dois ou mesmo três dos seis gatos persas da bendita senhora Margot que, não satisfeitos em ocuparem os quartos da pousada, resolviam se instalar na minha cama no meio da noite. Não! Acordei naquele dia determinada a não permitir que nada abalasse o meu bom humor, e por isso fiz um plano que não tinha chance de dar errado: ir até a livraria local, respirar aquele cheiro maravilhoso de livros acumulados, escolher um que estivesse sussurrando o meu nome silenciosamente da estante e ir até a cafeteria mais próxima comprar um delicioso chocolate quente e ficar por lá, lendo. Eis uma sequência de eventos impossível de dar errado... Exceto pela presença de uma certa criatura que resolvera comprar um livro e sua continuação, exigindo que ambos tivessem o mesmo valor. E não sendo o seu desejo realizado, decidira por iniciar um espetáculo dantesco com o pobre senhor do caixa, dono da própria livraria.

                Respirei profundamente, fechei os olhos e tentei imaginar uma paisagem tranquila, com uma corrente de água suave e serena, mas a voz da mulher invade a minha mente e ela aparece na minha correnteza, fazendo surgir um tsunami que estava para me engolir quando ouvi...

                - O que não faz um coração que pede por amor, não é mesmo?

                Abri os olhos e olhei em volta, mas não vi ninguém por perto (considerando que a maioria dos clientes se aproximara do show que acontecia no caixa). Ergui a sobrancelha, indagadora, quando escutei novamente...

                - E ainda há quem insista em dizer que a dor da solidão não mata...

                Prestando atenção à direção do som, percebi que a voz vinha de trás da estante diante da qual eu me encontrava. Tentei olhar por entre os livros para ver o dono daquelas palavras, mas estavam todos tão conglomerados que foi impossível ver claramente quem falava do outro lado. Só pude perceber traços de um rosto bem desenhado, e uma fração do que parecia ser uma barba bem aparada. Sentindo-me ligeiramente boba por falar com uma estante, respondi olhando para nada em particular:

                - Não acho que isso seja falta de amor, e sim, de educação... e bom-senso. Francamente... Para que esse escândalo todo? Tudo por causa de uma diferença de valor tão pequena...

                - Exatamente... Não percebe? O abismo dentro dela se tornou tão insuportável que ela tenta se agarrar aos pequenos e passageiros momentos em que lançam algum tipo de olhar sobre seu ser, qual um náufrago em suas tentativas desesperadas de se agarrar ao último pedaço de madeira de sua frágil embarcação... Quanto vazio ela deve ter em sua alma... Quanta falta...

                - E não é por menos, não é? Venhamos e convenhamos... Quem aguenta viver com uma pessoa que nem ela?

                - Você realmente acha que alguém escolhe ser assim? Que alguém escolhe acordar todos os dias sozinha, olhar para os lados e perceber que os únicos companheiros que lhe restaram foram dor e solidão? As pessoas, minha cara, criam comportamentos como esse como forma de defesa contra uma vida que já lhes feriu demais. Se tornam o espelho da amargura por que desistiram de lutar contra tantos espinhos que lhe encrustaram a alma. Passam a desferir golpes e ofensas antes que mais uma circunstância desse universo caótico lhes chegue qual espada a golpear seus corações. O comportamento agressivo e repugnante nada mais é do que uma armadura, uma forma de manter tudo e todos bem longe, para não correr o risco de sofrer ainda mais...

                “Essas pessoas não percebem, no entanto, que a vida não é um livro em branco, no qual escrevemos a nossa história como bem queremos. A vida é, sim, um grande barco à vela, dentro do qual a única opção que temos é orientar o nosso destino de acordo com a direção que o vento nos oferece. Não podemos determinar as circunstâncias que chegam até nós, sejam elas deliciosas oportunidades ou dolorosos enfrentamentos, mas podemos e temos o dever de lidar com cada uma dessas ocorrências e fazer com que eles representem degraus de ascensão, e não motivos de estagnação. Não somos donos do nosso destino, porque esse grande senhor das coincidências reside no futuro. Somos donos de nossos passos, aqueles que insistimos em dar diante e apesar de tudo que nos ocorre, recusando a parar a jornada e permanecendo firme na trajetória.

                “Podemos traçar curvas e nos perder na encruzilhada... Podemos ferir nossos pés em estradas por demais pedregosas que porventura nos aventuramos; ou mesmo viver momentos de desespero ao nos depararmos com abismos que se abrem diante um caminho que findou-se sem percebermos. No entanto, está em nosso ser a coragem para voltar atrás e escolher novas direções; e a força para construir nossas próprias pontes, atravessando vazios e criando novas rotas em nossa própria história.

                “A vida, minha cara, dá a cada um de nós um único presente quando nascemos: a possibilidade de agir e reagir diante o que nos acontece. Ninguém, absolutamente ninguém, é prisioneiro do acaso, flutuando sem rumo segundo os desejos insanos da eventualidade. Todos têm o livre-arbítrio, de forma a responder a cada estímulo da vida conforme nossas próprias escolhas. E é a partir desse movimento de ser ativo diante da existência que não nos permitimos afogar nas ofensas recebidas, deixar feridas de rancor abertas ou mesmo cultuar espinhos de tristezas cultivadas. Não! O que a vida nos pede desse único presente que nos oferece é que tenhamos fé para seguir no escuro das incertezas; força para levantar nas quedas; perdão para desatar as correntes da estrada; determinação para seguir adiante e, acima de tudo, amor. Porque o amor deixa de ser somente um sentimento de renovação de almas, e passa a ser energia potencial que impede que aquele nosso barco da vida naufrague. É o amor, em transcendência, que traz brisa fresca e horizonte de alvorada para todos nós, viajantes desse oceano gigante e tão maravilhosamente desafiante que é estar vivo, e ser diante a vida.”

                Inebriada por aquelas palavras que pareceram me envolver em ondas de esperança e renovação, permiti que o ar adentrasse em meus pulmões como que aquebrantando as minhas próprias correntes íntimas, em um movimento delicioso de libertação e autodescobrimento. Necessitando conhecer o autor de tão belas frases, apressei em dar a volta na estante, me perguntando porque não havia feito isso antes. Quando chega ao outro lado, no entanto, não vejo ninguém. Ando pelas outras estantes, sem entender, pois a única saída estava bloqueada pelo grupo de clientes diante o caixa, e não havia ninguém que se assemelhava ao pouco que eu havia visto pelas frestas dos livros. Ainda confusa, deixo-me aproximar lentamente, como que no automático, até a senhora que ainda bradava diante o caixa. Não percebi quando me coloquei diante dela e ela, também surpresa com minha presença desconhecida, se calou por um instante e me lançou um olhar inquisidor.

                - O que quer?!!! – perguntou, agressiva, e todos se calaram, aguardando minha resposta.

                Mirei seus olhos verdes que naquele momento fumegavam de energia, e as rugas que marcavam um rosto que, tenho certeza, deveria ser belíssimo quando se permitia sorrir. Para surpresa de todos, e minha também, simplesmente... a abracei. Após um espanto inicial, ela, para minha surpresa, não demonstrou nenhuma resistência, e se permitiu ser abraçada, deixando escorrer em meu ombro lágrimas quentes de socorro, de desespero, de solidão.

                Abrindo discretamente os lábios, sussurrei, para que só ela me escutasse:

                - Você já carregou essa dor tempo demais... É hora de deixar que ela vá com as águas do oceano, levantar âncora, e se permitir velejar para novas auroras, porque o horizonte infinito se abre com uma única e deliciosamente maravilhosa opção para você: ser feliz.