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EM TEMPOS DE PANDEMIA: Um recado, um adendo, um café...

01 de Janeiro de 2020 às 15h50

Ana Cecília Novaes

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Ah, finalmente se dispuseres a me ouvir...

            Há quanto tempo venho batendo em suas casas, gritando em suas janelas, implorando aos teus ouvidos que abrissem as portas de teu universo para que eu entrasse...

            Para que eu entrasse em teu particular criando um verdadeiro pandemônio, trazendo tormentas e raios incólumes, fazendo tremer as paredes e ranger o chão! Entrasse mudando completamente a dinâmica de teu hábito, urrando sobre seu conforto, empurrando-te contra os móveis de tua irredutibilidade, destruindo teus álbuns de lembranças e apegos estáticos e afundando-te nos destroços de teu particular. Esse particular repleto de um ego mesquinho, capaz de pisotear multidões para criar sua própria escada de ascensão... repleto de medos obscuros, que lhe servem como algemas que queimam as suas próprias asas de redenção... repleto de orgulho prepotente, lhe convidando ao pódio da solidão e aos aplausos do vazio... repleto de inseguranças fatídicas, que lhe amordaçam a alma, roubando-lhe a própria voz... repleto de inveja e ciúmes, de rispidez e prepotência, de tristeza e desespero... Ah, como eu desejei entrar por entre as frestas de sua inconsciência, eletrocutando teus ideais infundados, cobertos por máscaras para que escondessem tua real motivação em satisfazer-te, a si, e a ti mesmo. Encontrar em tua mente todas as sombras do passado e apresentar-lhes a luz, transformando a tua crise existencial em pleno espetáculo de lindos horrores! Ah, sim! Como eu desejei entrar e adentrar em tua consciência, alcançar os teus espinhos e despedaçar as tuas rosas de falso carmim! Sim, como eu desejei que me escutasse, que olhasse para mim, e que me visse tal qual eu sou: O CAOS! A manifestação real de tudo o que você foge, nessa tentativa infantil de criar fantasias de um mundo perfeito! Ah, meu caro, eu sinto muitíssimo, mas não há nada mais prazeroso nesse momento do que lhe mostrar, de forma nua e crua, o que eu sou capaz de fazer! E sabe o que é? Eu sou capaz de transformar...

            Eu sou a força motriz da transmutação, aquilo que lhe adentra as profundezas do ser de tal forma que lhe faz calar a voz do mundo e escutar a tua própria. Sou o furacão que desorganiza seu lar íntimo e lhe obriga a reorganizar cada detalhe de suas particularidades, limpando a poeira das mágoas, lavando os tapetes das decepções e abrindo as janelas das possibilidades futuras! Eu sou a tempestade que se propõe inundar teu reduto de perfeição, lhe convidando a criar sólidas bases de fé e confiança por sob os verdadeiros pilares de construção e verdade. Eu sou o oceano que, agitado, lhe faz mergulhar muito além de seus próprios limites, por vezes no limiar da exaustão, lhe provando que a força transborda de dentro, e nos momentos em que você mais de sentia fraco. Eu sou raios e trovões em gritos efusivos, lhe fazendo rever conceitos, realinhar pensamentos e modificar condutas, em um movimento de inteira reconexão com tuas verdades naturais, teus valores indeléveis, teu recanto pessoal.

Eu sou o caos, que lhe oferece a chance de metamorfose, em um palco onde o outro é apenas coadjuvante de tua própria obra de arte pessoal! Eu sou o caos, que lhe faz cair no mais profundo abismo de inconstâncias, só para lhe provar que você é, sim, capaz de alçar os voos rasantes mais belos e valorosos!!! EU SOU O CAOS, que não têm pena de ti, porque eu, eu sim, sei o tamanho da sua força, a magnitude de seu potencial, o valor de sua brandura, o tamanho de sua bravura! Eu sou tudo o que mais temem, porque eu me recuso a lhe tomar menor do que você realmente é!

Eu lhe trato como gigante, pois grandiosas são suas realizações, seus sonhos, sua missão, sua jornada! Eu lhe trato como gigante pois não são pequenos os teus passos, e não serão tímidos os seus saltos! Eu lhe trato como gigante, pois que eu sou o CAOS, e você é o equilíbrio! Eu sou o caos, e você é estabilidade! Eu sou o caos, e você é renovação! Eu sou o caos, e você é alvorada! Eu sou o caos, e você nada mais é do que a expressão mais lindamente imperfeita de um universo que, diante o caos, se dispõe à regenerada evolução!

            Ah, que bom que finalmente se dispuseres a me ouvir...

            Pois agora posso lhe dizer que sim, eu eventualmente irei passar... Mais cedo ou mais tarde, a direção do vento há de mudar, e terei de buscar outras paragens, pois que meu trabalho contigo vai ter terminado... Será tempo de primavera, e tu não estarás recuperado, mas infinitamente melhor do que na minha chegada. Será tempo de vida nova, encruzilhadas cruzadas, jornadas renovadas e sopros de plenitude. O sol irá se abrir e seus raios tímidos irão, gradualmente, revelando o novo universo particular que se reconstruiu após a minha passagem. Tu respirarás aliviado, deixará lágrimas de exaustão e alívio escorrerem por tua face, e olhará para um mundo interior absolutamente novo e pronto para você. Mas até lá, enquanto estiveres sentindo a minha presença, quero deixar bem claro que eu não amenizo a luta, porque sei que você tem as armas necessárias para vencê-la. A grande diferença entre eu e você é que enquanto você quer acreditar na vitória, eu tenho certeza de que tu és vitorioso. Por isso eu não cedo. Não se trata de suposição, porque não tenho espaço para dúvida. O nome disso é fé.

            E a minha por ti é inabalável.

            Um adendo: lhe garanto, eu vou passar.

            Até lá: tome uma xicara de café, arregace as mangas e mãos à obra. Ambos temos uma missão. Não é hora de descansar.