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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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27/09/2018 às 17h30

Ed - parte 1

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- Francamente! Deveriam acrescentar uma estrela a esse hotel pelo prêmio de lentidão e incompetência dos funcionários! – disse, em alto e bom som, uma titia Gertrudes absolutamente irritada, com as bochechas já vermelhas de tanto arfar na orelha da moça à nossa frente que, educadamente, lançava risinhos desconfortáveis em nossa direção enquanto discretamente se afastava de titia o máximo que conseguia. – Estamos aqui há horas e nada, absolutamente nada é feito para resolver essa situação!

                - Ora, titia... Seja compreensiva! – sussurrei, numa tentativa desesperada de fazê-la reduzir o volume da voz, pois já não estava mais aguentando os olhares de crítica lançados por quase trinta pessoas desconfortavelmente acomodadas em um salão de hotel sem ar condicionado, ao meio dia do que, provavelmente, seria o pior verão de todos os tempos. – Todos aqui estão com o mesmo problema que nós. Não é culpa dos funcionários do hotel que a energia tenha acabado e o sistema esteja fora do ar... – disse, olhando para o rapaz atrás do balcão da recepção, cujo uniforme com o crachá dizia “aprendiz”, que batia desesperadamente nas teclas de um computador absolutamente apagado e que, provavelmente, estava se perguntando o que havia de errado em sua vida para merecer um dia daqueles. - Eles já disseram que estão providenciando a manutenção, e logo tudo estará resolvido.

                - Logo? “Logo”, você diz, heim? “Logo” provavelmente será tarde demais! Até lá já estaremos mortos e enterrados sob esse calor desumano que consome as nossas almas até o mais profundo de nossas entranhas! – disse, finalizando com uma pose dramática e absolutamente desnecessária, já que acabou por pisar, sem perceber, no pé de um senhor que estava atrás de nós com feições muito pouco amigáveis diante a inesperada circunstância em que nos encontrávamos.

                - O ar condicionado voltará a funcionar assim que a energia voltar. Se a senhora puder se acalmar um pouco...

                - CALMA? - bradou, mais alto do que qualquer um de nós gostaria. – Você me pede calma?  Ah! Sou incompreendida por minha própria sobrinha! – disse, colocando uma mão sob a testa em plena (e exagerada) atitude de compaixão. – Vou aliviar seu fardo, querida! – exclamou, enquanto pegava sua mala e arrastava desajeitadamente entre as pessoas que, alegremente (e aliviadas, devo dizer), abriam espaço para que ela passasse e saísse por uma das portas do saguão.

                - Era o que me faltava... – murmurei, escondendo o rosto entre as mãos, e tentando alcançar em minha mente o lapso de tempo no qual me permiti ser levada pela insanidade, propondo essa viagem a titia.

Imaginei que seria uma boa forma de retribuir-lhe os dias em que me hospedou, por muito mais tempo que eu havia planejado inicialmente, devo admitir... Se me perguntassem, talvez eu não saberia dizer o que havia de tão fascinante naquela cidadela onde titia Gertrudes residia há mais de cinquenta anos e, honestamente, meu plano de pernoitar e seguir minha viagem simplesmente se perdeu em meio àquele jeito exótico (e um tanto espalhafatoso) de minha querida titia. Verdade seja dita, os dias foram muito proveitosos para mim; e ela, apesar de não admitir, deve ter gostado muito da companhia, tendo em vista a cena dramática (para variar) que fez no dia em que eu disse que era hora de partir... Vencendo-me pela chantagem emocional, resolvi ficar mais um pouco... Digo, a quem me perguntar, que foi para não deixa-la só, tão cedo; mas vez por outra algo me diz que, na verdade, fora pela meu próprio desejo de não estar sozinha mais uma vez, que fiquei.

Seja como for, pensei que uma forma agradável de retribuir minha estadia prolongada em sua casa seria propondo uma viagem (“curta, é claro, pois não posso perder o jogo de pôquer na segunda”, segundo ela) a uma vila próxima, onde o único hotel da região ofereceu uma promoção de fim de semana fantástica, com direito a todas as refeições e um jantar dançante nostálgico. Levei apenas uma semana para convencê-la a ir, com a condição que a senhora Odalinda, nossa doce vizinha da direita, ficaria com as chaves da casa para regar “três vezes por dia meu precioso Amor Perfeito, que está para florescer, então atenção!” – como ela ainda repetiu pela milésima vez, enquanto eu dizia ao taxista para dar partida o mais rápido possível - ; e, para cuidar de Garibaldi Feliciano, seu inestimável gato cujos olhos de duas cores me encarava sombriamente, acusando-me silenciosamente por separá-lo de sua fonte inesgotável de leite, amor e bolachas (a julgar por seu rechonchudo abdome, creio que um tempo longe de titia lhe fará bem...). Creio que o abençoado se sentiu tão injustiçado que nem apareceu para se despedir, deixando uma pobre doce senhora Odalinda chamando (talvez por horas, a julgar que o gato parece ser meio surdo, por vezes) o seu nome, enquanto partíamos no taxi.

                Observando a forma como titia se deslumbrava com a paisagem ao longo de nossa viagem, estava começando a me sentir orgulhosa de mim mesma, pela brilhante ideia que tive, até que chegamos ao hotel. Devo dizer que fiquei encantada com sua belíssima arquitetura do século passado, desenhando a singela, mas firme, construção de quatro andares; e com o ar um tanto bucólico da área (afastada do centro da cidade) onde ele se encontrava, mas assim que nos deparamos com cerca de trinta pessoas impacientes que vieram em busca da mesma distração (e promoção) que nós, mas que se aglomeraram em uma recepção que nada perdia para o verão asiático, aguardando o retorno do sistema de check in e das tão bem vindas atividades do ar condicionado, percebi que sim... talvez, somente talvez... aquela teria sido uma péssima ideia.

                E minha constatação só foi comprovada pela atitude intempestiva de titia, que com certeza já teria sido gentilmente jogada para fora da janela por um casal de namorados que a encarava do outro lado do saguão, secando as gotas de suor a cada reclamação que ela proferia, não fosse a benção do respeito à sua (nunca tão venerada) terceira idade. Olhando preocupada para a porta por onde ela tinha passado, pensando que talvez alguém pudesse executar o plano mental do casal do outro lado do saguão, escutei uma voz o meu lado:

                - Não se preocupe com ela. – disse. – Ela vai encontrar o que procura.

                Olhei em direção ao som e me deparei com uma figura absolutamente peculiar e... fascinante. Tratava-se de um homem incrivelmente magro, com o rosto afilado sustentando um par de olhos grandes demais para aquele corpo mirrado e esquálido. Os fios de cabelo ralos mesclavam tons estranhamente concordantes com os olhos castanhos e tão expressivos. Vestia um macacão azul escuro, com uma plaquinha no lado direito do peito escrito “Ed.” Nas mãos segurava uma vassoura velha, tão esguia quanto seu dono e na cabeça trazia um acessório incrivelmente dissonante com todo o seu vestuário: uma cartola. Com um sorriso estranhamente familiar ele, melodiosamente, deitou a cabeça na ponta da vassoura e pôs-se a me fitar.

                - O senhor me parece tão familiar... – eu falei, pausadamente, sem conseguir desviar a atenção daquele olhar tão intenso.

                - Quem sabe não nos esbarramos nesses tantos ontens? – disse, levantando o rosto matreiramente e rindo... uma risada forte, viva, quase palpável. – Eu sou o Ed. – e, assumindo uma postura ereta e absolutamente cavalheiresca, ergueu a mão em cumprimento.

                - Muito prazer, senhor Ed. Eu sou...

                - “Senhor” não... Só... Ed. – ele disse, desfazendo o sorriso e assumindo feições algo... sombrias.

                - Tudo bem... Ed.

                - Assim está melhor! – disse, voltando a iluminar o rosto e balançando minha mão com ênfase e animação. – Em que posso lhe ser útil, senhorita? – falou, erguendo a cartola e fazendo uma breve reverência.

                Achei graça do seu comportamento, incompatível com a vestimenta e possível função de zelador daquele modesto hotel, mas quem seria eu para questionar? Afinal, que mal poderia fazer uma cartola? Simplesmente sorri e, olhando em volta, respondi:

                - Bem, Ed... Quem sabe um cafezinho gelado com chantilly e uma brisa fresca? – brinquei, e continuei. – Com certeza amenizaria muitas feições emburradas, no momento... – falei, olhando para o senhor cujo pé titia havia pisado, e que agora estava perigosamente sentado sobre suas malas que, heroicamente, sustentavam um provável hábito de ingestão diária de carboidratos e afins.

                -  Você acha? Hoje em dia as pessoas buscam demais, e se contentam com tão pouco... – ele falou, apoiando novamente a ponta do queixo na vassoura, e pondo-se a observar o senhor.

                - Não faz sentido... Quem muito busca não vai se contentar com pouca coisa...

                - Pelo contrário, senhorita. Quem busca demais acaba se perdendo no caminho, e em meio ao desespero de se encontrar em sua própria desordem, acaba se agarrando ao primeiro sopro de verdade, a qualquer suspiro de liberdade, à mínima aparência de compaixão. Se contenta com pouco, e se perde na pequenez.

                “O mundo cria ilusões diariamente, e convence as pessoas de que devem se esforçar para alcançar cada tesouro de prata que reluz em ouro, e se desfaz qual areia... Fortuna a qualquer preço, fama sob a imoralidade, sucesso derrubando quem sobe, felicidade destruindo sonhos, desejos ignorando a realidade... Cada um cria para si um espectro de exigências e buscas desenfreáveis, desejando desesperadamente e quase que de forma desumana conquistar um ideal que é absolutamente fantasioso.

                “Esquecem de sondar os tesouros da alma, que efetivamente dão sentido à caminhada diária. Deixam de abraçar um filho, para não atrasar no trabalho. Deixam de visitar um pai, para não comprometer uma promoção. Deixam de desejar boa noite a uma filha, para estar em uma viagem de negócios. Deixam de se permitir serem enlaçados, beijados, e amados, por estarem ocupados demais sendo alguém para o mundo, e ninguém para si próprio. Cobram perfeição, exigem vitórias, e buscam... Buscam cada dia mais... E quando se percebem perdidos no vazio da existência, sozinhos em suas próprias conquistas que, afinal, não mais parecem tão valorosas assim, sucumbem ao desespero, e se agarram à qualquer manifestação de sentido que surge em seus caminhos. Um vício que ameniza temporariamente a dor... uma companhia que apaga momentaneamente lembranças dolorosas... uma tentativa desesperada de se encontrar saída da prisão criada por si próprio, perdidos em suas mentiras particulares, desejando compaixão e absoluta libertação.

                “E se esquecem que a verdade sopra em todo instante que se lança o olhar para as frestas da própria consciência, encarando a si próprio, e aprendo a se amar. A liberdade é reino particular onde descansa a paz de espírito, e a gratidão por viver. E a compaixão... é sentida em todos os instantes em que uma força maior lhe permite despertar e começar tudo de novo, se for necessário, até que se encontro sentido e caminho nesse eterno escalar.”

                Olhei para ele absorta, imersa em suas palavras e, mais ainda, em seu magnetismo tão singular.

- Quem sabe você devesse verificar se sua tia encontrou o que estava buscando... – disse, apontando para a porta por onde ela tinha passado. Olhei para a direção que ele mostrou e assim que virei meu rosto para o local onde ele estava, já não mais o vi. Em meio àquela multidão de pessoas não consegui mais identificá-lo, mas decidi que, durante nossa estadia, iria procurá-lo pois, curiosamente, ele criou perguntas cujas respostas eu precisava encontrar.

Passando pela porta, comecei a procurar titia ao longo do corredor daquele antigo hotel. Chamando pelo seu nome, quase desisti da busca quando, ao longe, ouvi um barulho.

Vinha do andar inferior, cujo acesso se dava por meio de uma escada em espiral, estreita e potencialmente perigosa. Não achei que titia pudesse ter se aventurado por aquela área, mas ouvi novamente um barulho, agora mais nítido, e estranhamente familiar...

- Ah, meu Deus! – exclamei, quando reconheci o som e desci correndo pela escada.

No andar inferior me deparei com titia e Garibaldi Feliciano, seu petulante gato, em seu colo, tomando leite que ela lhe dava numa vasilha. Eu talvez seja exagerando, mas poderia jurar que o bendito gato me laçou um olhar de satisfação e vitória, ao colocar na boca uma bolacha que titia acabara de tirar da bolsa.

- Titia! De onde esse gato surgiu?

- Ora... da minha mala, é lógico! Você achou que eu realmente iria viajar sem meu fiel companheiro? Por isso eu precisava sair daquela recepção absurdamente quente! O pobre Garibaldi já estava ficando sufocado na minha mala, coitadinho...

- A senhora ficou maluca? Eles não aceitam gatos nesse hotel, e eu já tinha explicado isso! Vamos ser expulsas, sem nem mesmo ter entrado!

- Não seja tola! Ninguém saberá que ele está conosco! Será uma viagem completa e perfeita, agora!

Eu ia contestá-la, mas foi nesse momento que percebi onde estávamos. Era um quarto pequeno, com uma cama velha, uma mesinha e uma única cadeira, onde titia estava. Na parede, um porta retrato pendurado revelava uma foto datada da inauguração do hotel, há noventa e sete anos atrás, de acordo com a data registrada. O provável dono, na época, sustentava um sorriso enorme, cumprimentando o prefeito que havia vindo para a inauguração. Várias pessoas assistiam e aplaudiam a cena, exceto um homem, magro; esguio; a cabeça recostada numa vassoura; os cabelos escondidos por uma cartola; um olhar profundo que não encarava as pessoas da foto, mas a mim, diretamente; e um crachá dizendo: Ed.