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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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22/05/2018 às 11h55

Carta à Estrela da Manhã

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“Minha cara amiga...

                Talvez esteja surpresa por ler essas minhas palavras... francamente, eu também me espantei pela inexplicável e súbita vontade de escrever-lhe, mas como bem sabe, eu nunca tive domínio sobre esse vendaval de sons e tons que rondam insana e constantemente no silêncio de minhas inconsciências, e por isso me vi obrigada a vir lhe falar...

                ‘Obrigada’ talvez não seja o termo mais adequado, devo admitir, e o simples fato de estar lutando contra palavras que, usualmente, vêm de forma natural até mim, já revela o quão desconfortável eu estou neste momento... E talvez seja recíproco, dado a sua súbita partida, sem ao menos se despedir...

                Por muito tempo eu fiquei me questionando o que faltou lhe dizer naquele breve intervalo de tempo que marcou a nossa última troca de olhar, para mim tão corriqueiro, e para você já uma despedida silenciosa... Perpassei várias e várias vezes, repetidamente, o nosso último diálogo... Colamos tantos sorrisos em nossas máscaras de mundo, usamos tantos substantivos e adjetivos inúteis que, talvez, tenha faltado um verbo ‘fique’, em meio ao nosso simulado estar...

                Repassando aquele breve encontro, inusitado, mas tão valioso, agora eu percebo... Senti raiva... por não poder voltar atrás e te abraçar mais uma vez... Senti um vazio... por perceber minha incapacidade de controlar o tempo, ou prever o futuro... senti-me impotente... por não alcançar o teu particular antes que você se virasse e seguisse seu caminho, sem mim...

                E por fim, senti... paz.

                Uma paz inexplicavelmente confortadora, que invadiu o meu ser e me embalou suavemente, quando percebi que não havia nada que pudesse fazer diferente, pois você, simplesmente, tinha que partir...

                Percebi que não havia palavras ou gestos errados num tempo que se chama passado, pois não alcançamos aquilo que não podemos mais modificar... Aquele istmo de tempo, aquela troca de olhares, aquele “até logo” que nunca chegaria... tudo deveria acontecer exatamente daquela forma, pois simplesmente havia chegado a hora...

                E eu, finalmente, consegui perdoar.

                Não a você, por ter partido.

                Mas a mim, por ter ficado num tempo presente onde não havia mais você.

                E então, eu finalmente consegui pegar a minha xícara de café, sentar e escrever-lhe essas palavras que, eu espero, lhe cheguem com gosto de prosa,

                Sabor de poesia,

                E aroma de eternidade...

                Que é onde, eu espero, você esteja me aguardando,

                Para rir com seu jeito característico, e dizer:

                ‘Não era um adeus, sua boba...

                Mas apenas um até logo’”