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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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04/05/2017 às 17h05

Casa na Árvore

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            - Só... faltam... cin... cin... cinco... quilô... quilômetros... de... vol... ta... – ofeguei, me jogando contra uma árvore ao lado, esperando verdadeiramente que seus galhos me pegassem no colo e suas raízes se desprendessem do solo, me levando de volta à cidade.

            “De todas as ideias estapafúrdias que eu já tive, essa, definitivamente, foi a mais estúpida!”, pensei, enquanto me deixava escorregar pelo tronco abaixo, sentando no chão de terra que, àquela altura, mais parecia um trono de conforto, diante a minha exaustão. Tentando retomar o ritmo normal dos meus frenéticos batimentos cardíacos, sequei o suor que escorria do meu rosto como uma verdadeira chuva de ironias do universo que, naquele momento, ria do meu completo e vergonhoso despreparo físico...

            “Essa é a roupa perfeita para longas corridas de resistência”, disse a simpática (até demais, agora eu percebo...) vendedora da mais nova lojinha de vestuários e acessórios da cidade. Um conjunto impecavelmente desenhado para combinar com os tênis que ela também me convenceu a comprar, ideais para “as distâncias a serem desbravas em suas corridas diárias”, o que provavelmente seria perfeito, não fosse o pequeno detalhe de que a única corrida diária que eu fazia era aquela pela manhã, para ser a primeira a usar o banheiro, antes de titia Gertrudes (já que sua pele parece necessitar de prolongadas máscaras de pepino matinais...). Mas, dado o súbito espírito esportivo que assumiu total controle da minha mente facilmente hipnotizada por um bom discurso de uma vendedora de uma lojinha de vestuários e acessórios, aqui estou, há cinco quilômetros do centro da cidade, no meio da mata que a circunda, usando o kit de corrida que acabei de estrear (afinal, já que comprei, eu tinha que usar, lógico.), e que desejo ardentemente tirar, porque sinto que o todo o oxigênio meu corpo foi sugado pelas tecnológicas fibras dessa roupa que nunca mais pretendo usar.

            Envolvida pelos meus angustiosos pensamentos sobre ter que fazer todo o caminho de volta, e desejando ardentemente um refrescante café gelado com chocolate, mal percebi quando um estralo ressoou em meio às árvores à minha volta. Olhando em volta, não via nada além de troncos e galhos retorcidos. Novamente, outro estralo. Começando a ficar assustada, olhei novamente, e arrisquei o infalível método de não mostrar medo ao inimigo, perguntando:

            - Q-q-quem e-está a-aí?... – ok... saiu com um tom muito mais medroso do que eu imaginei, mas foi o melhor que eu consegui, naquelas circunstâncias.

            Outro estralo.

            Estava prestes a ressuscitar as minhas forças e sair correndo dali, em disparada, quando percebi que o som não vinha das árvores ao meu lado... Mas de cima...

            Vagarosamente, virei minha cabeça para cima e me deparei com um par enorme de olhos me encarando, com curiosidade, e uma boca que se movia estranha e ruidosamente em um constante e trabalhoso movimento de... mascar chicletes.

            Virando completamente meu rosto e ajustando meu campo de visão, percebi, abismada, que se tratava de um garoto, de cerca de oito anos de idade, com um par de óculos de garrafa incrivelmente polidos, em uma fantástica e gloriosa... casa na árvore. Camuflada pelos galhos daquela imensa árvore, a estrutura passaria despercebida por quem seguisse pela estrada que cortava aquela área, mas era bem evidente quando se observasse, atentamente, a estrutura magnífica ali construída.

            Aqueles olhos de coruja me observavam atentamente, piscando em um compasso rítmico com o som do chiclete em sua boca, quando, subitamente, falou:

            - Você respira muito alto.

            Achando graça do comentário, indaguei:

            - E tem um jeito baixo de respirar?

            - Claro! – respondeu – Desse jeito você nunca poderia ser um aventureiro como eu. Nós precisamos ser silenciosos e perecisos...

            - Você quis dizer “precisos”...

            - Foi o que eu disse. – falou, piscando os olhos por trás das lentes, e desaparecendo dentro da casa.

            Curiosa, lancei a pergunta para o ar:

            - Foi você quem construiu essa casa na árvore?

            - Não seja boba. – a resposta veio de dentro da construção – eu sou muito pequeno para isso, não acha?

            Com um sorriso constrangido nos lábios, concordei.

            - Meu pai construiu ela para mim. – a resposta veio. – Ele também me ensinou tudo sobre ser um aventureiro. Por isso são tão bom nisso.

            - Uau! – exclamei - Seu pai deve ser o máximo!

            - É... ele era.

            Fiquei em silêncio. Não sabia exatamente o que aquilo representava para uma criança tão pequena, mas arisquei:

            - Era?

            - Sim... Ele morreu há um mês.

            Calei-me. Realmente, eu não esperava que a conversa tomasse aquele rumo e desejei, desesperadamente, ter saído dali antes. Sem saber o que falar, fui salva daquele silêncio incômodo pelo próprio garoto, que disse:

            - Não precisa ficar esperando o meu choro, tá? – falou com serenidade. – Todo mundo que me vê fica dizendo o quanto isso tudo é triste e como eu devo estar chorando todos os dias... e começam a chorar. – uma pausa. – Minha mãe está chorando todos os dias, e as pessoas dizem que era para eu estar chorando todos os dias, e acham estranho eu não chorar todos os dias... Você acha que eu deveria chorar todos os dias?

            - Bem... você se sente triste? – arrisquei.

            - Sinto saudades, mas eu não fico triste, porque sei de algo que eles não sabem... – disse, num tom misterioso. – Se soubessem, eles não chorariam todos os dias, e nem a minha mãe...

            - E o que você sabe? – lancei a pergunta.

            E, de repente, seus olhos apareceram novamente no vão do chão da casa, e ele disse:

            - Vem ver.

            Desconfiada, olhei para as tábuas de madeira pregadas no tronco da árvore, que serviam como escada, fortes o suficiente para um garoto de oito anos, mas com uma capacidade questionável de sustentar o peso de uma jovem nada atleta como eu.

            Impaciente, ele disse:

            - Vem logo!

            E contrariando a voz de autopreservação que gritava na minha cabeça para não ser maluca e subir naquela casa, eu fui.

            Vagarosamente, testando a resistência de cada “degrau” antes de colocar meu peso neles. E assim, cheguei até o interior da construção, me deparando com um cômodo modesto, contendo uma mesinha de madeira, provavelmente construída com os galhos daquela mesma árvore, um banquinho de madeira e vários envelopes espalhados pelas paredes rústicas. No centro da casa, o dono do par de olhos de coruja me observava, curioso:

            - Além de escandalosa, você também é lenta demais... Mas deixa para lá. – e tomando uma postura solene, falou – Meu pai era o maior aventureiro de tooooodos os tempo, de todos os mundos, de todas as galáxias!!! – disse, abrindo os braços para deixar claro o tamanho de sua animação. – Ele já tinha vivido muitas aventureiras, e me disse que ia ter que sair para uma nova, só que essa seria a mais especial de todas!

            “Ele estava doente, sabe?... Disseram que tinha uma coisa nele que fazia mal, e que não dava para tirar... e que por isso ele ia morrer. Me disseram que quando alguém morria, ela desaparecia, e a gente ficava triste. Mas no dia que meu pai descobriu isso, ele me trouxe aqui e disse que tinha um segredo que ninguém sabia, e que ele ia me contar! – falou, com os olhos brilhando com a lembrança – Ele me falou que morrer era, na verdade, a maior aventura de todas! Que ele ia para um lugar novo, que só algumas pessoas tinham coragem para conhecer! Ia ter que vencer a dor da saudade, o medo de estar sozinho, a tristeza de não estar com a gente como ele gostaria...”

“Ia ter que ser muito valente, para não desistir no meio da aventura e voltar, deixando de vencer o desafio... Ele teria que usar da inteligência para aprender a viver lá, e da esperteza para usar tudo o que teria para criar um novo lar. Ele me falou que não estaria sozinho, porque um verdadeiro aventureiro sempre cria bons amigos pela estrada, para ajudar quando precisa! E que mesmo quando quisesse sentar e chorar, porque a aventura também cansa e machuca, ele ia olhar para as estrelas e lembrar que em algum daqueles pontos estaria eu e minha mãe, esperando que ele preparasse o lugar para chegarmos, vencendo as nossas próprias aventuras!”

E virando-se para um dos vários envelopes que cobriam toda a casa internamente, falou:

- Ele me disse que precisava passar por essa aventura sem mim, porque cada aventureiro tem seus desafios e suas vitórias. Mas que quando nos encontrássemos de novo, ele me contaria tudo o que viveu, e estaria orgulhoso do aventureiro que eu vou me tornar! – disse, orgulhoso. – Ele me disse que a tristeza é lama, prende e não deixa fluir... mas a saudade é ponte, fazendo unir aqueles que, na verdade, nunca estão separados.

“Ele escreveu um segredo em cada envelope desses, e disse que quando a saudade apertasse muito, ameaçando virar tristeza, eu teria que vir aqui, pegar um envelope, e ler. Assim, a saudade viraria coragem, e a coragem vira força para continuar”.

Com lágrimas embaçando completamente minha visão daquela pequenina fonte de doçura e sabedoria, perguntei, com a voz embargada:

- Você veio hoje... e pegou algum envelope?

- Sim. – disse, com um sorriso nos olhos, levantando um papel aberto. – aqui diz: “Silencie... e escute... estou em cada som que não precisa soar, e em cada voz que não precisa falar... Porque estou em ti, e aí sempre vou estar.”