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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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17/03/2017 às 16h15

Com amor, eu.

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               “EU - TE - AMO!”

            Gritei, e repeti, e gritei de novo, fazendo questão de ignorar os olhares fuzilantes que se voltaram para minha mais sincera declaração de amor! Sorrindo, quase deixei uma lágrima rolar pela minha face, e inspirei profundamente, de forma que o aroma inebriante e absolutamente mágico daquele espresso con panna chegasse o mais profundo possível em meu centro receptor do olfato, me levando ao ápice do deleite! Fechei os olhos, aproximei a xícara e, olhando profundamente para aquela mistura dos deuses, me declarei:

            - Eu verdadeiramente te amo, meu doce e insubstituível espresso con panna. – e beberiquei o líquido lentamente.

       - E você falou o mesmo para o “expresso comum”, o “maltado da casa” e o “cappuccino especial”, das outras vezes... – murmurou uma voz à minha frente. - Não tão insubstituível assim esse seu amor, não é?

        Interrompendo meu vislumbre paradisíaco daquela bebida deliciosamente quente, levantei o olhar e fitei o homem alto e magro que se colocava por detrás do balcão de atendimento da cafeteria, secando um copo com o mesmo entusiasmo que provavelmente invade uma criança em um parque de diversões fechado. A camisa pouco alinhada fazia par com o cabelo desajeitadamente penteado, e uma evidente irritabilidade desenhava uma carranca que me encarava por detrás de um par de óculos com lentes de garrafa.

           Tendo terminado com o copo, deixou-o numa pilha ao lado do cartaz de ofertas da casa e começou a limpar a bancada onde eu estava, comprometendo de uma forma irritante a minha capacidade de apreciar o meu espresso. Levantei a xícara, mexi no assento, inclinei o corpo, dei alguns pigarros, mas ele, insistentemente, continuava a movimentar aquela flanela exatamente onde eu estava. À beira de perder a paciência, pedi, no limiar da minha delicadeza, um muffin para acompanhar a minha bebida, na esperança de que ele conseguisse me deixar sossegada. Ele ergueu os olhos em desaprovação e falou:

- Mas estamos quase fechando, minha senhora. Não vai dar tempo de comer e terminar a bebida a tempo.

Olhei para o relógio da parede e falei:

- Moço, ainda faltam duas horas e meia para fechar.

- Hoje resolvemos fechar mais cedo. – Disse, ríspido, e continuou empurrando a flanela para o meu lado.

- Mas porque?

- Creio que não lhe deva dar satisfações, não é mesmo? – disse, jogando a flanela sobre o ombro e cruzando os braços.

Absolutamente chocada com a situação, olhei ao redor e, vendo a cafeteria repleta de clientes, perguntei:

- O senhor vai falar o mesmo com eles?

- Isso seria unicamente da minha conta, não acha?

Boquiaberta, fiquei encarando-o, sem conseguir acreditar no que eu estava presenciando. Ele suspirou, impaciente, e disse:

            - Olha, moça, eu embrulho o muffin e você leva, tudo bem? Mas só... saia daqui, ok?

- Meu senhor, eu lhe fiz alguma coisa, pelo amor de Deus?

Mas ele nem se preocupou em me encarar novamente. Já estava abaixado, alcançando o muffin no mostruário da cafeteria para embrulhar para viagem. Quando ia fechando o vidro da vitrine, no entanto, desequilibrou-se e apoiou sua mão na quina do vidro, fazendo um corte profundo que logo começou a sangrar.

Soltando o bolinho no chão e lançando uma coleção impressionável de impropérios para ninguém em especial, seguiu para a porta dos fundos e desapareceu atrás dela. Ainda sem compreender bem o que havia acontecido, mas me sentindo levemente culpada pelo fato (afinal, aquele que agora jazia no chão ensanguentado da cafeteria era para ter sido o meu muffin), levantei e fui atrás dele, ignorando a assombrosa placa de “AFASTE-SE SE NÃO FOR FUNCIONÁRIO)”.

Deparei-me com uma pequena cozinha adaptada, razoavelmente conservada, com um fogão industrial e utensílios utilizados na cafeteria. Olhando ao redor, vi duas portas além da que eu havia entrado. Uma dizia “Saída de emergência”, e a outra estava entreaberta. Do cômodo a que ela dava acesso, escutei fortes soluços, e contra todas as vozes mentais que me mandavam me afastar daquele homem potencialmente maluco, me aproximei, vagarosamente.

Olhando através da fresta, observei um pequeno escritório absurdamente desorganizado, com papéis de contabilidade espalhados pelo chão, livros abertos e manchados com café, pilhas de jornais velhos e uma estante velha apoiada na parede mofada e empoeirada. Uma escrivaninha e uma cadeira ocupavam um diminuto espaço no centro desse caos, e atrás dela se encontrava o único objeto do recinto que estava impecavelmente limpo e conservado: o retrato de uma jovem que deveria ter a minha idade, mais ou menos, abraçada com o senhor que havia me atendido. Olhando com atenção para a imagem, percebi o quanto éramos parecidas. Os traços do rosto, o desenho dos olhos, o tom de pele... Tudo nela lembrava algo em mim, exceto pelos cabelos, que ela adotou como curtos, enquanto eu não abandono minhas longas madeixas negras.

Fiquei impressionada com o que via, e somente voltei à realidade quando novo soluço ressoou na sala. Olhei para o lado e vi o senhor sentado no canto da sala, tentando desajeitadamente conter o corte em sua mão com a flanela, mas sem sucesso.

Me aproximei com cuidado, e me abaixei ao seu lado, murmurando:

- Deixe-me ajuda-lo com isso.

E surpreendentemente, ele deixou. Eu esperava gritos ou ofensas semelhantes às anteriores, mas ele simplesmente estendeu a mão e permitiu que eu amarrasse a flanela de forma a conter o sangue que ainda escorria pelo ferimento.

Tendo terminado, permanecemos ali, em silêncio, durante um tempo no qual seus soluços foram diminuindo gradativamente, até que ele falou:

- Você se parece tanto com ela...

Olhei para o retrato novamente, e perguntei:

- É sua filha?

Ele soltou um longo e profundo suspiro, e falou:

- Era meu tesouro... minha mais preciosa joia. Minha eterna criança.

- Era?...

E evidentemente utilizando de todas as forças que lhe restavam, falou:

- Minha menina devia ter a sua idade, quando tiramos essa foto. Eu nunca gostei de tirar fotografias, mas ela insistiu, dizendo que retratos não capturam a essência do momento vivido, mas são capazes de nos dar aquele momento de volta, por instantes, transformando-os em eternidade. Era muito inteligente, minha garota. Aprendia tudo com uma facilidade impressionante, e não se dava conta de como era especial, assim como a mãe. Ah, minha amada Coralina... ela teria tido muito orgulho de nossa menina, mas faleceu no parto, e portanto sempre fomos somente eu, e minha Pérola. Escolhi esse nome para que ela nunca se esquecesse de quão valiosa era em meu mundo, e como era... Até que um dia, voltando da universidade, um motorista alcoolizado ultrapassou o sinal no exato momento em que ela atravessava, levando-a num segundo, um verdadeiro piscar de olhos... – ele interrompeu sua fala, fitou o vazio, e continuou – Num simples piscar de olhos ela se foi, deixando de ser minha doce menina, e se tornando apenas uma lembrança na vida desse velho infeliz...

Sequei uma lágrima que insistiu em cair de meus olhos. Ele olhou para mim, e falou:

- Desde que ela se foi, não consegui organizar a minha vida. Minhas finanças estão um caos, e tive que demitir alguns funcionários. É por isso que comecei a atender os clientes no balcão. E foi quando te vi pela primeira vez. – disse ele, quase um sussurro. - Você se parece tanto com ela que a dor da perda me invadiu completamente, me roubando o juízo. Perdoe a forma como lhe tratei. Foi abominável, e eu realmente sinto muito. Mas cada vez que você vinha até aqui me fazia lembrar tudo o que não tenho mais, e isso me destruía. A perda é uma dor irreparável, uma ferida profunda, uma cicatriz eterna.

E calou-se. Levantei os olhos e olhei para a dor estampada no rosto daquele senhor. E disse:

- Não existe perda, quando existe amor. O amor é um laço que ultrapassa tempo e espeço, mantendo em um eterno e aconchegante abraço aqueles que deixaram que suas vidas fossem palco desse sentimento tão pleno e verdadeiro. O amor não é um sentimento surreal, como muitos descrevem. Meu Deus, o amor é palpável, tangível! Quando amamos alguém verdadeiramente, a simples lembrança nos transporta de uma forma inegavelmente real a cada momento compartilhado! Sorrimos ao sermos invadidos pela lembrança da alegria compartilhada, e suspiramos ao sermos imersos na sensação deliciosa de cada ensinamento experimentado. O amor é um sentimento tão forte que cria uma ponte invisível entre as duas almas que amam, e com isso elas nunca estão separadas, verdadeiramente. O amor é uma força que continua pulsando em cada ponto do espaço, independente de onde estivermos. O amor nos mantém imortalizados no coração de quem nos ama, e por isso o amor, em sua essência, nos une na eternidade. Por favor, não diga que perdeu sua Pérola, pois ela continua no lugar onde sempre esteve: no aconchego do seu amor. E ela lhe alcança em cada lembrança que você tem, em cada riso que você direciona por ela, em cada decisão que toma tendo ela como estímulo e apoio. É como uma fotografia, que traz cada momento de volta, por instantes, momentâneos, mas sempre presentes na alma de quem ama. Não se deixe abater pela dor da perda, porque quem ama nunca perde. Afinal, enquanto a perda é uma dor irreparável, uma ferida profunda, uma cicatriz eterna; o amor se faz força indestrutível, curativo universal, salvação incontestável.

Eu gostaria de pensar que as coisas acontecem de um dia para o outro; que as pessoas se curam de uma hora para outra; que as dores são sanadas, de um momento para o outro; como num piscar de olhos... Não poderia dizer o que aconteceria daquele instante em diante, pois que o futuro ainda não chegou para sussurrar o destino daquele senhor, mas escolhi acreditar que melhores dias virão, pois que, na minha ida seguinte àquela cafeteria, encontrei, no meu assento de costume, um muffin embrulhado, com um bilhete que dizia:

“Em nome do amor, pérola rara que se curva diante o mundo, e que não se quebra diante a dor, resgatando náufragos de seus desertos interiores. Com amor, eu”.