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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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17/08/2016 às 17h25

Era frio...

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            Era frio, era aguado, mas era café.

            E, sinceramente, na posição em que eu me encontrava, não estava em condições de exigir um genuíno cappuccino al latte da mirrada senhorinha banguela que oferecia seu doce sorriso como acompanhamento gratuito de seu café frio e aguado no copinho de plástico, vendido na entrada da plataforma de trem daquela cidade. Afinal, eu já aguardava a chegada de titia Gertrudes à quase duas horas e, segundo o bilheteiro, iria permanecer ali por um tempo considerável já que aquela moderna máquina de locomoção inventada há mais de três séculos havia parado, sem motivo aparente, há mais de trinta quilômetros de seu destino, onde familiares ansiosos (e eu) aguardavam seus passageiros. Me abstendo de compor o motim que ameaçava ser formado contra o inocente bilheteiro que, infelizmente, havia sido o portador da notícia do atraso, resolvi sentar em um dos bancos da plataforma e tomar o cafezinho frio e aguado que comprei da simpática banguelinha do copinho de plástico.

            Saboreando cada gole da mistura de borra e açúcar, mal percebi quando uma voz chegou até mim...

            - Atrasos são sempre inconvenientes, não é mesmo?

            Olhei para o lado, direção de onde havia vindo o som, e me deparei com um senhor de meia idade, os cabelos negros com rajadas brancas do tempo perfeitamente alinhados em um penteado reto e objetivo. Um paletó, evidentemente gasto pelo tempo de uso, perfeitamente alinhado ao seu corpo, e composto por uma gravata cujo nó provavelmente daria inveja à maior parte da população masculina. A calça escondida alguns remendos discretamente corrigidos por mãos amadoras, e os sapatos, socialmente incompatíveis com a hora do dia, exibiam um polimento incapaz de esconder o desgaste de anos de uso. Ao lado dele encontrava-se uma maleta de couro marrom, um marrom tão profundo quanto o olhar de seu dono que, neste momento, repousava em mim.

            Interrompendo a degustação de meu café, sorri educadamente e falei:

            - Realmente... Atrasos sempre acabam mudando os planos de todo mundo.

          - Para alguns é sempre pior, devo dizer... – ele continuou - Aquela senhora, por exemplo... – ele apontou para uma das prováveis idealizadoras da revolução contra o bilheteiro da plataforma de trem, que falava aos berros para chamar a atenção do grupo que, como ela, estava indignado com a falta de iniciativa da equipe ferroviária, que já deveria ter providenciado uma solução para o caso. – Um atraso como esse a mantém mais tempo distante de seu recém esposo, que viajava semanalmente para a cidade vizinha, a fim de tratar de negócios da empresa que herdou do pai.

            - O senhor os conhece? Está aguardando o rapaz também? – perguntei.

            - Oh, não! Nunca tivemos a oportunidade de trocar cumprimentos. Apenas via-o ir e vir a cada semana, o semblante cansado, o andar pesado... Passou algum tempo assim, até que começou a apresentar uma expressão mais alegre e suave. Após alguns meses, chegou acompanhado por essa dama, mão dadas, entrelaçando os dedos que passaram a exibir uma modesta, mas bela aliança. E desde então, ela sempre vem trazê-lo e buscá-lo. A ansiedade da espera é maior para aqueles cuja felicidade é proporcional ao medo de que ela acabe. Talvez alguém deva dizer isso ao pobre rapaz da bilheteria, antes que ele perca a polidez diante os gritos da moça, não é mesmo?

            - Sim... Talvez alguém devesse fazer isso... – respondi vagarosamente, observando a moça falar com outros passageiros enquanto, instintivamente, rodava a aliança no dedo.

            - Diferente são os planos daquele menino, no entanto... – disse o senhor, apontando para um garotinho com cerca de sete anos, que estava sentando na outra ponta da plataforma, com as feições clássicas de uma insatisfação nata à infância desprovida de máscaras sociais. – Ele aguarda há algumas semanas a primeira viagem que faria em um trem, com seus pais. E a tenra idade tem a capacidade de limitar nossa felicidade aos sonhos que podemos criar, camuflando a elasticidade do tempo de uma vida que só está começando.

            - E o senhor sabe disso porque...

            - Sempre que o menino vinha acompanhar o embarque de seu pai, acompanhado de sua mãe, tentava escapulir da firme mão da genitora para subir ao trem. Nunca conseguia, evidentemente, mas sempre permanecia com um brilho no olhar ao conseguir aproximar-se ao máximo da máquina, e quando o tocou, pela primeira vez, transbordou um sorriso inigualável, que permaneceu cicatrizado em sua face por algumas semanas, depois disso. Hoje, no entanto, quando chegou, estava com uma malinha nas mãos, obviamente organizada por ele próprio, já que do fecho entreaberto saia o bracinho de um ursinho amaçado para caber. Estava puxando os pais pelo braço e pulava na plataforma, mal contendo a ansiedade. Infelizmente, a espera não fazia parte de seus planos.

            - Provavelmente não... – respondi, encarando o menino que abraçou sua malinha e ameaçou um choro insatisfeito.

            - Aquela, por sua vez, já se desfez das preocupações com o tempo... – ele falou, indicando uma senhora na faixa dos oitenta anos, que estava sentada no banco da plataforma, o olhar vago e um sorriso singelo no rosto. – Viúva há alguns anos, ela passa alguns meses na casa de cada um dos seus quatro filhos, aqueles que estão ali ao lado tentando acalmar a recém-casada.

            Olhei para os quatro rapazes claramente preocupados com a integridade física do bilheteiro, potencialmente ameaçada pela fúria da jovem, e repousei a atenção à senhora com os cabelos alvos, que combinavam perfeitamente com seu xale cor de mel. As mãos repousavam suavemente sobre o colo, expondo duas alianças na mão onde, um dia, ela afagou seu grande amor.

            - Estou impressionada... – falei, agora centrando a minha atenção no senhor ao meu lado. – Como o senhor pode saber tanto sobre essas pessoas, sem nem conhecê-las pessoalmente?

            - Gosto apenas de observar, minha querida... E tenho tempo para isso... Venho até essa plataforma, diariamente, há alguns anos já... Devo dizer que me sobra tempo e oportunidade para resgatar detalhes de cada um que vem até aqui.

            - E o senhor? Qual a sua história?

            Ele me encarou aturdido, se desconcertou um pouco, e deixou o olhar vagar. Após alguns minutos de silêncio, falou:

            - Digamos apenas que eu não tenho uma história que valha ser contada. Por isso adentro nesse trem com cada um deles, indiretamente, viajo e vivo aventuras, e retorno para contar a mim mesmo o que valeu a pena ser vivido. Mas hoje, pelo visto, esse atraso alterou os planos de todos, não é mesmo?!... Que inconveniente...

            E dizendo isso, levantou-se, pegou sua mala e saiu da plataforma.

            Sem compreender ao certo o que ele quis dizer, e percebendo que meu café havia acabado durante a conversa, levantei-me para ir até a simpática mirradinha e comprar outro, frio e aguado. Passando bravamente entre o campo de batalha da bilheteria, cheguei até a senhorinha e, resolvendo trocar algumas simpatias, perguntei se ela sabia quem era o senhor da maleta. Lançando-me um olhar de compaixão, ela respondeu:

            - Ah, minha querida! Aquele pobre é um escravo de seus próprios medos. Há vários anos ele vem todos os dias até nossa plataforma, com a mesma maleta, vestido da mesma forma, e fica sentando naquele banco por horas. Não compra passagem, não vai a lugar algum, não espera por ninguém. Vai embora, ao final do dia, e retorna no dia seguinte, e no outro, e no outro... Dizem que ele era apaixonado pelo pai, que tinha um trabalho que exigia sempre viagens constantes, e o menino vinha com a mãe buscá-lo na plataforma quando ele retornava. O menino nunca viajou, mas o pai, a cada viagem, lhe contava tudo o que havia visto e vivido, e o menino vibrava com as aventuras vividas por ele. Um dia, porém, o pai dele não voltou de sua viagem, e o garoto ficou com a mãe até anoitecer, aguardando. Ninguém nunca soube se ele morreu, ou desapareceu, ou simplesmente não escolheu mais retornar... A questão é que o menino passou a vir todos os dias, durante anos a fio esperar pelo retorno do pai. Certo dia, um pouco mais velho, ele resolveu viajar para encontrá-lo. Chegou com esse terno e essa maleta, determinado a comprar um bilhete para procurar o pai. Porém, não sabia para onde ir, e acabou paralisado pelo medo de entrar no trem, e partir. Nesse dia, permaneceu sentado com sua maleta, vendo o trem vir e partir, e desde então ele assim o faz... Você aceita mais um cafezinho, minha querida?

            Olhei para meu copo e percebi que havia tomado toda a bebida, enquanto ouvia aturdida a história daquele senhor. Vítima de seus próprios medos, paralisado pela incerteza do porvir... Uma vida vivendo a história dos outros, pelo medo de que a própria não lhe fosse suficientemente boa, ou merecedora de ser vivida.

            Ouvindo o apito do trem, percebi que o problema havia sido resolvido, e vi todos os familiares correrem para a plataforma, para receber os tão esperados passageiros. Agradeci pelo café e fui receber titia Gertrudes, que desceu absolutamente fascinada pelo atraso de mais de três horas que lhe permitiu jogar cartas com outras duas passageiras.

            Enquanto nos aglomerávamos para tentar sair da plataforma, olhei para o banco onde o senhor havia sentado. Impulsionada pela minha incapacidade de cuidar da minha própria vida, peguei um papel da minha bolsa, escrevi nele e entreguei à senhora do café, para que entregasse ao senhor no dia seguinte.

            Não mais retornei àquela plataforma de trem, visto que segui minha viagem como faço usualmente, como você bem sabe, meu caro. No entanto, prefiro pensar que no dia seguinte, aquele senhor, lutando contra a vontade de permanecer, o medo de falhar, a ansiedade das incertezas, a angústia da solidão, o desespero de abandonar tudo o que lhe é conhecido para embarcar em  possibilidades absolutamente novas e só suas, conseguiu levantar-se e entrar naquele trem, porque...

            “Nunca deixe que o medo determine o seu destino... Afinal, por mais alto que os sonhos possam lhe levar, eles nunca serão capazes de lhe conceder o prazer inigualável de viver, em meio a esse imenso e delicioso mistério que é a vida.”