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Covid-19 e a grande lição para a humanidade

29 de Janeiro de 2020 às 11h05

O mundo inteiro encontra-se anestesiado por uma onda avassaladora de ameaça viral que tem provocado um estado de inquietação generalizado. A pandemia de Covid-19 vem varrendo os continentes e deixando um rastro de mortalidade preocupante e colocando as populações em regime de apreensão e reclusão frente à larga disseminação de contágio deste que tem se tornado o inimigo ferrenho da humanidade. Aspectos epidemiológicos a parte, o fato é que esse advento vem causando uma série de consequências sociais de caráter individual e coletivo que tem levado as pessoas a refletirem sobre outros problemas que nos afligem tanto quanto ou até mais gravemente que a pandemia em questão. E, nesse sentido, não são poucas as que já se perguntam: seria o novo coronavírus um mal necessário que está nos conduzindo a lições urgentes e imprescindíveis? Aprofundando ainda mais essa reflexão, seria esse momento de crise atual uma valiosa e extraordinária oportunidade de mudança e progresso tanto no âmbito individual como no âmbito coletivo, fazendo-nos ver o quanto somos interpedententes uns dos outros ?

Um olhar mais atento para os aspectos social, político, econômico, cultural e espiritual que caracterizam o estilo de vida no mundo contemporâneo nos leva a crer que a resposta para ambas questões é que sim. A começar pelo o que nos diz a própria ciência médica ao nos falar sobre os aspectos causais de natureza social que caracteriza aquilo que denominamos de doenças epidêmicas e que, em síntese, dizem respeito às consequências da maneira de se viver, da relação do homem com o meio ambiente e com os demais à sua volta. Essa realidade é reforçada pelas ciências de estudo do comportamento humano, segundo as quais, somos o resultado da maneira como nos relacionamos conosco mesmos, particularmente com os nossos dramas existenciais e com os semelhantes à nossa volta. Uma leitura acerca da vida humana sobre o ponto de vista sistêmico, global atesta essa premissa.

Saindo do universo da ciência materialista e adentrando no paradigma da ciência espiritualista, veremos que essa dimensão de fatores interpendentes relacionados ao modo de vida do ser humano aqui neste mundo e a relação disto com o fenômeno vivido no momento atual, ganha um sentido ainda mais amplo e consistente. Isto porque, na concepção espiritual e, de maneira particular, dentro do que é apregoado pela ética cristã, a postura moral adotada por cada um de nós no convívio íntimo e social é o que revela não apenas quem verdadeiramente somos, mas o estilo e qualidade de vida que temos construído e difundido de geração em geração.

E, dentro das perspectivas apresentadas, nem é preciso irmos muito longe para nos darmos conta da condição deficitária, pior ainda, decadente em que nos encontramos enquanto seres humanos, sociais e espirituais. Seres que na grande maioria ainda necessitamos nos humanizarmos para só depois então compreendermos e nos tornarmos seres efetivamente espiritualizados. Algo que, é bom frisar, vai muito além da vivência e das práticas religiosas dogmatizadas, meramente instrumentais e segmentadas que acostumamo-nos a cultivar e que culturalmente nos torna no máximo, seres religiosos. Um imenso aglomerado de profitentes, fiéis, espalhados por toda a parte e que, mesmo falando em nome de Deus e propagando as máximas morais incontestavelmente libertadoras e atemporais do Cristo a quem defendemos, não conseguimos dar conta da primeira e mais importante lição propagada, a de amarmo-nos uns aos outros. Realidade a nos fazer ver que são muitos os profitentes, mas pouquíssimos os transcendentes.

E o resultado aí está, um mundo cada vez mais doente onde sentimentos como o orgulho, o egoísmo, a vaidade e a indiferença se disseminam feito vírus contagiosos em escala global, adoecendo mentes e almas, muitas das quais até são conscientes dessa realidade, mas não tem conseguido sair da inércia e da hipocrisia que ofuscam a beleza da vida aqui. Uma beleza que, mesmo ofuscada pelas fragilidades humanas permanece existindo, mas que só mesmo aqueles que despertaram para o sentido maior da experiência da vida humana são capazes de vislumbrarem. A beleza irradiante da compaixão, da empatia e da solidariedade a nos fazerem ver que, mesmo diferentes, somos todos um só. Partículas entrelaçadas de um imenso e complexo universo constituído daquilo que o poeta irá chamar de unimultiplicidade, onde cada homem é sozinho, a casa da humanidade. E que só mesmo tomados pela força inebriante e renovadora do amor, o elo maior que nos conecta conosco mesmos e uns com os outros, é que conseguiremos fazer da experiência efêmera aqui neste mundo algo que tenha valido apena, pois só o amor, como sabemos, conhece o que é verdade e sem ele, nada seremos, nada vale a pena!.

Enquanto estivermos de costas para essa realidade, negando o inegável e defendendo o indefensável como, aliás, temos visto em demasia, preocupados única e exclusivamente conosco mesmos, em saciar os nossos desejos e vontades próprias, embriagados pelo narcisismo e pelo hedonismo que voltam a se erguer nesse momento atual da história, certamente estaremos fadados a enfrentar muitas outras calamidades, decorrentes das nossas inconsequências humanas e espirituais. Enquanto insistirmos em desfrutar do livre arbítrio, de maneira irresponsável sem reconhecer o valor incomensurável de cada segundo da vida, desmerecendo cada encontro, troca de abraços e o poder curativo do diálogo face a face e, ao invés disso, nos anestesiarmos com os instrumentos de distração e alienação que se disseminam velozmente, sobretudo, por meio da compulsão fascinante tecnológica a conduzir-nos para distante de nós mesmos e do outro, estaremos certamente destinados à mercê de outras grandes lições imperiosas. Há lições que precisam ser repetidas a nos fazer ver que o caos nada mais é que a necessidade de reajuste.

E o caos moral em que permanecemos mergulhados aponta para a necessidade que temos em darmos passos mais largos e firmes na jornada evolutiva. Como nos é asseverado em A Gênese em que nos é dito que: “Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na Terra, refreando as paixões más. Somente esse progresso pode fazer que entre os homens reinem a concórdia, a paz, a fraternidade”. Algo, aliás, que vemos brotar em meio às calamidades que abatem a humanidade de vez em quando como, por exemplo, essa que por ora enfrentamos e que, como temos testemunhado, tem trazido à tona gestos sublimes de solidariedade profunda e amor ao próximo, alimentando em nós o alento da esperança. A nos fazer ver que nem tudo está perdido. E que até mesmo em meio ao caos, há beleza, pois onde há vida, o belo se faz presente. Só precisamos aprender com esses seres em quem a beleza da vida reluz. Lição que nos é repassada por agentes de luz que estão sempre atentos ao convite de aprendizagem e renovação que cada momento de dificuldade traz em sua gênese e que só mesmo os que permanecem contaminados por outro vírus ainda mais destrutivo e ameaçador que é o egoísmo não conseguem enxergar. Um parasita vencido por esses seres especiais a nos fazerem ver que contra esse vírus letal já existe um antídoto 100% eficaz, o amor. A lição que sabemos de cór, só nos resta aprender. E esse antídoto se encontra prescrito de forma detalhada esmiuçadamente no evangelho de Jesus, o mais completo e eficiente compêndio de ensinamentos morais de toda a humanidade. Bebamos dessa fonte inesgotável de luz e façamos dos momentos de dor e calamidades, uma dádiva para o despertar de uma nova vida e construção de um novo mundo. Um mundo regenerado.