09/12/2019 às 14h15

A importância de escutar a voz do coração, buscar a Deus e exercer a fé

''Há espaço neste mundo de tecnologia, porque, em determinado momento, ele não responde às dúvidas mais profundas. E aí o homem se abre para uma dimensão muito maior, que é a da espiritualidade'', destaca o Padre Alexandre Fernandes, p

Estado de Minas Gerais

O que você sabe sobre espiritualidade? Como ela se apresenta em sua vida? É importante? Você pensa a respeito? Bem, para muitos, trata-se de um espaço de busca e descoberta da paz. O padre Alexandre Fernandes, pároco da Paróquia Bom Jesus do Vale, no Vale do Sereno, em Nova Lima, define a espiritualidade como um conjunto ligado ao sagrado. Porém, mais que isso, para ele são as coisas mais profundas da vida, de nossa existência, as perguntas que fazemos: por que existimos, de onde viemos, a origem do mal... “Os cientistas já comprovaram que existe uma inteligência espiritual. Há uma parte cerebral do homem aberta a essa inteligência. Podíamos dar o exemplo de algumas pessoas que, ao fazerem meditação, são mais propensas a aguentar a dor, o sofrimento, as intempéries da vida. Essa inteligência espiritual está dentro de nós, mostrando o sentido mais profundo da vida”, afirma.

Para o líder religioso, a espiritualidade surge quando somos capazes de levar fatos e situações para dentro do coração. “Para a sagrada escritura ou para as aqueles que acreditam que o homem não é só biológico, mas mais que isso, é dentro do coração que o homem toma as mais profundas decisões. E a espiritualidade é sentir Deus, ter fé, pensar em Deus. Fé significa encontro com um Ser maior. Todo homem tem uma abertura muito grande para esse encontro da transcendência, na busca desse Ser maior”, reflete.

Padre Alexandre Fernandes, que passa a fazer parte do time de colunistas do jornal Estado de Minas, escrevendo quinzenalmente nas páginas do caderno Bem Viver, revela que sua palavra estará ligada às coisas mais profundas da vida, ou com o núcleo central do ser humano, que é o coração, ou sua parte intelectiva, que o faz perceber aquilo que cada um é. “Ao mesmo tempo, falarei sobre as coisas da vida, como tomar um chá ou encontrar um amigo, e também de momentos de espiritualidade. Quero partilhar as coisas da vida, as coisas do coração”, resume.

A missão e o objetivo de padre Alexandre se destacam, especialmente em um mundo de mudanças tecnológicas, de redes sociais, de isolamento e de individualização das pessoas, do culto à aparência, da solidão. Segundo o religioso, a espiritualidade produz uma transformação interior. “Por ela, somos capazes de escolher um caminho e, ao mesmo tempo, nos tornamos mais sensíveis à dor e ao sofrimento de quem está perto de nós. Quando começamos a perguntar de onde viemos e para onde vamos, significa fazer um projeto de vida.”

Segundo ele, a espiritualidade faz o ser humano buscar valores para algo muito maior. “Faz a gente acreditar em nós mesmos, naquilo que somos, na grandeza do que somos e no que precisa ser transformado em nossa vida. Faz superar essa individualização, esse mundo que apenas nos coloca em redes mas não nos conecta com a gente mesmo. Há espaço neste mundo de tecnologia porque, em determinado momento, ele não responde às dúvidas mais profundas do homem. E aí o homem se abre para uma dimensão muito maior, que é a da espiritualidade.”

Para quem não o conhece, padre Alexandre Fernandes se diz, primeiro, “mineiro, e mineiro com o coração sempre um pouco desconfiado de tudo, que pergunta sobre tudo. Que não chega de uma vez, mas vai chegando aos pouquinhos, na amizade, na casa do outro. Alguém que busca um sentido para a vida e descobre que a vida só tem sentido quando está aberto aos outros”. O desejo de ser padre nasceu com ele. De Abre Campo, na Zona da Mata, desde pequeno ouvia: “Alexandre vai ser padre”. Era como se todos já soubessem. “Eu tinha 7 anos. Alguns são chamados mais cedo, outros mais tarde. É claro que pessoas nos inspiram. Na minha terra havia um padre que me inspirou a procurar a vida religiosa.”

FÉ E RELIGIÃO
Assim, a espiritualidade sempre fez parte da vida de padre Alexandre. E, para ele, ela é fundamental, porque “nos faz encontrar um sentido na vida”. Mas ela, o pároco destaca, começa com uma parte subjetiva, porque dentro de cada homem existem razões para crer, independentemente de isso se traduzir em alguma religião. “Às vezes, o homem é um ser espiritual, que se conecta com Deus, mas não se conecta com um grupo específico. Melhor seria se ele se conectasse com um grupo com o qual se identifica. Mas espiritualidade nunca está ligada apenas a uma vivência religiosa.”

Como padre e, agora, colunista, mas também por ser professor de teologia, da história do cristianismo, e por já ter trabalhado em colégios como São Tomás de Aquino, Magnum, Marista e na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), padre Alexandre Fernandes acredita que falará para todos em seu espaço. “Acredito, porque vamos tratar de coisas da vida, e pela minha experiência de lidar com pessoas, desde as muito jovens até as já maduras. Acho que serei capaz de tocar essas pessoas, como tenho feito até hoje no meu trabalho.”

Padre Alexandre Fernandes foi também capelão dos hospitais Mater Dei Santo Agostinho e do Biocor. Ambientes em que a dor e a perda estão presentes e, certamente, a espiritualidade é aflorada. “O hospital me ensinou muito. Ali as pessoas não têm mais nada a perder. Já perderam a dignidade da saúde e, às vezes, a dignidade física de ter seu corpo exposto, manipulado por muitas pessoas. Muitas vezes, o segredo da alma é no momento em que visito os doentes. As pessoas falam que passam a valorizar o que é importante. 'E o que é importante?' – pergunto. Elas dizem: 'O abraço do filho, o carinho que veio dali, o carinho que veio de lá, esta flor'”, descreve.