31/10/2018 às 08h35

Médicos de rua

Cresce no Brasil a ação de grupos de profissionais que vão às ruas dar assistência voluntária aos sem-teto, população com pouco acesso aos serviços de saúde

istoe Facebook Compartilhar

A voz era fraca demais para que conseguisse pronunciar seu nome. Junto com o corpo muito magro, febril e trêmulo, o rapaz jovem sentado dentro de uma barraca da triagem de pacientes é o retrato do desamparo de quem mora na rua. Na manhã do domingo 21, ele foi uma das cerca de cem pessoas sem-teto atendidas em São Paulo pelo projeto Médicos de Rua, uma iniciativa que ganha corpo no Brasil com a força da solidariedade de profissionais de saúde que dedicam voluntariamente tempo e material para prestar assistência a essa população. Mais três barracas e uma ambulância completavam a estrutura montada em frente ao Pátio do Colégio, no centro da capital paulista. O exame clínico, aliado às poucas informações que o rapaz consegue transmitir sobre si mesmo, leva à conclusão de que o jovem tem pneumonia. Ele é medicado com antibiótico e ganha um tempo para descansar na maca. Não fala nada. Apenas firma os olhos nos olhos da estudante de medicina que o atende. Por alguns segundos, parece sentir-se conectado com sua humanidade novamente. O olhar, até então só de solidão, manifesta gratidão.

O projeto foi trazido ao Brasil em 2015 pelo neurologista Mário Vicente Guimarães, professor da Faculdade de Medicina da Anhembi-Morumbi, de São Paulo, instituição integrante da Rede Laureate. Mário trouxe a ideia depois de conhecer o trabalho do médico americano Jim Withers, o grande inspirador do que hoje se chama medicina de rua. Desde 1992, ele faz o atendimento da população sem-teto. Começou nas ruas de Pittsburgh e hoje ajuda a coordenar uma organização dedicada à prática que já atua em 85 cidades de 15 países. Jim estava na ação realizada em São Paulo na semana passada. Mesmo sem falar português, anda por entre as barracas e conecta-se com os pacientes com extrema facilidade. Abre um sorriso para cada um que se aproxima, escuta, mas não entende, claro, o que não o impede de terminar o breve encontro com um abraço. “Quando você vê a força de um abraço para que alguém reencontre sua humanidade, nunca mais enxerga o cuidado com o outro do mesmo jeito”, diz.

Quando começou, Jim vestia-se como um sem-teto. Achava que seria mais fácil ser aceito. O brasileiro Mário também iniciou sozinho a ação em São Paulo. Pouco a pouco, ganhou a ajuda de estudantes, fez parceria com a Pastoral da Rua, da Igreja Católica, e viu o movimento crescer. Em 2017, a enfermeira Elaine Peixoto, coordenadora Clínica do Centro Integrado de Saúde da instituição, aderiu. Hoje, todo último domingo do mês, alunos de medicina, de farmácia, de enfermagem e de outras áreas juntam-se a seus mestres para socorrer quem não tem acesso a qualquer serviço de saúde. “Muitos se sentem intimidados em procurar auxílio”, conta Elaine.


Doenças infecciosas, respiratórias e lesões resultantes de brigas ou de feridas no pé pelo simples fato de a pessoa não ter um sapato estão entre os casos mais comuns. Em meio a tanta precariedade, a assistência às vezes sai da esfera médica para a judicial (auxílio para obter documentos, por exemplo, com ajuda de advogados) ou abrange o paciente e seus animais. O trabalho com os bichos é feito por veterinários para tratar doenças que façam mal aos animais e aos humanos. “O que vemos aqui é a prática da verdadeira medicina humanizada”, diz o cardiologista Sergio Timerman, decano do curso de Medicina da Anhembi-Morumbi, que também estava na ação do domingo. O neurologista Mário e a enfermeira Elaine receberam o Prêmio Here for Good 2018 na categoria docentes/colaboradores, oferecido pela Laureate. Ações semelhantes estão sendo realizadas em outras cidades, todas com participação voluntária e bancadas muitas vezes com ajuda do dinheiro do próprio bolso dos participantes ou de doações. Trata-se de uma demanda sem fim em um país onde 52 milhões de pessoas estão abaixo da linha de pobreza. Olhar jovens e professores envolvidos na iniciativa com tanto entusiasmo dá esperança de que pelo menos parte desses pobres brasileiros seja olhada e tratada como o que são: seres humanos e cidadãos como todos nós.

Doenças infecciosas, respiratórias e mentais estão entre as principais enfermidades apresentadas