08/07/2019 às 11h05

Como as amizades podem influenciar seus hábitos – para o bem e para o mal

BBC

Costumamos acreditar que o autocontrole vem de dentro, mas muitas de nossas atitudes dependem tanto de amigos e familiares quanto de nós mesmos.

As pessoas que nos cercam têm o poder de nos fazer engordar, consumir mais bebida alcóolica, nos preocuparmos menos com o meio ambiente e nos expormos ao sol sem a devida proteção, entre muitas outras coisas.

Não se trata simplesmente da pressão dos colegas, em que você age deliberadamente de uma certa maneira para se adequar ao grupo. É, na verdade, em grande parte uma atitude inconsciente.
Sem que você tenha consciência, seu cérebro está constantemente captando as dicas de pessoas ao seu redor para ditar seu comportamento. E as consequências podem ser sérias.

Atualmente, é bastante aceito que nosso senso de identidade pessoal é derivado de outras pessoas.

"Quanto mais a sua identidade for absorvida de um grupo, mesmo quando você não está por perto desse grupo, maior a probabilidade de você defender aqueles valores", diz Amber Gaffney, psicóloga social da Universidade Estadual Humboldt, nos EUA.

"Se uma grande parte de como você se identifica como estudante de uma determinada universidade ou como um acadêmico, no meu caso, então é isso que você vai levar consigo na maioria das interações com outras pessoas. Eu vejo as coisas primeiro através das minhas lentes de acadêmica."

Os estudantes, por exemplo, tendem a ter atitudes mais fortes em relação a temas como a legalização das drogas ou sustentabilidade do que o resto da população.

São as chamadas normas sociais. E, embora elas sejam geralmente estáveis, algumas coisas interessantes podem acontecer se apenas um membro associado ao grupo agir fora do contexto.

Um estudo mostrou, por exemplo, que as pessoas provavelmente mudariam sua opinião sobre transporte sustentável se descobrissem que seus pares estavam agindo hipocritamente.

Os alunos da Humboldt moram em uma cidade pequena e socialmente liberal no norte da Califórnia, que se orgulha de suas credenciais ambientais.

E eles também são muito conscientes em relação ao meio ambiente. Portanto, é de se esperar que o comentário de um colega que menospreza as emissões de carbono não caia bem.

Após ouvir a entrevista de um aluno da universidade que enfatizava a importância de percorrer curtas distâncias de bicicleta ou a pé, em vez de usar o carro, e que posteriormente admite que foi dirigindo para a entrevista, os participantes foram questionados sobre seu próprio ponto de vista em relação ao meio ambiente - enquanto estavam sentados ao lado de um ator.

O ator assumia o papel de um terceiro estudante, usando uma camiseta da universidade, ou de um profissional, vestido formalmente. Quando a hipocrisia do entrevistado era revelada, o ator fazia uma observação negativa sobre seu comportamento ou ficava quieto.

A maneira como os participantes julgaram a importância de caminhar ou percorrer curtas distâncias de bicicleta dependia de com quem estavam ouvindo a entrevista e de como essa pessoa reagiu.

Quando sentavam ao lado de alguém que supunham ser outro aluno, e que compartilhava dos seus valores ambientais, os participantes reiteravam a importância de pedalar. Quando sentavam ao lado de alguém de fora, não foram tão claros na resposta.

Se o estranho comentava sobre a hipocrisia do entrevistado, invocava as opiniões ambientais mais fortes dos participantes. Ao defender o entrevistado das críticas, eles reforçavam sua opinião de que pedalar era importante.

Talvez seja porque tenham achado que o entrevistado era normalmente mais ambientalmente responsável.

Por outro lado, se o desconhecido ficava quieto, os participantes julgavam menos a importância de pedalar.

Então, a forma como um estranho julga nossos colegas tem um grande impacto sobre se apoiamos eles ou não.

"Este foi um estudo interessante", acrescenta Gaffney, "porque conseguimos fazer com que algumas pessoas se importassem menos com o meio ambiente. Normalmente, isso não é algo que gostaríamos de fazer ativamente, mas entender a origem desses pontos de vista pode nos ajudar a empurrar as pessoas na outra direção."

Auxílio dos pares
Diante das críticas de um estranho, podemos recorrer ao auxílio dos nossos pares. Mas, se tivermos que formar nossas próprias opiniões sozinhos, interpretamos o comportamento hipócrita como um sinal de que podemos relaxar nossos próprios pontos de vista. É um tipo de dissonância cognitiva:

"A dissonância acontece quando você vê alguém se comportando de maneira que não é consistente com a sua atitude, e você muda sua atitude", diz Gaffney.

"Eu deveria ficar constrangida ao ver você agir de maneira não sustentável, mas isso nem sempre acontece. Não vou começar necessariamente a imitar você, mas vou mudar minhas atitudes para refletir seu comportamento, porque me acho parecida com você e vejo você como uma extensão de mim mesma".

Esse estudo foi inspirado por vários trabalhos na Austrália sobre a dissonância relacionada ao uso do protetor solar. Novamente, alguém que age hipocritamente flexibilizaria a atitude das pessoas em relação à aplicação do filtro, quando a norma é ser extremamente vigilante.

A forma como falamos sobre nossas escolhas em relação à saúde com amigos também pode ter um impacto significativo em nossas decisões, tanto positiva quanto negativamente.

Conversar sobre campanhas antitabagistas reduz o consumo de cigarros por parte dos fumantes, talvez porque esse tipo de bate-papo ofereça uma oportunidade a eles de descobrir que informações são mais relevantes para seu estilo de vida - e agir de acordo com elas.

Essa tese é sustentada por uma meta-análise de 28 estudos, totalizando 139 mil participantes.

"A principal causa de morte são comportamentos evitáveis em relação à saúde, como tabagismo e obesidade, e temos acesso a uma grande quantidade de informações online, mas ainda fumamos e ainda não nos exercitamos", diz Christin Scholz, da Universidade de Amsterdã, na Holanda.

"Qualquer coisa que nossos amigos façam nos influencia de maneiras que estamos conscientes ou não. A presença deles pode decidir se agimos com base nessas informações de saúde ou as ignoramos."

Scholz perguntou a estudantes universitários nos EUA se eles haviam conversado com alguém sobre uma experiência recente envolvendo álcool e se essas conversas tinham sido positivas ou negativas.

Se eles tivessem falado positivamente sobre o consumo de álcool, provavelmente beberiam mais no dia seguinte - e vice-versa. Esses padrões são altamente influenciados, no entanto, pelas circunstâncias sociais em que nos encontramos.

Reavaliações de comportamento
Quando tomamos decisões, estamos constantemente reavaliando o valor que podemos obter de cada escolha - um processo chamado de maximização de valor.

Nossa decisão de subir de escada, e não de elevador, depende de o quanto comemos no almoço, se já praticamos exercício naquele dia e se entramos no prédio com nosso colega triatleta.

Nenhum efeito de uma conversa com amigos pode ser visto isoladamente. E é por isso que nossa força de vontade flutua.

"Digamos que eu tenha conversado com um amigo no dia anterior sobre alguns aspectos negativos do álcool, mas no dia seguinte eu esteja em um bar com outras pessoas - eu ainda argumentaria que aquela conversa teve algum efeito sobre mim", diz Scholz.

"No entanto, é uma representação bastante simples da tomada de decisão humana. Não somos sempre (muito) racionais - tomamos essas decisões muito rapidamente. A importância de certos tipos de informação muda ao longo do dia."

Nossas escolhas são influenciadas por com quem estamos quando somos questionados, por como essas pessoas reagem, por qualquer conversa que possamos ter tido de antemão e por nossa compreensão de o que é normal para aquele grupo de amigos.

Mas, se ainda estivermos em dúvida, o mais fácil é observar o que os outros estão fazendo e copiá-los. Fazemos isso o tempo todo e podemos não perceber o impacto que isso tem.

"Quando comemos com outras pessoas, temos uma tendência natural de usar o comportamento delas como guia", diz Suzanne Higgs, que estuda Psicobiologia do Apetite na Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

"Muitos estudos mostram que quando comemos com pessoas que comem muito, comemos mais. As pessoas nem sempre têm consciência de que estão sendo influenciadas dessa maneira. Podem dizer que foi por causa do sabor, do preço, da fome - mas não pelas pessoas ao seu redor."

O fenômeno foi descrito pela primeira vez com base na análise dos diários alimentares de centenas de pessoas feitos pelo psícólogo John de Castro nos anos 1980. Esses diários detalhados listavam não só o que as pessoas comiam, mas também onde, quando e com quem.

Ele foi capaz de controlar os efeitos de refeições comemorativas, se havia consumo de álcool, se a refeição era no fim de semana e quaisquer outros fatores que poderiam influenciar a quantidade de comida ingerida.

Esses efeitos foram reproduzidos em laboratório. Higgs pediu aos alunos para almoçarem sozinhos ou com um amigo. E parece acontecer o mesmo quando você está comendo acompanhado em um ambiente controlado. Mas esse efeito só ocorre com pessoas que você conhece bem.

Higgs sugere que a presença de outra pessoa ofusca nossa capacidade de captar os sinais do nosso corpo de que estamos satisfeitos. O processo normal de saciedade é interrompido pelo sentimento estimulado por nossos amigos. Outras distrações, como assistir à televisão, mostraram aumentar o consumo de alimentos.

Em seguida, Higgs realizou uma pesquisa de campo para ver se os comportamentos alimentares poderiam ser influenciados por outros sinais sociais.

Ela queria encorajar as pessoas a pedir legumes como acompanhamento, fornecendo informações sobre as escolhas de outros clientes por meio de cartazes. Em vez disso, os cartazes mostravam dados fictícios sobre os acompanhamentos mais pedidos pelos clientes. Higgs colocou a porção de legumes no topo.

"Quando entramos em um novo ambiente, procuramos pistas sobre como devemos nos comportar. Então, saber que uma determinada opção é a mais popular, realmente nos ajuda", explica.

O efeito foi observado mesmo após os cartazes terem sido retirados. Higgs havia criado uma nova norma.

"Há boas razões para acreditar que quando usamos o comportamento normativo, isso nos faz sentir bem, porque estamos nos conectando com um grupo social", analisa. "Se você está com um novo grupo social, é mais provável que você imite comportamentos."