21/03/2019 às 15h55

Por que um físico brasileiro ganhou o 'Nobel de espiritualidade'?

UOL

Se você acha que ciencia não combina com espiritualidade, pense duas vezes. A Fundação John Templeton anuciou nesta terça-feira (19) que o Prêmio Templeton de 2019, apelidado de "Nobel da Espiritualidade", vai para um físico.

O ganhador é o brasileiro Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia que leciona filosofia natural do Dartmouth College, em Hanover, nos Estados Unidos. Agora, ele se junta a outros laureados como Dalai Lama (2012), Madre Teresa de Calcutá (1973) e o Arcebispo Desmond Tutu (2013).

Mas por que um prêmio com a alcunha de "Nobel da Espiritualidade", que já foi dado a tantos líderes religiosos, foi concedido a um físico? O prêmio tem esse apelido porque, segundo a fundação, "homenageia uma pessoa que fez uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida, seja por insights, descoberta ou trabalho práticos".

Nessa linha, já foram premiados desde cientistas como Francisco J. Ayala, professor de ciência biológica da Universidade da Califórnia reconhecido por suas pesquisas na área de genética evolucionista, até o pesquisador Michel Bourdeax, que estudou a destruição da religião nos países da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas que compunham a Cortina de Ferro.

Gleiser receberá 1,1 milhão de libras esterlinas (equivalente a R$ 5 milhões).

A fundação sediada em West Conshohocken, Pensilvânia, concede o prêmio desde 1973, por iniciativa do investidor e filantropo John Templeton (1912-2008).

Pra a organização, o físico brasileiro cuja atuação não adota "a noção de que apenas a ciência pode levar a verdade fundamentais sobre a natureza da realidade".

Ele, continua a fundação, "defende uma abordagem complementar ao conhecimento, especialmente em questões em que a ciência não pode fornecer uma resposta final".

Para Heather Templeton Dill, presidente da fundação, o que se destaca nas ações de Gleiser é a sensação de surpresa diante de cada possível descoberta:

"O trabalho do professor Gleiser exibe uma inegável alegria pela exploração. Ele mantém a mesma sensação de maravilhamento contemplativo que experimentou pela primeira vez quando criança na praia de Copacabana, contemplando o horizonte ou o céu noturno estrelado, curioso sobre o que está além".

A fundação lembra que Gleiser costuma dizer que a ciência pode ser descrita como o "engajamento com o misterioso".

Como ele escreve em A Ilha do Conhecimento, 'Maravilhamento e contemplação são a ponte entre o nosso passado e presente, e o que nos propele em direção ao futuro enquanto continuamos a procurar'.

Gleiser considera que reflexões espirituais são ponto crucial para uma investigação completa do mundo.

"O caminho para a compreensão e a exploração científica não é apenas sobre a parte material do mundo, mas também é uma parte espiritual do mundo", diz Gleiser.

"Minha missão é trazer de volta para a ciência, e para as pessoas interessadas na ciência, esse apego ao misterioso, para fazer as pessoas entenderem que a ciência é apenas mais uma maneira de nos envolvermos com o mistério de quem somos".