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Rossandro Klinjey

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26/06/2015 às 12h45

Eu não quero perdoar!

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Jean-Paul Sartre, filósofo francês, representante da escola existencialista, é autor de uma famosa frase: “o inferno são os outros”. De fato, não há como negar que, em certos momentos, algumas pessoas podem fazer de nossa vida um verdadeiro inferno, como também a recíproca possa ser verdadeira, ou seja, muitas vezes infernizamos profundamente a vida dos outros.

Comumente ouço pessoas fazendo acusações, apontando algozes e culpados de sua infelicidade. Dizem estes, que sofrem tão somente por causa das ações dessas pessoas e que, por isso mesmo, não há como perdoá-las. Esse discurso é ainda mais freqüente na boca de filhos que acusam seus pais. Para eles os progenitores são responsáveis por inúmeros traumas que os incapacitaram para viver plenamente.

É fato que os pais, uns mais outros menos, traumatizam seus filhos no processo de educação. Na maioria das vezes isso não ocorre de propósito, pois eles apenas estão repassando os modelos que conheceram. Entretanto, também é importante frisar que os filhos têm percepções diferentes de sua criação. Para uns uma criação familiar rígida é lembrada tão somente como provocadora de uma profunda repressão que os incapacitou, enquanto que para outros a mesma rigidez representou a disciplina que os fez vencer. Ou seja, a forma como cada um de nós interpreta a realidade é muito particular, nem sempre racional, nem sempre correta e muitas vezes equivocada.

Quando ouço um pré-adolescente culpando os pais até compreendo. Todavia quando vejo adultos com este discurso me preocupo. Afinal, depois de certa fase da vida, não somos tão somente o resultado dos traumas, somos o resultados das escolhas que fazemos. Não somos apenas o resultado do efeito dominó provocado pelos equívocos paternos, até porque chega o momento em que começamos a mexer nas peças do jogo e mudamos, por assim dizer, o rumo dos acontecimentos.

Então fica uma pergunta: se sabemos disso - e digo isso por acreditar que a maioria de nós sabe -, por que insistimos em culpar os outros? A resposta é simples: porque é cômodo. Afinal, enquanto decidimos não perdoar, temos a quem acusar. Se meus relacionamentos afetivos não dão certo, se minha vida profissional é uma desgraça, se minha auto-estima é uma droga e se me saboto todos os dias a culpa não é minha, é deles, dos outros, dos meus pais, de Osama Bin Laden, da Cuca, do coisa ruim... Enfim, só não é minha. Que conveniente, não?

Para e pensa um pouco: até quando você ficará na encruzilhada da vida paralisado e culpando os outros, mesmo já tendo chegando a um ponto em que só você pode decidir para aonde vai? Ficará como o José de Drumond “e agora (...) para onde”, ou finalmente assumirá suas decisões e conseqüências?

Alías, minha frase preferida de Sartre é outra: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com o que fizeram com você". Então sigamos, sem procurar culpados, sem nos culparmos também, apenas assumindo a responsabilidade de nossas escolhas.