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Rosildo Brito

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29/06/2016 às 06h55

A corrupção no movimento espírita

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Alterando o roteiro temático que costumo abordar em meus comentários aqui publicados, aproveito o ensejo para dissertar sobre uma questão um tanto delicada, mas que certamente, se faz necessária para a reflexão de todo aquele que prima pela vivência em essência da doutrina espírita. Doutrina esta que não para de crescer e iluminar mentes e almas, cumprindo o seu papel restaurador e de consolação, sobretudo, neste momento difícil, pelo qual todos nós atravessamos e que aponta para o período de transição planetária. Refiro-me aqui à corrupção presente no movimento espírita, algo que, por sua vez, nos faz refletir acerca da dicotomia Espiritismo x Movimento Espírita. Mas antes de qualquer mal entendido, esclareço que ao utilizar-me desta palavra ‘corrupção’, termo este exacerbadamente propagado no Brasil ultimamente, me refiro aqui ao seu sentido lexical e que aponta para a existência de adulteração das características originais de algo. É nesse sentido, portanto, que invoco o termo para tecer algumas considerações em torno da problemática aqui destacada. Considerações estas que, vale ressaltar, são frutos não apenas de uma opinião particular, mas que vai ao encontro de análises feitas por diversos outros confrades espíritas que se manifestam, assim como eu, um tanto receosos diante dos rumos para onde converge boa parte daqueles que fazem o denominado Movimento Espírita.

E ao falar de adulteração no movimento espírita, refiro-me especificamente a determinadas práticas e posturas advindas não apenas de lideranças, mas de vários integrantes da comunidade espírita de modo geral, as quais vêm contrariando alguns dos princípios basilares da doutrina a que essa comunidade se diz a serviço. Dentre elas, destacaria aqui uma que considero das mais explícitas e nocivas ao progresso do Movimento Espírita em todas as suas dimensões geográficas, ou seja, que não afeta apenas uma realidade micro, mas também macro. Trata-se da preponderação da vaidade humana revestida por um falso caráter de idealismo espírita-cristão. E, como diz Machado de Assis, numa de suas célebres frases: “A vaidade é um princípio de corrupção”. Nesse sentido, a corrupção não deve ser definida apenas como o crime tipificado no Código Penal, mas sim na sua raiz; no seu aspecto mais profundo e que ultrapassa a transgressão das leis humanas.

Trata-se de um fenômeno, aliás, muito comum nos movimentos religiosos espalhados pelo Brasil e mundo afora e que tem vulgarizado as doutrinas espiritualistas e fortalecido a propagação de uma religiosidade vazia de espiritualidade. Fenômeno este que, diga-se de passagem, não é algo novo e que já era enfatizado e combatido pelo próprio mestre Jesus ao falar da hipocrisia que imperava entre os escribas e fariseus, considerados como os principais representantes dos grupos religiosos da época e cujas práticas se proliferam até os dias de hoje. Foi a esses a quem o mestre da Galileia se dirigiu de maneira veemente por várias ocasiões, como nos apontam em diversas de suas passagens os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, denunciando o falso moralismo e impureza doutrinária já denunciados naquele tempo. Como, por exemplo, nos relata o evangelho de Marcos (7:6-7), em que Jesus faz a seguinte advertência: “Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens”. Trata-se de uma inequívoca alusão à corrupção aqui enfatizada e que têm no desvirtuamento da essência evangélica promovida pelos mais diversos movimentos religiosos, a sua manifestação mais exacerbada. Isso, para não falar das outras tantas manifestações do ego e que tem atingido em cheio muitos dos líderes e, especialmente, oradores espíritas renomados, como, por exemplo, aqueles que já não aceitam mais falar para plateias reduzidas ou instituições pequenas, ou mesmo para pessoas simples. Os ególatras que se alimentam do status quo promovido por meio de um requintado marketing da indústria de palestras, seminários e workshops ‘doutrinários’, esta, por sua vez, mantida por essa parcela do Movimento Espírita aqui enfatizada e que, assim como ocorre em outros agrupamentos espiritualistas equivocados, vem mercantilizando o terreno da fé por meio da comercialização do conhecimento doutrinário. Vale dizer que, certamente, muitos destes, de forma inconsciente, por ainda não terem parado para uma reflexão mais profunda acerca desta realidade a que terminam sendo instrumentos indispensáveis.

Particularmente, para além do receio, olho para essa realidade com muita tristeza e, hoje mais do que nunca, compreendo de maneira mais profunda toda a preocupação de Kardec em dedicar seus últimos anos de vida ao trabalho de sondagem, esclarecimento e difusão do Espiritismo, coisa que o fez, realizando viagens por vários países no intuito de constatar a propagação da doutrina que lhe foi confiada na qualidade de codificador, ou seja, organizador e primeiro divulgador. Foi em meio a esse trabalho que ele se deparou, vale dizer, de forma mais forte não apenas com os ataques advindos dos detratores externos, mas daqueles que comungavam do mesmo ideal doutrinário, revelando-se inimigos cruéis. Foi quando, certamente, para além das divergências e incongruências ideológicas de natureza doutrinária, ele se deparou, cara a cara, com este que permanece sendo o maior desafio para aqueles que se dizem espíritas e a serviço do Espiritismo em sua essência. Refiro-me a ausência do sentimento real de irmandade. A falta da harmonia proporcionada por este sentimento maior a que, na qualidade de Cristianismo redivivo, a doutrina Espírita se propõe como instrumento revelador, o amor. Amor que este, vale dizer, não faz acepção alguma de pessoa e que é naturalmente inclusivo e jamais, excludente, nem se deixa vencer pela força do ego e suas ações benfeitoras camufladas, sempre movidas pelo jogo dos interesses pessoais egocêntricos.

Finalizo minhas palavras em torno desta delicada problemática para a qual, na qualidade de espíritas-cristãos, julgo precisarmos de uma reflexão sempre a mais profunda e permanente, recorrendo a um trecho proferido por Alan Kardec, e extraído da Revista Espírita (edição de setembro de 1862) em que, ao se dirigir aos confrades espíritas de Lyon e Bordeaux, diz ele aos lhes encorajar: “Continuai, pois, meus amigos, a grande obra de regeneração, iniciada sob tão felizes auspícios, e em breve colhereis os frutos da vossa perseverança. Provai, sobretudo pela união e pela prática do bem, que o Espiritismo é a garantia da paz e da concórdia entre os homens, e fazei que, em se vos vendo, se possa dizer que seria desejável que todos fossem espíritas. [...] Doravante, ela seja a palavra de união entre todos os homens sinceros, que querem o bem, sem segunda intenção pessoal [...]”.