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Rosildo Brito

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16/04/2016 às 18h05

Metamorfoseando: a arte de se reinventar

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É curioso como, com o passar dos anos e a experimentação de novas e inusitadas situações com que nos deparamos no transcorrer do tempo, muitos de nossos valores, conceitos e a própria visão de mundo vão se alterando sensivelmente. E em meio a essa metamorfose, posições que ambicionávamos, conquistas que valorizávamos e pessoas que admirávamos, aos poucos vão perdendo o encanto sobre nós. Verdades que tínhamos como certas, já não se sustentam mais e posições que defendíamos fervorosamente já não nos importa mais.

Há uma fase da vida em que chega o momento de revermos alguns dos princípios e premissas que por muito tempo nos apegávamos messianicamente, mas que só depois das reflexões do homem maduro, experiência essa vivida, sobretudo, a partir da chamada meia idade, ou como nos esclarece o evangelho, com o desabrochar do homem novo, vemos que tratavam-se de verdades arraigadas ao sentimento de compartilhamento coletivo a que por muito tempo - alguns por toda a vida - , permanece sendo o principal conduto de apreensão da realidade a nossa volta.

Para muitos além dos tantos momentos de crise existencial vivenciados ao longo de nossa existência, essa crise da meia idade, quando bem assimilada e superados os conflitos íntimos que essa faz gerar, se manifesta como significativa experiência metamórfica ao nos fazer enxergar, de forma aliviada e otimista, a capacidade de realizarmos, dentro de nós e ao nosso derredor, alternâncias endógenas mas também exógenas, mudando profundamente algo dentro de nós, mas também ao nosso derredor. Coisas que nunca mais serão as mesmas e que nos ajudam a compreender melhor a mudança porque muitos daqueles que nos rodeiam passaram e os fizeram ser estranhamente diferentes, não importa se para melhor ou para pior, segundo a ótica alheia. O importante é que, de algum modo, permitiram se metamorfosear na vida, agindo assim, em conformidade a uma das máximas universais da vida que é a lei da impermanência.

E assim, ao nos tornarmos cada vez mais íntimos de nós mesmos, caminhamos cada vez mais conscientes de que muito dos nossos esforços, crenças e ideais não passavam de vaidades, as quais nos fizeram tanto correr atrás do vento. Vaidades essas que, vale dizer, em boa medida, persistem, pois como revelaram o sábio rei Salomão, no livro de Eclesiastes, tudo em nós e a nossa volta gira em torno da vaidade humana. “Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade!”, diz-nos ele em Eclesiastes (2:1). Porém, de forma mais amena e menos ofensiva à alma. Passamos a perceber, por exemplo, que quanto menos espaço concedermos para o nosso ego, mais dono de nós mesmos seremos. Que quanto mais sincero puder ser conosco mesmos, mais facilmente seremos com as outras pessoas. E que ser franco com os outros não implica em dizer-lhes o que pensamos a respeito deles sem falseamento, nem tão pouco revelar-lhes tudo o que pensamos a seu respeito, mas sim, olhar para cada um com mais atenção sem tanta indiferença ou desfaçatez.

Por fim, parafraseando um certo autor que li recentemente, talvez, a maior descoberta que fazemos nesse tempo que antecede o outono de nossas vidas, é que nossa vocação maior é tornarmo-nos mais humanos. E, sem o temor paralisante que outrora sentíamos da censura daqueles que nos cercam e que condenariam toda e qualquer fragilidade e vulnerabilidade humana em nós, nos desnudarmos, como faço por meio deste texto, sem nenhum receio de dizer que o que mais desejo para mim e para todos, é acima de tudo, desenvolver a capacidade plena de amar. E assim, descobrir em nós o germe desse sentimento magnânimo que resume o sentido maior de nossa existência e que, nas sábias e divinas palavras de Jesus, o codinome do amor maior já revelado a toda a humanidade, resume todas as leis, toda a sabedoria e o destino de cada um de nós. Mas para isso precisamos, como adverte o poeta Beto Guedes, numa de suas mais belas canções, enfrentar aquilo que nos parece ser demasiadamente paradoxal e estranho que é vencer o medo de amar e de ser livre. “Livre para o que der e vier. Livre para sempre estar onde o justo estiver...”. Eis aqui, hoje, a grande certeza que carrego comigo em meio a tantas incertezas e dúvidas que, apesar de toda a caminhada traçada até aqui, persistem em me acompanhar, mas que também me inspiram sempre em continuar metamorfoseando a vida e assim, me reinventando, A certeza de que só o amor liberta. A de que só o amor é real!