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Rosildo Brito

Rosildo Brito é profitente e trabalhador cristão-espírita por crença, jornalista e professor por formação profissional e humanista por convicção.

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01/06/2019 às 11h35

Os perigos do espiritismo customizado

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Não é de hoje que alguns pensadores das ciências humanas e líderes espiritualistas sérios vem chamando a atenção para um fenômeno curioso e também preocupante no campo da religião que é a mercantilização da fé. Algo que não para de se desenvolver, assumindo novas formas e atingindo até mesmo grupos religiosos com um perfil diferenciado das práticas religiosas tradicionais, como é o caso do espiritismo que, como se sabe, pelo menos no Brasil, é considerado sim uma religião, em detrimento da discussão que até hoje divide opiniões. Dentro desse panorama crítico, algumas análises mais recentes tem chamado a atenção para um aspecto específico e realmente digno de um olhar mais atento que é o processo de customização e comoditização que vem tomando conta do universo das diversas denominações religiosas no Brasil e no mundo. Trata-se aqui de um fenômeno intrigante cujo olhar reflexivo nos proporciona enxergar de maneira mais nítida, o aterrorizante mundo pós-moderno em que vivemos cada vez mais regido pelas técnicas e artimanhas de um merchandising agressivo e desumano que insiste em transformar absolutamente tudo, inclusive filosofias de vida e seres humanos em meros produtos colocados à venda dentro do competitivo mercado que, por sua vez, vem agindo sobre todos nós com sua mão invisível, tornando-se um deus todo poderoso.

E, para nos darmos conta de como até mesmo o Espiritismo vem se tornando alvo desse monstro devorador de valores supremos, reduzindo-os aos padrões e princípios mercantilistas e eminentemente materiais, precisamos entender um pouco que seja sobre os processos de customização e comoditização já mencionados. Em linhas gerais, o primeiro diz respeito ao processo de personalização, de adequação de algo em conformidade com a lógica do mercado que tem no consumismo, o seu princípio vital. Não é novidade para ninguém mais o fato de que vivemos todos submetidos a um sistema social em que o estilo de vida majoritário consiste numa reprodução daquilo que vem sendo consumido, valorizado pela coletividade. Nesse sentido, existe uma pressão implícita sob cada indivíduo que se vê coagido a se adaptar ao estilo apregoado por uma maioria que, por sua vez, serve aos requisitos da comoditização do estilo de vida em suas diversas dimensões. Esse fenômeno, por sua vez, desemboca no processo de construção do commodity, ou commodities, termo inglês pertencente ao universo do mercado empresarial e que remete à produtos que funcionam como matéria-prima para a geração de outros produzidos a partir das preferências e tendências advindas da clientela que, vale salientar, mesmo se dá conta, está submetida a esse ciclo vicioso, onde um leva ao outro.

Este fenômeno social que ocorre sob a égide de um ideal mercadológico vem sendo abordado por dois dos mais renomados pensadores críticos brasileiros da atualidade que são o historiador Leandro Karnal e o filósofo Luiz Felipe Pondé. Este último, por sua vez, escreveu há poucos anos na Revista Brasileira de Filosofia da Religião (2016), um excelente artigo científico acerca dessa problemática, intitulado: “Religião como commodity”, cuja leitura é pra lá de recomendável. Nele, Pondé chama a atenção, em síntese, para o fato de como esse processo de commoditização da religião vem ocorrendo, tendo como base, as estruturas de pensamento fundamentadas na lógica da emergente sociedade pós-moderna, cada vez mais regida pela lógica instrumental e tecnocrata do consumismo. Um fenômeno já abordado por diversos pensadores das Ciências Sociais e Humanas e também espiritualistas e que ressaltam a coisificação da vida humana neste planeta que cada vez mais se rende à regras de imposição subliminares do consumismo. Uma sociedade em que tudo tem se reduzido a objeto de consumo, tragado para dentro da lógica da compra e venda. E isto inclui também práticas, como, por exemplo, a religiosidade, ou espiritualidade inconsistente, como se preferir. Nesse sentido, o teólogo Ed René Kivitz foi muito lúcido ao dizer recentemente que uma religião de commodities oferece uma religião de produtos, sendo Deus o produto maior. Aliás, vale a pena ver o vídeo em que este pensador crítico fala a respeito desta temática, intitulado: “Espiritualidade inconsistente”, aos nos fazer ver que essa prática de comoditização da religião fere o que há de mais essencial da fé cristã.

E aprofundando a compreensão em torno da comoditização no campo da religião, não resta dúvida de que o maior commodity do mundo ocidental, ou seja, o produto mais forjado e readaptado ao gosto do público consumidor de fiéis tem sido Jesus Cristo. Um commodity que, vale salientar, já não se encontra mais restrito, pertencente ao competitivo mercado das instituições religiosas, da esfera das religiões, e se expande para vários outros tipos de mercados, como por exemplo, o do bilionário mundo do entretenimento e das editoras que por sua vez, tem instigado muito de seus autores Best-sellers a escreverem a respeito de Jesus. O resultado está ai nas livrarias e bancas de revista do mundo inteiro. A cada dia se multiplica o número de títulos de obras trazendo na capa como destaque esse commodity cujos autores tem se tornado especialistas, lançando leituras das mais alternativas e esdrúxulas imagináveis. Aliás, até hoje ninguém bateu o Recorde de Jesus na capa da maior revista informativa do mundo, a Times. Esse mesmo que tem ajudado a tantas outras empresas do mercado editorial a aumentar o seu lucro. Mas de que Jesus estão falando? Certamente não o mesmo para todas as religiões, assim como não o mesmo Deus que, vale salientar, permanece sendo o ser mais interpretado, compreendido, percebido das mais variadas e místicas maneiras e, até hoje, pouco sentido e manifestado por aqueles que se dizem seus adeptos.

E o Espiritismo, onde entra em meio a isso tudo? Antes de mais nada é preciso antes fazer uma distinção e esclarecer que não me refiro aqui ao Espiritismo em sua essência, a doutrina codificada por Allan Kardec e cujos princípios se encontram devidamente registrados no Pentateuco espírita, esse conjunto de obras ainda pouco conhecido e menos ainda compreendido. Refiro-me aqui ao espiritismo propagado através de muito expositores e profitentes atrelados às mais variadas e diversas agremiações espiritistas espalhadas pelo país afora, bem como por meio da enorme gama de obras lançadas pelos inúmeros escritores, médiuns e aqueles que se tornaram “especialistas” do Espiritismo e que não param de lançar no mercado editorial, livros a respeito desta que, em detrimento do preconceito de que ainda é alvo, há tempo se tornou um filão para o mercado. Volto-me aqui, para o espiritismo reinventado, customizado por aqueles que assumiram a liderança de falar em seu nome. Muitos dos quais se destacam na qualidade de membros chancelados do denominado Movimento Espírita Brasileiro e até mesmo de instituições legítimas como a Federação Espírita Brasileira, cujas muitas das ações e até mesmo postura diante de determinados temas e questões polêmicas, vale dizer, há tempos vem sendo contestadas por sérios estudiosos e apreciadores da Doutrina Espírita. Afinal de contas, na qualidade de uma entidade constituída por homens falíveis também é passível de erros dos mais diversos possíveis e imagináveis e, por isso mesmo, precisa estar sempre aberta ao diálogo franco e a um processo de autoavaliação permanente, objetivando desta maneira, combater os possíveis equívocos cometidos.

Mas esta, infelizmente não tem sido a postura adotada por todos os que constituem a grande maioria das entidades espiritistas espalhadas pelo Brasil afora e que, diante dos que pensam de maneira diferente ao que vem sendo imposto por aqueles que se auto-elegem legítimos guardiões do saber espírita, preferem ignorar e pior ainda, excluir esses de seus repertórios e privilegiado grupo de eleitos. Esta tem sido, aliás, a postura repetida pelos diversos líderes que constituem o denominado Movimento Espírita configurado em cada um dos Estados brasileiros e cujas dissensões e divergências de ideias e ideais entre seus membros tem gerado um desmembramento e subdivisão cada vez maior dentro do Movimento. Minha convivência e experiência por entre o Movimento Espírita local e paraibano, e mais recentemente no Movimento Espírita paulistano, fez-me comprovar essa realidade que, vale dizer, é um fenômeno já esperado, ou pelo menos prenunciado pelo próprio codificador Allan Kardec que, como demonstram vários registros documentais, tinha como uma de suas principais preocupações ao apresentar a revolução espírita ao mundo, a forma como essa seria organizada, administrada e levada a diante por aqueles que se tornariam seus seguidores e fiéis representantes. Algo que o acompanhou até o seu desencarne, em 1869 e que aponta para o desafio maior a que o Espiritismo seria submetido. Ao ponto de Léon Denis, um dos maiores nomes da história do Espiritismo declarar certa vez: “o Espiritismo será o que os homens fizerem dele”.

E é justamente aqui, onde se encaixa questões específicas e dignas de uma reflexão por parte de todo espírita sério e comprometido com a verdade, mas despido de qualquer indício de presunção sobre autoridade sobre esta. Aqueles que longe de todo e qualquer tipo de postura puritana, ortodoxa e conservadora, mantém-se com a mente sempre aberta e lança um olhar mais crítico acerca da realidade em torno do que de fato se tornou o espiritismo brasileiro, este para o qual, convido os amigos leitores a juntos refletirmos, dialogarmos e que, por motivo de tempo de minha parte e certamente também de cada um de vocês, será retomado com um maior fôlego na continuação deste artigo (parte II) a ser postado neste mesmo espaço, nos próximos quinze dias. Por meio do qual, tentarei apresentar de maneira mais clara, as formas com que o espiritismo brasileiro vem sendo customizado. Até lá!.