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Rosildo Brito

Rosildo Brito é profitente e trabalhador cristão-espírita por crença, jornalista e professor por formação profissional e humanista por essência.

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05/07/2018 às 06h30

A morte e a vida que vale a pena ser vivida...

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Sem dúvida alguma, para uma vida que valha apena ser vivida, é necessário nascer de novo. A cada dia. Mas para (re) nascer, é preciso morrer. É imperioso que encaremos a morte quantas vezes for necessário. E, antes de qualquer conjectura de natureza espiritualista, esclareço que não me refiro aqui à crença milenar reencarnacionista reacendida no ocidente pelo Espiritismo, na qual centenas de milhares de pessoas tem depositado suas esperanças e acalentado suas almas. Nem também ao que está escrito nas Escrituras Sagradas Cristãs ao nos falar da necessidade da conversão da velha para a nova criatura, como ascensão e garantia de acesso ao cobiçado reino celestial. Com a permissão da licença poética, falo aqui de maneira restrita, ao modo especial, figurativo e profundamente reflexivo com que esta problemática é tratada no universo literário da poesia, do qual fazem parte esses seres encantadores que parecem ter em mãos, o condão mágico do despertar para aquilo que a razão, pura e simplesmente, é incapaz de nos fazer compreender: a dimensão maior da vida.

Certa vez, li em algum lugar, a assertiva de que a morte não é o contrário da vida. Que o oposto da morte é o nascimento. Isto porque a vida não tem contrário. Assim, como nos faz ver o pensador Deepak Chopra, a vida é o continuum entre nascimento e morte. Isto nos faz ver o quanto precisamos subjetivizar o morrer, afastando-nos do sentido fúnebre e fatalista de que, sobretudo, a cultura ocidental nos faz encarar a morte. E assim feito, quem poderá negar que morremos e (re) nascemos ao despertar para cada novo dia?. Quem será capaz de negar que morremos todos os dias e a cada segundo que nos enchemos de tédio, de preguiça, de mesmice?. Por quantas vezes deixamo-nos falecer diante das dificuldades, do medo e das maldades alheias? De quantos sonhos já abrimos mão, sepultando valiosas oportunidades de chegarmos mais perto da felicidade, esta utopia vitalícia necessária?. Por quantas vezes arriscamos tudo o que tínhamos de maior valor, num jogo de morte súbita certa ao chamarmos de coragem, o mero impulso instintivo de uma paixão incontrolável, o qual, por muitas vezes, damos o nome de amor?

São reflexões como estas que nos fazem enxergar mais de perto, o fato de que vivemos num mundo cercados de zumbis por toda a parte. Um mundo repleto de pessoas que já morreram e que, assim como vemos nos filmes de terror ou de suspense, não se deram conta. E o pior é que para a maioria de nós, se quer desconfiamos dessa terrível realidade. E assim prosseguimos morrendo de pavor de mudar cacoetes, opiniões, certezas, repetindo automaticamente velhos e ranhetas comportamentos. Morrendo de medo de encarar as verdades da alma, no espelho da consciência, cujos reflexos nem sempre soam agradáveis ou digestivos. E essas são, apenas algumas das inúmeras maneiras de se morrer sucessivas vezes, dia a dia, pouco a pouco. E que apontam para a necessidade de lidarmos de forma mais consciente com o morrer e o nascer de novo...

E para finalizar essa reflexão sobre o morrer e o viver aqui compartilhada, fico com as sábias e belas palavras do ilustre conterrâneo, Ariano Suassuna, para quem a morte e o morrer sempre foram umas de suas inspirações mais constantes e encorajadoras. Dizia ele “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver”. Eis uma forma poética de nos dizer que a vida de verdade, é só para aqueles que vivem da coragem e fazem dela, a sua arma e escudo contra o medo e a covardia que insistem em nos visitar na nossa jornada por esse mundo transitório e cada vez mais repleto de mortos vivos...