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Rosildo Brito

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07/04/2017 às 08h05

O papel do espírita no cenário político atual

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“Ser útil e reconhecido à Nação que o afaga por filho, cumprindo rigorosamente os deveres que lhe tocam na vida de cidadão”.

(André Luiz - Conduta Espírita)

Contrariando uma tendência do pensamento de que o espírita deve permanecer alheio a processos envolvendo a política, um grupo de profitentes do Espiritismo encabeçou uma petição pública destinada ao Congresso Nacional Brasileiro, por meio da qual, se posicionam politicamente contra o que consideram um golpe em andamento no cenário político brasileiro, em desfavor da democracia e de uma série de direitos civis já consolidados. O abaixo assinado que circula na internet, através do endereço eletrônico: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR89520 e vem contando o apoio de centenas de simpatizantes, como era de se esperar, traz à tona uma velha discussão que vez por outra ressurge e que trata da polêmica relação entre política e religião, tendo como foco o seguinte questionamento: é adequado ao homem religioso se envolver com ações de natureza política ?

Em se tratando dos seguidores do Espiritismo, a questão parece ainda mais inquietante uma vez que estamos falando de uma doutrina cujo propósito é o de contribuir para um maior discernimento no tocante às verdades, princípios e leis que regem e distinguem o mundo espiritual do mundo material, o qual vale dizer, é regido por leis e princípios eminentemente humanos e, portanto, passíveis às falhas e deficiências humanas. Trata-se aqui de uma problemática que não é nova e que já foi abordada por vários nomes respeitáveis no cenário espírita brasileiro, a exemplo de Eurípedes Castro, Adolfo Bezerra de Menezes e Cairbar Schutel, para ficar apenas nestes.

Em publicação da RIE, em 1929, Cairbar Schutel afirma que “em política, em ciência e em religião, só há um norte a seguir, a verdade”. Já o eminente médico dos pobres, como passou a ser conhecido Bezerra de Menezes, chegou a afirmar certa vez que a política é “a ciência de criar o bem de todos e que caberia aos espíritas firmarem-se nesse princípio”. Em 3 de outubro de 1952, Eurípedes de Castro, representando a entidade União Evolucionista Cristã, se dirigiu a Pedro Leopoldo, Minas Gerais, com a missão de saber, por meio de Chico Xavier, a opinião de Emmanuel a respeito da participação dos espíritas na política. Naquele tempo, como ainda hoje, havia controvérsias sobre trazer a política profana para dentro das casas espíritas, que se constitui, vale dizer, um dos maiores receios dos que se contrapõe ao ativismo político por parte do espírita. E, a resposta do nobre mentor espiritual de Chico Xavier, conforme se vê publicado no portal da Rádio Boa Nova (http://radioboanova.com.br/avisaodeemmanuelsobreoespiritaeapolitica/), foi a seguinte: “Nesse sentido, cabe-nos louvar todas as iniciativas que guardam a felicidade coletiva por meta, uma vez que, colaborando, segundo cremos, na melhoria da unidade individual, em nossa tarefa de esclarecimento evangélico, devemos contribuir no engrandecimento do Todo”. Emmanuel acrescenta ainda que cabe aos espiritas o direito de participação nos serviços direcionais da vida pública, respeitando, obviamente, os princípios doutrinários espiritistas. André Luiz, no livro Conduta Espírita, nos adverte de que “somos devedores insolventes do berço que nos acolhe” e que, nesse sentido, devemos situar sempre os privilégios individuais aquém das reivindicações coletivas, em todos os setores.

Como se pode perceber, as orientações espirituais reforçam o pensamento de que o advento da Nova Era passará, inevitavelmente, pela renovação política. Até mesmo porque, nada muda se aqueles que estão à frente dos processos de governança que são os políticos não mudar. E esse processo de transformação, como bem sabemos tem de ir à direção dos anseios daqueles de quem esses se configuram com legítimos representantes, que são os cidadãos que, por meio do ato eleitoral, lhes outorgam tal poder. "E quem governa seja como quem serve". Jesus - (Lucas, 22:26. Daí, não só importante, mas a participação popular se faz necessária dentro da dinâmica do processo político. E, nesse sentido, a codificação espírita é bastante enfática ao nos dizer, através das questões nº 860 e 1019 de O Livro dos Espíritos que: "A força das coisas possibilita a mudança, mas não construirá uma sociedade mais justa, mais livre, mais feliz, sem que cada família, cada grupo, cada cidade, cada nação elabore seu projeto, organize sua ação para chegar a essa sociedade melhor". Portanto, temos o dever de fazer a nossa parte, sem esperar do Alto, como muitos fazem, as melhorias de que tanto necessitamos.

Dessa maneira, apoiado na moral evangélica e sem necessariamente comprometer-se com legendas ou organizações partidárias, mas ciente de que esse é também um direito que cabe a cada um, o Movimento Espírita pode contribuir, no campo das ideias, para a solução dos problemas políticos e sociais que surgem, naturalmente, no processo da evolução planetária.


Seria oportuno, neste momento, recordar a afirmação de Kardec no capítulo XVIII, item 25, de A gênese: “O Espiritismo não cria a renovação social; a madureza da humanidade é que fará dessa renovação uma necessidade. Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas vistas, pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é mais apto do que qualquer outra doutrina, a secundar o movimento de regeneração, por isso, é ele contemporâneo desse movimento”.

Portanto e por fim, particularmente acredito que em momentos de crise política aguda como a que por ora, não apenas o Brasil, mas o mundo atravessa, é necessário que aqueles que se dizem a serviço do bem, saiam da zona de conforto, vençam a passividade e o comodismo que lhes os torna covardes e se destitua da áurea de puritanismo hipócrita de fiéis defensores dos princípios doutrinários que os impedem de se envolver com ações de natureza políticas e, portanto, em prol das revoluções sociais que se fazem urgentes e necessárias, assumindo pra si, o papel de cristãos cidadãos. Sem esquecermos de que para se fazer o bem e evitar o mal é necessário que o homem seja participante da sociedade em que vive, através de ações que preservem os próprios direitos naturais, como, também, dentro de suas possibilidades, defenda os direitos naturais do seu semelhante, resguardando-se sempre, obviamente, com a máxima cautela dos excessos e extremismos que costumam tomar conta dos embates políticos.

Para isso, além dos princípios doutrinários espíritas-cristãos, devemos nos deixar reger pela voz desse que é um princípio universal a que devemos sempre dar ouvidos em toda a nossa jornada e processo evolutivo que é o bom senso. Recordemos a célebre frase de Aristóteles: "o homem é um animal político", a qual nos faz ver que os homens fazem política a todo instante: em sua família, no trabalho, no prédio onde mora, na escolha dos filhos, no centro espírita e na religião de forma geral, etc. A forma, entretanto, como se posiciona e se conduz politicamente é que fará toda a diferença. E nesse sentido, não podemos negar que o campo da militância política é um dos mais valiosos cenários para se exercitar a caridade moral de que nos fala o Evangelho Segundo o Espiritismo, sobretudo, ao nos enfatizar que a caridade moral consiste em fazer com que as criaturas se suportem, se tolerem e se respeitem umas às outras, cientes de que é o que menos se faz nos embates políticos, como temos visto.

Assim, quiçá, o envolvimento daqueles que de fato levam a sério as orientações evangélicas, especialmente, a prática do respeito mútuo e de amor ao próximo, não seja, talvez, a maior de todas as contribuições do espírita mediante o cenário caótico que ai está, em que o acirramento do ódio gratuito e do desrespeito mútuo campeia chegando a patamares inaceitáveis?!. Não esquecendo-nos de que, como nos orienta o Evangelho Segundo o Espiritismo, o fato de saber calar-se mediante aqueles menos evoluídos e não dar atenção ao mau proceder de outrem se constitui numa das formas mais veementes da caridade moral, caridade esta de que o nosso país tanto necessita no momento atual...