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Rosildo Brito

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24/02/2017 às 13h15

Os propagandistas da fé espetaculosa

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Mesmo se tratando de algo de fórum essencialmente íntimo e individual, a fé religiosa, como se sabe, tornou-se um fenômeno coletivo e cada vez mais propagandístico. Diferentemente do passado em que os primeiros cristãos se reuniam em pequenos grupos e de forma simples primando pela espontaneidade dos atos, o que se vê hoje é uma verdadeira espetacularização da fé em que o culto externo tomou dimensões desproporcionais, reforçando uma prática já conhecida nas Escrituras Sagradas cristãs que é o farisaísmo e que em síntese, diz respeito à prática religiosa desprovida da fé genuína, como faziam os fariseus. Algo que tem se intensificado, em grande parte, em decorrência do sectarismo que tomou conta do Cristianismo, assim também como de outras religiões mundiais, dividindo os fiéis numa grande e efervescente massa apologística. Nesse contexto, segurar firme e de maneira estrondeante a sua bandeira religiosa passou a se tornar mais importante que a fidelidade aos princípios da própria fé professada. 

Trata-se de uma onda de alienação profunda e perigosa em torno das práticas de militância de cunho essencialmente proselitista e que infelizmente tem se manifestado, embora de maneira mais discreta e, por vezes, sútil, entre muitos dos que fazem parte do movimento espírita. Entre esses estão aqueles que se consideram seres especiais, por fazerem parte de uma casta privilegiada formada em grande parte, por pessoas intelectualizadas e socialmente bem situadas. Sem falar naqueles que se escondem por trás de um discurso ornamentado pela modéstia, mas incrementado pela vaidade presunçosa de quem considera o Espiritismo, a doutrina espiritualista por excelência. 

E é esse farisaísmo que precisamos combater legitimamente, nadando na contramão dessa prática em que o uso do verbo em nome da propagação da mensagem dita cristã se faz mais forte que a essência que esta revela. Uma prática em que a forma plástica, alegórica e organizacional se sobrepõe notadamente sob os anseios subliminares que servem de alicerces para uma vivência genuinamente cristã. Realidade esta que se apresenta de maneira ainda mais notável em determinados momentos casuais, a exemplo da realização dos mais diversos e concorridos eventos religiosos de grandes proporções, como será o caso do festival de 'almaval', como ficou conhecido o período de retiro espiritual que Campina Grande vive durante o carnaval e que congrega os profitentes das mais variadas vertentes espiritualistas. 

Algo que tenho testemunhado ao longo dos anos, não apenas na condição de participante, mas também como jornalista, função esta que desempenhei até bem pouco tempo e que me proporcionou uma olhar mais pontual e ao mesmo tempo generalista sobre tal fenômeno. E, nesse sentido, não posso deixar de destacar aqui, um registro que a princípio me causou certo estranhamento, avançando em seguida para um incômodo que diz respeito à atenção e preocupação demasiada dos envolvidos nesse processo de propagação doutrinária com os resultados quantitativos relativos à plateia. Plateia essa que se torna uma variável estatística dentro da meta propagandística religiosa. Isso sem falar nos aspectos de dissensões diversos gerados a partir dos desentendimentos e conflitos apontando para a ausência do genuíno clima fraterno não apenas entre os membros que estão à frente desse processo organizacional de doutrinação como entre estes e o público. Algo que me faz recordar uma das máximas proferidas por Chico Xavier ao dizer que “em casa que muito cresce, o amor desaparece...”. 

Por tanto, ao refletir sobre essas questões, as quais tenho certeza de que não sou o único a ter as mesmas impressões, penso que necessitamos fazer uma autoanálise mais profunda possível, a fim de averiguar que tipo de fé temos vivenciado intimamente, para além da religião que temos professado. Que na condição de quem aspira pela vivência do Cristianismo puro e vívido, nos mantenhamos vigilantes a fim de não nos deixarmos contaminar por essa onda proselitista regida pelo mal da hipocrisia que caracteriza a atual fase da religiosidade no mundo em que parece que, tomados pelo espírito da concorrência e individualismo acirrados, os indivíduos termina por colocar a luz debaixo do alqueire. E que reflitamos profundamente acerca da máxima de São Francisco de Assis ao nos dizer: “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras”. Sem mais!