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Rosildo Brito

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06/10/2016 às 03h10

Espiritismo x Personalismo

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O último texto aqui publicado intitulado “A corrupção no movimento espírita”, terminou gerando uma considerável repercussão por parte de diversos internautas espiritistas que, em sua maioria, manifestaram sua preocupação com os rumos do movimento espírita brasileiro. Além das diversas postagens de comentários neste portal, permaneço recebendo respostas advindas de diversos confrades espíritas paraibanos e de outros estados que alegaram constatar a mesma realidade nas experiências nos agrupamentos espiritistas dos quais participam. Isso sem falar numa outra reação, esta, porém, já presumível, e manifesta de maneira subliminar, que foi o incômodo do tema junto ao seleto grupo dos espíritas puritanos, os ‘guardas-de-honra’ da codificação. Aqueles para quem não cabe ao espírita verdadeiro uma postura crítica mais severa e, menos ainda, quando dirigida aos seus pares, evitando desta maneira toda e qualquer forma de embate de ideias ou dissensão partidária. Aqueles que costumam se resvalar de uma indulgência ultrajada e não convincente. Mas enfim, sem crise, afinal de contas, somos todos falhos e devemos respeitar essas distinções, mesmo sem concordarmos, cientes de que unidade de pensamento é um equívoco a que devemos estar atentos.

Em resposta à repercussão gerada especialmente por meio dos diversos comentários aqui postados, resolvi escrever este artigo julgando ser válido um complemento acerca do pensamento manifestado por mim naquela ocasião e buscando aprofundar um pouco mais essa que julgo ser uma provocação reflexiva salutar para todos os que fazem e/ou acompanham a desafiante e polêmica tarefa humana de representação e difusão desta doutrina grandiosa e formidável que é o Espiritismo, independentemente de sua ótica ideológica. Nesse sentido, considero conveniente destacar primeiramente, a importância de sempre sabermos distinguir a diferença entre a Doutrina Espírita e o que chamamos de Movimento Espírita. Em linhas gerais, a primeira compreende os princípios e o corpo doutrinário do Espiritismo, cuja codificação devemos ao professor e mestre Hippolyte Léon Denizard Rivail. Já por Movimento Espírita, compreende-se, em síntese, o resultado da conjugação dos esforços dos adeptos do Espiritismo com o objetivo de sua propagação e consequente aplicação. Enquanto a primeira se encontra consubstanciada nas obras fundamentais do Espiritismo, sobretudo no chamado Pentateuco Kardequiano, o Movimento Espírita se expressa nas ações e posturas de todos os que, por meio dos diversos núcleos, entidades e iniciativas representativas divulgam, propagam e buscam pôr em prática os princípios doutrinários espíritas.

Assim, é importante frisar que não cabe ao Espiritismo responder por equívocos cometidos por aqueles que têm sob sua responsabilidade a condução do movimento espírita, quer no âmbito federal, estadual ou regional. E, menos ainda, pela postura daqueles que se autodenominam espíritas, mas cujos pensamentos e ações não coadunam com as práticas e vivências do verdadeiro espírita que, conforme define o próprio codificador, é aquele que se conhece pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas más tendências. Assim, logo se conclui que estão fora dessa denominação de espíritas autênticos, todo aquele que, mesmo detendo um grande conhecimento sobre o Espiritismo (refiro-me aqui especificamente aos que compõem a glamorosa elite intelectual do Movimento Espírita) e uma larga folha de serviço prestado em nome deste, sua vida, ainda sim, não serve de testemunho de aprimoramento moral e espiritual. Vê-se, assim, portanto, que o dinamismo dos mais diversos grupos humanos que compõem o denominado movimento em destaque, não representa necessariamente uma demonstração de agrupamentos de almas efetivamente espíritas, na essência da palavra. Grupo de seres reunidos e unidos pelos laços indestrutíveis e sublimes do amor e da caridade que devem ser, como sabemos, o alvo maior de todo espírita. E mais, que, mesmo sendo uma das principais e mais importantes funções estruturais visando à propagação dos princípios espiritistas entre os homens, não é a divulgação doutrinária de que se valem os representantes desse movimento que os legitima como fiéis e autênticos espíritas, por mais que assim se considerem.

Nesse sentido, se faz importante destacar nessa reflexão, um equívoco também muito comum entre os ditos representantes do Movimento Espírita em toda a parte que é a prática do proselitismo disfarçado. Refiro-me aqui ao conjunto de intenções e ações que norteiam a conduta e prática de muitos dos que compõem os agrupamentos que constituem esse movimento e cuja preocupação na verdade é sempre a de, a bem da verdade, exaltar o nome do Espiritismo primordialmente e acima de tudo, passando por cima inclusive, daquilo que deve ser sempre a maior chancela da Doutrina Espírita que é o exemplo cristão, onde, vale dizer, mais pecamos. Aqueles que, tomados por um lado, de um sentimento de fanatismo brando e, por outro, de uma postura egocêntrica, se utilizam equivocadamente da máxima de que a maior caridade à Doutrina Espírita é a sua divulgação, para fazerem dessa atividade, um canal autopromocional de si e das instituições espíritas que representam ou das quais fazem parte. Este, aliás, trata-se de um dos mais sérios, lamentáveis e agravantes traços característicos desse movimento que ai está e que tem no exercício do personalismo, a sua chaga motriz.

Como consequência disto, vemos se expandir pelos quatro cantos do Brasil, o Espiritismo personalizado, ou seja, fundamentado na importância da personalidade dos líderes e/ou representantes ilustres do movimento, os quais, por sua vez, costumam se valer, seja da autoridade ou prestígio, para dar vazão aos mais nefastos vícios humanos que são o orgulho e o egoísmo. Trata-se de algo, aliás, nenhum pouco novo nos meios espiritistas e que já havia sido observado e combatido por Alan Kardec. Ele que, no Livro dos Espíritos, no capítulo XII, ao tratar da perfeição moral, como complemento da resposta de número 917, assevera que “O egoísmo se funda na importância da personalidade”. E complementa: “[...] ora, o Espiritismo bem compreendido, repito-o, faz ver as coisas de tão alto, que o sentimento da personalidade desaparece de alguma forma perante a imensidão. Ao destruir essa importância, ou pelo menos ao fazer ver a personalidade naquilo que de fato ela é, ele combate necessariamente o egoísmo." Aliás, Kardec foi o primeiro a observar a infiltração do personalismo e as fragilidades humanas na formação dos agrupamentos espíritas, chamando a atenção para aquilo que até hoje impera nos movimentos religiosos em geral que é a supremacia dos interesses pessoais e egocêntricos, algo que tanto caracteriza as ambições eminentemente humanas. Não é por acaso que no capítulo XX de o Evangelho Segundo o Espiritismo, está registrado que: “Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade!”.

Encerrando essa abordagem crítico-reflexiva, fiquemos com o que nos diz o codificador, ao falar a respeito do verdadeiro espírita que para ele “[...] É reconhecido por suas qualidades, e a primeira é a abnegação da personalidade”. Ele que, ao completar esse pensamento transmitido pela espiritualidade superior parecia se antecipar ao combate de algo cada vez mais presente no Movimento Espírita na atualidade que são as ambições pessoais manifestas pelos movimentistas espíritas. Algo explicitamente registrado através dessas palavras: “É, pois, por seus atos que o reconhecemos, mais que pelas palavras. O verdadeiro espírita não é movido pela ambição, nem pelo amor-próprio. (Revue Spirite de 1861, p. 363).