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Kéops Pires

Juiz de Direito, Presidente da Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas, Professor de Direito Processual Civil

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25/06/2015 às 00h00

Justiça Divina e Reencarnação

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Estive noutro dia ouvindo uma entrevista concedida em uma rádio por um certo religioso que, dentre outros temas, falava a respeito da Justiça Divina. Falava que Deus não condena ninguém, pois o ser humano já é condenado desde o nascimento, em razão do “pecado original” de Adão e Eva. Indagado pelo repórter sobre o que é que nós temos com Adão e Eva e com o “pecado” por eles cometido, dito religioso se limitou a afirmar que não sabia, que o repórter perguntasse a Deus, pois suas leis constituem um mistério.

Fiquei, então, a refletir sobre tais argumentos do religioso. Em primeiro lugar, ele está certo em afirmar que Deus não condena ninguém. De fato, não se pode antropomorfizar Deus, emprestar-Lhe os atributos humanos. Nós é que, pelas nossas escolhas, nosso livre arbítrio, ferimos nossa consciência e sofremos daí as consequências negativas. Afirmar, entretanto, que somos todos condenados desde o nascimento, devido ao chamado “pecado original”, não se pode admitir, sob pena de imaginarmos um Deus rancoroso, vingativo e, acima de tudo, injusto, qualidades essas que nada de divinas têm, ao contrário, são típicas de nós, seres humanos criaturas de Deus.

Sem querer adentrar na questão sobre a existência ou não dos próprios Adão e Eva, enquanto seres únicos da criação, temos que raciocinar sobre o sentido da “maldição” lançada sobre eles, atingindo toda sua descendência, a humanidade como um todo, conforme o Livro do Gênesis. Esse “pecado original” de Adão e Eva, de terem comido do fruto da árvore do conhecimento e, em consequência, terem sido expulsos do Éden, tem que ser interpretado de um modo coerente com todo o ensinamento cristão.

A Justiça de Deus é perfeita e imutável. Admitir-se que alguém possa sofrer alguma condenação e ser penalizado em decorrência do erro ou “pecado” de outrem, seria atribuir a Deus um julgamento injusto. Nem mesmo na nossa pobre e imperfeita legislação humana a pena pode passar da pessoa do infrator, isso na imensa maioria dos povos modernos. É um princípio básico da lei penal. Imaginar, então, que estejamos todos condenados pelo “pecado original” é rematada extravagância interpretativa, incoerente com todos os preceitos básicos de Justiça e desconexo com os ensinamentos do Cristo.

O Espiritismo desvenda o véu sobre esses mistérios. O processo reencarnatório explica de forma coerente e racional as dores e os sofrimentos humanos. Sendo certo que não há efeito sem causa, os sofrimentos de hoje são frutos dos erros cometidos no passado, do mesmo modo que os erros hoje cometidos acarretarão sofrimentos futuros. Somos compelidos a pagar pelos equívocos por nós mesmos perpetrados, no inevitável processo evolutivo em que nos encontramos.

É a única doutrina que explica as injustiças sociais, as misérias humanas, as expiações coletivas e individuais, os flagelos que assolam a humanidade ao longo das Eras. Senão, como explicar de forma lógica o fato de uma pessoa já nascer cega, ou paralítica, surda, muda, com doenças crônicas? As causas não podem ser encontradas nesta vida, mas nas vivências passadas em outro corpo físico, sob pena de concluirmos pela injustiça de Deus.

Se tivéssemos uma única encarnação, como pesar numa mesma balança alguém que nasceu em família ajustada e um outro que teve berço em uma família desequilibrada socialmente e que só recebeu lições equivocadas ao longo da vida? Pode-se afirmar que ambos tiveram as mesmas condições de acertar o passo com as leis eternas? Não. Mas a lei de causa e efeito explica bem essas diferenças, de conformidade com o merecimento de cada um, de acordo com as suas obras.

Publicado no Diário da Borborema em 11.02.2011