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Kéops Pires

Juiz de Direito, Presidente da Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas, Professor de Direito Processual Civil

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01/07/2015 às 14h05

Não Vim Trazer a Paz

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Uma das passagens do Evangelho que mais tem se prestado a interpretações equivocadas é a contida em Mateus, X, versículo 34: “Não penseis que eu tenha vindo trazer paz à Terra; não vim trazer paz, mas a espada”. Em Lucas, XII, versículo 51, lê-se: “Julgais que eu tenha trazido paz à Terra? Não, eu vos afirmo. Ao contrário, vim trazer a divisão”. Tal ensinamento de Jesus é bastante eloquente e constitui um dos objetos de estudo do Evangelho Segundo o Espiritismo, obra de Allan Kardec que integra a Codificação Espírita. No capítulo XXIII daquele compêndio, intitulado “Estranha Moral”, faz-se uma abordagem a respeito de diversas passagens em que aparentemente se verifica uma incoerência nas lições do Cristo. Não há nada de ambíguo ou de estranho nessa passagem do Evangelho. Jesus, que nos conhece a todos e é dotado da presciência, profundo conhecedor da alma humana que é, sabia das lutas e dificuldades que a sua palavra teria que enfrentar para se implantar na consciência humana. Sabia de antemão das distorções que o homem, ao longo da história, iria implementar quanto à boa-nova. E não foi outra a consequência da má interpretação que o homem deu às suas palavras. Sabia Jesus dos massacres que estavam reservados aos cristãos primitivos. Sabia das guerras que seriam travadas em seu nome. Tinha pleno conhecimento do desvirtuamento das lições de amor, de fraternidade, de perdão, de humildade e de fé. No contexto do versículo acima transcrito, Jesus falava para Seus discípulos, orientando-os quanto à tarefa de que eram incumbidos, de espalhar a boa-nova pelos povos. Alertava-lhes para as dificuldades que enfrentariam; para as prisões, processos e açoites que padeceriam para cumprirem aquela missão. Eram ovelhas enviadas para o meio dos lobos, exigindo-lhes a prudência das serpentes e a simplicidade das pombas (Mateus, X:16). Alertava Jesus, também, quando às dissensões que ocorreriam no seio das famílias, em que pais se separariam de filhos, mães de filhas, sogras de noras. E, de fato, todos aqueles que, principalmente no início da Era Cristã, o seguiram, tiveram oposição dentro de suas próprias casas. Ainda hoje, quantas famílias encontram-se divididas, nem sempre havendo aceitação quanto à opção religiosa uns dos outros? A espada de que Jesus falava não era de ser empunhada pelos adeptos do Cristianismo, mas pelos seus opositores, aqueles que não aceitavam a palavra de libertação, de humildade, de bem-aventurança. As guerras religiosas que ainda hoje se travam, as tentativas de imposição de uma religião pela força e não pelo convencimento ou pelo envolvimento, tudo é decorrência das nossas imperfeições morais, e Jesus nos alertava para esse estado de coisas. Não se pode, portanto, extrair desse versículo a interpretação literal de que Jesus não veio trazer a paz. Todo o seu ensinamento é de paz. Não pode haver incoerência onde há a perfeição. Se o reino de Jesus não é deste mundo, como ele afirmou em João, XVIII, versículo 36, como compreender sua alusão à espada? A espada, aqui, tem caráter simbólico, alegórico, como de resto a maioria dos seus ensinamentos, que nos foram transmitidos por meio de parábolas. Essa espada representa o orgulho, a ambição, o egoísmo, o ódio, o rancor, a mágoa, a inveja, a avareza, a vingança, o ciúme, a cobiça, a maledicência e tudo quanto é vício moral de que ainda estamos repletos e dos quais só nos livraremos por meio da reforma íntima, da modificação paulatina dos nossos pensamentos, palavras e atos. A paz, somente então, será alcançada.