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Kéops Pires

Juiz de Direito, Presidente da Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas, Professor de Direito Processual Civil

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29/06/2015 às 15h15

Caridade e Recompensa

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Recentemente, um dos grandes portais de notícias na internet publicou uma matéria intitulada “Bondade Demais Pode Esconder Problema de Autoestima”. Atraído pela falta de lógica notada no título, dei-me ao trabalho de ler a matéria. Nela, uma terapeuta afirma, dentre outras coisas, que ser muito bonzinho, solícito, disponível para ajudar os outros, pode esconder o medo intenso de desagradar as pessoas. Exemplifica com o caso de uma professora que é tida como anjo da guarda em um bairro paulistano, por ajudar nas tarefas das crianças, dar carona a quem precisa, acompanhar vizinhos idosos ao médico, mas que não está feliz consigo mesma, por se sentir explorada, abusada pelas pessoas, pois tem dificuldade de recusar um pedido. Até já emprestou dinheiro e não o recebeu de volta. A matéria avança afirmando que é comum encontrar pessoas que se sentem sufocadas pelas demandas alheias, especialmente quando não há uma troca, um elogio, um gesto de carinho, uma retribuição pelo beneficiado. Conclui citando uma psicóloga que explica que “o papel de bonzinho é uma estratégia inconsciente para aliviar sentimentos negativos, resultantes da crença pessoal de que são pessoas más, indignas ou incapazes”. Creio haver um enorme equívoco por parte dos profissionais que chegaram a essa conclusão pseudocientífica. É preciso ter em mente que ser bom, praticar o bem, ajudar os outros não pode e não deve ser confundido com o ser submisso. Ninguém pode se sentir mal fazendo o bem. Quem assim o faz é porque não faz o bem desinteressadamente. É claro que as pessoas gostam de um elogio, um agradecimento, porém não se deve fazer o bem aos outros condicionando-o a essa retribuição. Todo aquele que só pratica um ato de generosidade esperando uma recompensa não está sendo generoso, está simplesmente vendendo o seu serviço. É lógico que devemos saber dizer um não quando ele for necessário. Todos têm os seus limites, afinal, estamos ainda em um mundo em que, na média, seus habitantes ainda estão muito aquém do extremo da evolução moral. Isso não significa, contudo, que os que são generosos têm algum distúrbio de comportamento, escondendo o medo de desagradar aos outros. Ao contrário, os realmente bons tem sua autoestima bastante elevada, pois sua recompensa está exatamente no bem que fazem. A Doutrina Espírita tem por lema o “Fora da caridade não há salvação”. Allan Kardec, ao comentar a parábola do bom samaritano, ensina que “toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho”. Fazer a caridade é um ato de amor. E amor não pode conter condições. Paulo, apóstolo dos gentios, na 1ª Epístola aos Coríntios, cap. XIII, versículos 4 a 7, pontifica que “a caridade é paciente; é branda e benfazeja; a caridade não é invejosa; não é temerária, nem precipitada; não se enche de orgulho; não é invejosa; não cuida de seus interesses; não se agasta, nem se azeda com coisa alguma; não suspeita mal; não se rejubila com a injustiça, mas se rejubila com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre”. Esse o verdadeiro sentido da caridade. O mais são favores com o intuito de obter vantagens imediatas.