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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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15/06/2016 às 22h10

Cheiro de verso, sabor de poesia

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                   Hoje não é prosa, mas poesia.

            Pois é, meu caro amigo... Como você mesmo sabe, venho a algum tempo peregrinando por essas paragens não muito distantes, reconhecendo risos e orvalhos que refletem sombras e auroras do meu próprio recanto pessoal... Venho me correspondendo com você, relatando minhas mais inéditas experiências, de forma a garantir que toda essa jornada não deixe de ser real, ganhando a imortalidade no momento em que pega carona nos seus olhos para conquistar sua inconsciência... Mas hoje não venho contar, mas solfejar...

            Veja... Aqui estou sentada no batente da modesta hotelaria dessa nova cidade por onde passo... Os olhos em pôr do sol, duelando contra a mente desperta e tão alerta que se recusa a abandonar essa fumegante xícara de café, cuja fumaça se mistura com o sereno de uma madrugada que faz uma dança sedutora para as constelações de mitologias que nos guardam de cada estrela nesse painel boreal. Aqui estou, desejando lhe falar de mais um dia nessa nova cidade, fazendo da realidade crônicas de um povo que sou eu e é você, mas absolutamente incapaz de escrever uma palavra sequer em prosa retilíneas, pois o dia hoje tem cheiro de verso, e sabor de poesia.

            Não me entenda mal, lhe imploro! Não se trata de sonhos piegas ou ilusões infantis! Já temos os pés por demais calejados para nos submetermos a rabiscos de esperanças, e aquarelas de cantigas fictícias, que pintam um amanhã muito mais colorido do que ele efetivamente pode ser. Já temos cicatrizes que cruzam nossos olhos, modificando permanentemente nossa percepção de mundo, e cada decepção vivenciada serviu de retalho para essa colcha impermeável que nos recobre e isola de tudo que pode ferir com a fala e matar com o silêncio. Não ousamos nenhum sorriso que nos coloca em arenas onde leões em pele de cordeiros nos massacram a simplicidade de ser feliz. Não acreditamos mais em promessas, que sorrateiramente nos algemam em nossas próprias expectativas, nos lançando ao mar de desilusões, deixando que nos afoguemos em lágrimas de solidão e escárnio. E podemos ambos concordar, meu caro, escolhemos deixar versos de lado, pois eles nada mais são que marcas de uma personalidade frágil, configurando uma vítima em potencial para esse universo de objetos, máscaras e humanidades.

            Mas hoje, ao chegar à hotelaria após um longo dia de caminhada, me deparei com a filha dos donos, uma bambina em torno de dois anos, pele alva, cheiro de infância, sorriso de inocência, olhar desbravador saboreando cada detalhe de seu enorme mundo limitado no cercadinho onde estava brincando com algumas bugigangas. Ao tentar passos trôpegos para alcançar um dos brinquedos, ela caiu e se pôs a chorar. A mãe logo veio para lhe abraçar e, em instantes, ela estava novamente distraída com suas brincadeiras, e com mais uma tentativa de caminhar.

Olhando para seus olhos cujo néctar se aproximava da doce mistura de café caramelizado, tive um vislumbre por um segundo, um breve e prolongando segundo, no qual simplesmente fui arremessada ao chão junto com cada cicatriz que insisto em estampar, ignorando a resistência que me deram para continuar andando; junto com essa falsa fortaleza que exponho ao mundo, ignorando a beleza de ser frágil para não ferir a fragilidade do outro; junto com essa máscara de impassividade que orgulhosamente ofusca minha face, ignorando que para vencer não é preciso sofrer; junto com cada desconfiança que carrego ao meu lado, ignorando que sempre vale à pena acreditar num amanhecer, pois ele, invariavelmente, virá. Fui lançada à minha infantilidade de escolher ser concreto em cal e espinhos, e me rendi, naquele momento, à grandiosidade de uma criança, que se permite moldar diante seus próprios erros, deixando vir lágrimas e risos misturados na singela, mas plena, sensação de que tudo, absolutamente tudo, vai dar certo, mesmo que a queda seja dolorosa e a vontade de desistir seja maior que a certeza da vitória. Afinal, sempre tem alguém, mesmo que distante, mesmo que silenciosamente, mesmo que imperceptível, para lhe abraçar e aconchegar... E dizer que mesmo que não possa caminhar por você, poderá contigo chorar, contigo levantar, e ao seu lado continuar a acreditar que vale a pena caminhar.

            É por isso, meu caro, que, em nome desse singelo frescor de vida, lhe convido hoje, só por hoje, deixar de lado prosas e proselitismos, e se deixar envolver por versos de uma brisa nova e renovadora, que tem gosto de inocência, sabor de simplicidade e nome de esperança. E quem sabe, se formos loucos o suficiente para nos embriagarmos dessa mistura deliciosa de vida, possamos nos servir diariamente com uma boa e generosa xícara de café, caramelo e fé, só para variar.