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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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03/05/2016 às 22h45

Tinha gosto de solidão e mel

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              Tinha gosto de solidão e mel.

            Assumo (sem culpa) a responsabilidade do mel, já que pedi uma porção extra para misturar à fumegante xícara de café que pedi na única biboca aberta às onze da noite de um domingo de inverno. Mas solidão foi por inteira conta da casa...

            Não que eu esperasse uma superlotação naquele estabelecimento cujo cheiro provavelmente lembrava diariamente ao dono o perfume de seu saudoso avô, de quem havia herdado a atual “Cafeteria do Tom, pai, filho e neto”. Mas mesmo na companhia de Tom (o neto) e seu gato, o ambiente exalava algo semelhante à ausência, absolutamente preenchida de uma melancolia que embebia meu café com essa mistura intrigante e desconfortante de mel... e solidão.

            Foi quando percebi que essa atmosfera era proveniente de uma mesa distante do balcão principal (tão distante quanto poderia estar dentro dos singelos limites da pequena cafeteria de Tom e seu gato). Mais especificamente, de uma sombra que estava recostada na mesa. E com algum esforço, diante a pouca luminosidade que conseguia penetrar naquele canto, consegui distinguir a figura de um homem.

            Em torno de seus trinta anos de idade, com a barba evidentemente vítima de seu desinteresse pelo próprio reflexo, vestia um casaco tão marcado quanto sua face jovem que refletia um andarilho cansado de tanto vagar. Trazia nas mãos um papel amassado, e o olhar vazio, perdido em um mundo próprio.

            Envolvida em minha observação silenciosa da figura peculiar, mal ouvi quando Tom me perguntou se eu gostaria de mais mel em meu café. E tendo notado minha total indiscrição (e compartilhando dela), o dono do gato se apoiou no balcão e explicou, em voz baixa:

            “Aquele rapaz vem todos os dias aqui, no mesmo horário, há alguns anos... Senta-se à mesa, fica algumas horas, não pede nada, e vai embora. Ele morava com o pai, em uma chácara há alguns quilômetros daqui. Vinham com frequência resolver assuntos da empresa que gerenciavam, e sempre paravam aqui para tomar uma xícara de café. Em uma dessas viagens, o carro que o filho dirigia capotou em um grave acidente. O garoto ficou no hospital durante alguns dias, mas o pai não sobreviveu. Quando deram a notícia, o rapaz entrou em desespero, gritando que a culpa era sua. Passou alguns dias assim, e depois simplesmente não falou mais nada. Aquele casaco era o que o pai usava no dia do acidente, e eu nunca o vi sem ele, desde então. Dizem que ele encontrou aquele papel no quarto do pai, logo após o acidente, falando algo sobre manter sempre sua memória viva. Acho que é por isso que sempre vem aqui. E parece que é a única coisa que faz, há anos. Não trabalha, não se cuida... Dá até um arrepio, não? O homem escrever isso no dia em que ia morrer! Cruzes!”

            Tom ainda falou algo sobre como o movimento da cafeteria aumentava no dia de finados, já que seu estabelecimento se encontrava estrategicamente posicionado na rua que dá acesso ao cemitério da cidade. Mas eu não consegui acompanhar sua lógica mórbida, pois simplesmente não conseguia parar de olhar para o rapaz, perdido em um vazio que ressoava na beira do abismo de angústia no qual ele se encontrava, há tanto tempo.

            Instintivamente, me levantei, peguei a xícara de café que havia acabado de ser servida, e me coloquei diante da mesa do rapaz. Ao que parece, a minha presença não modificou em nada o universo particular do homem e seu casaco, porque ele não fez a mínima menção de erguer o olhar para ver (ou reclamar) quem barrava a pouca luz que chegava em sua mesa. Mesmo assim, insisti e falei:

            - Aceita um pouco de café com mel?

            A resposta não poderia ter sido mais óbvia. Talvez um simples “não” tivesse sido menos cortante que o silêncio que recebi de volta. Ainda permaneci alguns minutos em pé, esperando que talvez o constrangimento (se não dele, meu) falasse mais alto e fizesse com que o rapaz ao menos olhasse para mim. Mas nada.

            Então, vencida pela vergonha, me virei para voltar ao meu lugar e rapidamente pagar a conta, a fim de sair o mais rápido possível daquele constrangimento. Mas não poderia ser fácil assim, poderia, meu caro? Não! Não comigo! E foi por esse motivo que o gato de Tom se enroscou nas minhas pernas no exato momento em que eu me virava, fazendo com que eu derramasse a xícara de café em cima do rapaz e seu casaco.

            Provando que não se encontrava em estado hipnótico profundo, o rapaz pulou da cadeira e começou a se abanar, tentado esfriar o café que se espalhava através de seu casaco. Desesperada por tentar ajuda-lo, e percebendo que as minha tentativas de secar o líquido com guardanapos era inútil, eu puxei o casaco dele e joguei no chão.

            Não sei se pelo calor do café ou por consequência da minha atitude, o rapaz simplesmente se colocou a urrar. Um urro que vinha de suas entranhas, do abismo mais profundo de seu ser, junto com lágrimas copiosas e abundantes. Se lançando ao chão, ele repetidamente falou “Me perdoa! Me perdoa! Me perdoa!”.

            Petrificada pela cena que presenciava, eu simplesmente fiquei parada ao seu lado, sem saber o que fazer. Foi quando vi um papel saindo de um bolso interno do casaco. Abaixando discretamente, peguei e vi que nele estavam escritas algumas frases, mas estava rasgado ao meio. Olhei para o papel que havia ficado sobre a mesa, e nele encontrei a parte inicial do que parecia ser uma carta ao rapaz:

            “Meu filho,

            Nessa vida somos andarilhos que andam vendados sem saber o que nos esperava além da curva do rio... E por isso, nos resta apenas seguir a única direção que se faz farol nessa jornada cega que trilhamos: a fé.

            A fé de que não precisamos de rotas, mas de um destino para alcançar.

            Não precisamos de ilusões, mas de sonhos para dar cor à realidade.

            Não precisamos de espectadores, mas da escuridão que se faz depois que as luzes de nosso palco se apagam, para que acertemos as contas com a nossa consciência.

            Por isso, te peço, meu filho, que mantenha viva a minha memória...

            ... levando consigo a única herança que posso lhe deixar: a certeza de que não vale a pena deixar de caminhar por medo de se perder na escuridão. Faça da sua luz a candeia que te guiará pela estrada da vida.

            E se nessa jornada lhe der vontade de desistir, pare, tome uma xícara de café, e volte a caminhar, pois não somos de ferro, mas também não somos de vidro, para quebrar tão fácil.”

            Perplexa, olhei para o rapaz ainda em pranto no chão, e comecei a ler a carta em voz alta. À medida que as palavras iam fazendo sentido, ele foi diminuindo os soluços e, ao final, estava em silêncio, me encarando.

            E pela primeira vez desde que o havia visto naquela noite, seu ser não exalava solidão, mas algo diferente... talvez renovação. E quem sabe... vida.

            Eu não sei definir bem a sequência de eventos que se sucederam após receber seu mais profundo olhar. Sei que, subitamente, me vi sozinha novamente com Tom, seu gato, e um casaco no chão. Talvez a única prova de que esse fato que lhe conto, meu caro, realmente aconteceu.

            O que posso lhe dizer é que no dia seguinte, antes de seguir viagem, retornei à biboca de Tom no mesmo horário, e vi novamente a mesa mais distante do balcão principal... agora vazia. Tom, que servia minha última xícara de café naquela cidade, não soube me explicar o paradeiro do rapaz, mas não pareceu muito preocupado com a perda de um cliente, visto que o dia de finados se aproximava, o que, aparentemente, era bom para os negócios.

            Misturando o mel no meu café fumegante, repousei o olhar sobre o gato, e talvez seja demais afirmar que o vi sorrindo... Não importa, realmente. Apenas gosto de pensar que, se um dia o rapaz retornar à “Cafeteria do Tom, pai, filho e neto”, seja sem casaco, e para pedir uma doce e maravilhosa xícara de café.

            Sem solidão.

            E com uma dose extra de mel.