Colunas

Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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29/09/2019 às 20h30

Horizontes

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             Já deve ser próximo das quatro horas da manhã, mas realmente isso é apenas uma formalidade para que você, meu caro, entenda as circunstâncias em meio às quais lhe escrevo estas palavras (ou sussurros, considerando que devemos respeitar aqueles que, diferentes de mim e tu (se estivesse aqui, agora), dormem). O clima não está muito frio, o que é irônico, considerando ser uma noite (ou madrugada) de final de outono. Mas não importa, afinal...

Continuo aqui, com minha grande caneca de café macchiato (ou o mais próximo que consegui chegar dele, considerando as limitadas opções do mercado local daquela cidadezinha onde resolvi permanecer por uns dias), admirando a vista do telhado da pousada que gentilmente havia aceitado mais um hóspede em sua época de alta temporada, quando a “tia avó da senhora Margot e os seus seis gatos persas dão a honra de sua presença em nossa humilde estalagem”, como me avisou, séria, a dona da pousada, destacando o quanto estava sendo generosa ao me ceder o único cômodo no qual eu não correria o risco de incomodar o que parecia ser uma das personalidades mais ilustres da região (e seus seis gatos persas): o sótão.

Sendo eu uma pessoa extremamente flexível, como você bem sabe, meu caro, não me importei com a situação, achando, pelo contrário, uma oportunidade de realmente ter alguma privacidade com meus pensamentos, e mais eufórica fiquei quando descobri um alçapão que me dava livre acesso ao telhado da pousada, com um patente aconchegante que me permitiria verdadeiramente refletir de forma a decidir o que faria, a partir dali.

Venho viajando há algum tempo, deixando que o destino se desenhe à minha frente e crie, ao longo de cada passo, a estrada que eu tenho que seguir. Nessa jornada me surpreendi com tantas histórias e experiências únicas, risos e lágrimas num baile tão estranho e belíssimo de aprendizado e crescimento. Aprendi com a doçura das crianças, a sabedoria dos que já cruzaram muitos horizontes e com o silêncio dos que se foram, mas ainda têm muito o que ensinar. E em meio a tantas experiências, me dei conta de que talvez fosse hora de olhar para frente e decidir para onde ir.

Honestamente, percebi que requer mais coragem o ato de assumir a responsabilidade de seus próprios passos do que deixar que o destino brinque de sorte e defina a suas próprias experiências. Me tomava como grande heroína ao fechar os olhos e me lançar ao desconhecido, como que o simples ato de entrega fosse um grande feito de fé. Mas a verdade, meu caro, é que isso nada mais era do que o reflexo do meu medo de assumir saltos que pudessem me levar ao vazio... pontes que pudesse ruir na travessia... ou mesmo estradas que pudessem me enganar nas encruzilhadas... Não assumindo a escolha da direção, eu poderia culpar o acaso ou a má sorte pelos fracassos, pelas decepções, pelas dores e pelas derrotas... Não seriam meus os erros, não seria sobre mim que recairiam os uivos da plateia...

Mas a verdade, meu caro, é que depois de tanto ter andando à revelia, em busca de tudo e de todos, recebendo o que a vida tinha a me oferecer, percebi que o que faltava em meu próprio caminho era... a mim. Essa imperfeita manifestação de erros e acertos, tentativas e fracassos, conquistas e derrotas, mas uma constante mania de simplesmente persistir... diante e apesar de tudo. Percebi que deixar o medo de errar dominasse o meu ser, me guiando à cegas pelas montanhas e pelos vales escolhidos pelo destino, era simplesmente abrir mão de uma das mais belas qualidades que nós, pequenos seres desse universo grandioso, temos a nossa favor: a capacidade de escolha.

Não se trata de cair diante um salto dado, mas escolher o momento de saltar, o cume que queremos alcançar e a força que vamos dedicar a essa conquista. É arregaçar as mangas, arriscar e lançar-se de olhos abertos e braços estendidos ao horizonte multicolorido da vida, aceitando que toda experiência é válida, inclusive a queda. Ah, que deleite é cair, erguer-se com seus próprios braços, bater a poeira, beijar a própria ferida, e tentar novamente. E mais uma vez, e uma vez mais, escolhendo novas pontes, caminhos mais coerentes, estradas com tijolos mais sólidos, diante os novos aprendizados.

Que delícia é escolher a direção a seguir e assumir os perfumes e espinhos inerentes a ela... dizer “eu errei” direcionando a energia de culpa à motivação de reestruturar-se e retomar a caminhada. E perceber que não importam os uivos ou os aplausos da plateia, porque, afinal, no placo final da vida, estamos nós, absolutamente sozinhos, em pé diante as nossas próprias construções, limitações, conquistas, derrotas, virtudes, qualidades... nós e nossa solidão astral, pois que é diante nossa própria consciência que seremos julgados nesse espetáculo de viver. E nesse momento de isolamento, eis que a cortina do ontem se fecha e se escancara o amanhã, repleto dos risos compartilhados, das mãos que alcançaram as nossas quando estendemos o nosso coração, das vozes que se encontraram quando nos calamos, dos silêncios que se curaram quando concedemos um só sussurro de paz... Lá sim estarão todos, a nos receber em euforia, no verdadeiro palco de reencontro, renovação, e regeneração.

Daqui de cima, meu caro, o horizonte começa a se fazer uma aquarela de renascimento, saudando o dia que já se inicia, repleto de oportunidades e mistérios. Eis a grande maravilha da vida... Nunca se sabe o que pode acontecer do lado de lá da margem do rio, mas sempre vale a pena arriscar a travessia. Arriscar, e aproveitar cada instante dessa passagem, porque, afinal, o grande ato de fé não é mergulhar sem rumo, mas se desafiar a enfrentar o desconhecido, assumir os riscos da viagem e, acima de tudo, persistir. Acima, diante e apesar de tudo... Porque eu lhe garanto: vale à pena. E muito.

Percebi que minha caneca já estava vazia, o que indicava que provavelmente já passava da hora de entrar. Escuto um barulho ao meu lado, e vejo que um dos seis gatos persas da tia avó da senhora Margot haviam passado pelo alçapão e tentavam me alcançar por entre as frestas do telhado. Sorri, lembrando de Garibaldi Feliciano, e percebi que, realmente, a vida reserva surpresas muito melhores do que aquelas que ousamos pedir ou sonhar em nossa pequenez humana. Sim, era hora de caminhar com minhas próprias pernas, assumir meus próprios riscos, e saltar... Quem sabe onde, e ao lado de quem, eu iria aterrissar?