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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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18/08/2019 às 22h10

Um dia no parque...

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                - OLHA A BOLAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!

                Mal tive tempo de olhar em direção à voz quando senti o impacto de algo pesado colidindo contra meu corpo, me levando diretamente ao contato (íntimo demais, na minha opinião) com a grama fresca e recém aparada daquele campo. Tentando buscar o fôlego que parecia ter se perdido no caminho junto com a minha dignidade, percebi, algo confusa, que não havia sido atingida pela tal bola que estava, ao que parece, vindo em minha direção, mas por um corpo alto, musculoso e incomodamente pesado que continuava sobre mim, e do qual sai uma voz constrangida:

                - Ai, minha nossa... – dizia, enquanto tentava busca um apoio para seus cotovelos sem esmagar meu rosto no meio do caminho. – Eu sinto muito, muitíssimo! – completou, lançando seu corpo para o lado (permitindo que o oxigênio retornasse aos meus pulmões que, percebi, estavam comprimidos pelo peso de seu corpo sobre mim) e, desastrosamente, chutando meu tornozelo ao longo do movimento. Soltei um grito de dor, mais discreto do que realmente deveria ser já que o fôlego ainda estava entrecortado, mas alto o suficiente para que ele ouvisse e respondesse, absurdamente constrangido: - Meu Deus, como eu sou desastrado! Me desculpe, me desculpe mesmo! – e, conseguindo finalmente se agachado ao meu lado, perguntou: - você está bem?

                Ainda um pouco tonta pela colisão e pela queda, demorei alguns instantes para que minha visão se ajustasse à realidade e à claridade do sol que sombreava o rosto do desconhecido que me encarava, à espera de uma resposta. Quando finalmente consegui vê-lo, me deparei com dois olhos castanhos amendoados extremamente alertas e preocupados, repousando em uma face bem desenhada, protegida por cabelos levemente ondulados em cor cobre, nem tão longos nem tão curtos, combinando divinamente com o restante do rosto em exposição. Percebi que havia prendido o fôlego novamente (mas não havia mais nenhum peso comprimindo a minha caixa torácica) e senti a face queimar. Ainda me fitando com preocupação, ele estendeu a mão, falando:

                - Pobrezinha, deve estar desnorteada com a queda! Eu realmente sinto muito! Venha, deixe-me ajuda-la a se sentar. – e pegou minha mão, que se estendeu automaticamente, enquanto eu tentava me resgatar do mergulho que havia dado no mar doce de amêndoas nos olhos daquele completo estranho. – Veja que idiota eu fui! Tentei lhe salvar de uma bolada no rosto e simplesmente lhe fiz ter a maior queda dos últimos tempos, espalhando suas coisas por todo o lado! E, para completar, lhe presentei com um chute na canela! Teria como ser mais inconveniente? – ele perguntou, claramente constrangido, enquanto olhava ao redor e juntava meus pertences que, realmente, estavam distribuídos pela grama.

                - Não... – consegui dizer, logo me corrigindo ao ver sua feição embaraçada me olhar de soslaio. – Quero dizer, não se preocupe com isso! – disse, em meio a um sorriso torto. – O que vale é a intenção, não é?

                - Bem, minha boa intenção custou-lhe um tornozelo e... um litro de café? – perguntou com uma das sobrancelhas erguidas curiosamente, levantando uma garrafa térmica tamanho gigante que havia aberto na queda, derramando todo o seu conteúdo na grama.

                - Ah, não... – murmurei, desapontada, levando-me e pegando a garrafa de suas mãos, para atestar que, realmente, não havia sobrado nada dentro dela. Suspirei, frustrada.

                - Você... hum... estava esperando alguém? Ou um grupo, talvez? – perguntou ele, coçando a cabeça, confuso. – Me parece muito café para... uma pessoa só... – sorriu sem graça.

                - Bem, eu gosto de café... – respondi, tentando buscar um argumento que trouxesse alguma sanidade para a imagem que ele pudesse estar fazendo de mim, naquele momento. – Na verdade, era para o dia inteiro. Eu gosto de sentar embaixo de uma árvore para pensar e escrever, quando estou sem muitas ideias, e o café ajuda na fluência dos pensamentos... E, bem... – disse, erguendo a garrafa gigante vazia – ultimamente estou com um bloqueio literário enorme, então... precisava de medidas drásticas!

                Ele deu um sorriso compreensivo (ou talvez se questionando de qual hospício eu havia fugido, não sei dizer ao certo), e me ajudou a pegar o restante das coisas que estavam no chão: uma caderneta, alguns lápis, alguns sanduíches enrolados em papel alumínio e uma pequena cesta vazia (onde, há alguns minutos, se encontrava todo o material que agora resgatávamos do chão). Me entregando, por fim, a caderneta, ele comentou:

                - Então você é escritora, ham?

                - Eu não diria escritora, daquelas profissionais... é mais um hobbie, uma válvula de escape, sabe? Mas ultimamente não estou conseguindo escrever nada... Parece que tem uma represa, pronta para explodir da minha mente! – disse, desenhando no ar a imagem de uma implosão ao redor da minha cabeça. Observei seu olhar atento, me estudando com cuidado, e comentei, sem graça: - Bem, graças a Deus não preciso disso para viver, não é? Eu teria sérios problemas em me manter, com esse bloqueio que ando tendo... Mas não vou lhe ocupar o tempo mais do que já fiz. – Comentei, estendendo a mão e finalizando: - Foi um prazer lhe conhecer, e obrigada por... me salvar da bolada!

                - Ah, tudo bem! – disse, sorrindo. – Desculpe pelo café, pelo tombo e pela... canelada!

                - Ah, nem está doendo m... – tentei dizer, mas assim que dei um passo, meu tornozelo pareceu dar um grito de socorro e acabei me desequilibrando, caindo por pouco, não fossem os braços do desconhecido me amparando.

                - Ah, minha nossa... olha só o que eu fiz... – ele disse, claramente preocupado e constrangido.

                - Não se preocupe! – tentei dizer, mas ainda sem conseguir apoiar meu pé no chão com segurança. – Só tenho que chegar até aquela árvore dali.

                - Por favor, me deixe ajudá-la. – ele disse, se apressando em retirar um lenço do bolso e enfaixar delicadamente meu tornozelo. Após, passou meu braço ao redor de seus ombros e pegou, com a outra mão, a cesta que eu, desajeitadamente, tentava equilibrar. – É o mínimo que eu posso fazer.

                Vencida pela sua insistência (e pela dor latejante que envolvia meu tornozelo, esmaga-o em um abraço de ódio), deixei-me conduzir até a copa da árvore que apontei. Com cuidado, ele me ajudou a sentar em uma pedra e colocou minhas coisas ao meu lado. Para minha surpresa, ele se acomodou também, e comentou:

                - Devo admitir que esse é um lugar privilegiado... A vista do parque daqui é incrível.

                - Sim... – disse, juntando-me a ele na observação do cenário à nossa volta. Aquele parque era uma reserva ecológica enorme, afastada do centro da cidade. Incluía várias áreas de floresta nativa, mescladas por áreas de jardim e gramados para piqueniques e encontros de grupos. Ali onde estávamos, particularmente, era o início de uma das trilhas que levava floresta a dentro, e dali conseguíamos ver um gramado que, em um dia ensolarado como aquele, abrigava várias famílias fazendo piquenique, brincando com seus cães ou lançando jogando bola. Perto tinha um lago que concedia uma brisa fresca e agradável para a ocasião. Sorri diante a visão e sensação agradável daquele dia, e comentei: - desde que cheguei a essa cidade ando tendo alguns bloqueios de escrita, e quando descobri esse lugar, comecei a vir até aqui para deixar que as ideias fluíssem melhor...

                - E está dando certo? – ele perguntou, sem tirar os olhos da vista à nossa frente.

                - Nem um pouco... – murmurei, dando um suspiro. – Antes as imagens do que eu deveria escrever surgiam clara e espontaneamente na minha mente, e eu só precisava colocar no papel... Mas ultimamente, tudo que penso parece preso dentro da minha cabeça, e quando tento achar sentido para as poucas ideias que consigo agregar, nada parece... ter lógica... – comentei, deixando minha completa frustração se esvair em uma arfada de decepção. Olhei para ele e, me dando conta do que estava dizendo, me apressei em dizer: - Ah, me desculpe! Você não tem nada a ver com meus problemas bobos, e na verdade nem sei por que estou lhe dizendo isso! Não costumo ser assim, tão...

                - Espontânea? – ele perguntou, sorrindo e olhando para mim, de uma forma tão profunda que simplesmente perdi o que estava dizendo. – Talvez seja isso que esteja bloqueando a sua represa de ideias... a necessidade de controlar o que deveria ser absolutamente livre, como o voo de uma baleia ou o mergulho de uma árvore...

                - Como é que é? – consegui perguntar, achando que, talvez, era ele quem devia ter fugido do hospício.

                - Imaginação, minha cara, imaginação... – ele comentou, voltando seus olhos para a vida ao seu redor. – Que seríamos de nós se não tivéssemos a possibilidade de flutuar em meio aos sonhos, bailar em torno dos desejos, voar nas asas da imaginação e mergulhar no oceano da esperança, em meio à crença de que tudo é possível?

                - Bem, deixemos essa regalia para as crianças, não é mesmo? – comentei. – Seríamos tolos em crer no impossível, já que a vida nos exige respostas e atitudes diante o que é real.

                - Mas aí é que se engana... – disse, com tamanha convicção que seus olhos brilharam e seus lábios de abriram em um grande sorriso, enquanto dizia, qual compartilhando um segredo. – Não são as crianças que creem no impossível, mas os adultos que se esquecem que só se torna possível o que um dia foi sonho. O que há de belo nas crianças não é sua ingenuidade, mas sua esplêndida sabedoria em deixar-se mover e levar junto com a corrente natural da certeza de que a vida há de se desenhar conforme a aquarela disponível. Não há esforço, não há angústia, não há sofrimento, pois que elas conseguem tomar o simples pelo simples, se permitindo sorrir ao suave toque de uma borboleta na ponta do nariz, ou por baixo de uma chuva de verão, que traz um presente multicolorido para seus céus de algodão! E que mal há em acreditar que ao final, um tesouro se esconde por lá? Ou que entre as copas das árvores um mundo absolutamente mágico e único se esconde de nossos olhos distraídos? Porque não vemos, deixa de ter o direito de existir? Será que são elas, as crianças, que enxergam de mais, ou os adultos que passam a ver de menos? Envoltos pelo véu da preocupação, do excesso de cobrança pessoal, da culpa, da vergonha, do medo... Medo de se apoiar em algo simplesmente maravilhoso, mas absolutamente invisível aos olhos: a fé. Medo se embarcar em aventuras cujo final não conseguem prever, ou em estradas cujas encruzilhadas não conseguem controlar. Medo de serem criticados, humilhados, tachados de ridículos ou mesmo loucos por simplesmente ousarem... por simplesmente acreditar. Acreditar que vale a pena se permitir lançar ao desconhecido, bailar na escuridão, voar no infinito. Vale à pena se permitir sujar tomando um delicioso sorvete, sapatear na areia da praia, se perder tentando achar um novo caminho, gargalhar até a barriga começar a doer e sonhar... Sonhar com o que não se pode tocar, e enlaçar-se na esperança de que talvez, somente talvez, a vida possa lhe presentear com a realidade de teus sonhos. Um sonho é um desejo que seu coração faz... Permita que ele pulse, dê piruetas, cambalhotas e boas gargalhadas enquanto traça o destino que você nunca nem imaginou em desenhar. Crer... O que custa, minha cara, acreditar?

                Com os olhos marejados pela intensidade daquelas palavras e talvez com um pouco de inveja de tamanha certeza que aquele desconhecido tinha sobre o que eu considerava contra toda e qualquer espécie de lógica, perguntei:

                - Mas o mundo é regido por uma lógica, e essa lógica nos dá a estabilidade para sermos e estarmos diante a nossa realidade...

                - Lógica... você não está querendo chamar de lógica o controle que pode exercer sobre o que pode tocar e sentir? – ele perguntou, gentilmente, e prosseguiu: - A única razão pela qual o ser humano se mantém agarrado ao real é a sua possibilidade de modifica-lo de acordo com sua limitada visão de mundo. Tudo que não se pode controlar se torna ameaçador, instável e, portanto, relegado ao campo do “ilógico”, do “tolo”, do “imaginário”. Mas vou lhe dizer... Quando a humanidade se permitir guiar pela fé de uma criança, que não exige mas receber de braços abertos a vida, trilhará um caminho mais leve e muito mais feliz. A realidade nasce de mentes pensantes. Oxalá, as mentes criadoras de nossa realidade permitam que suas represas transbordem em plena liberdade, permitindo que baleias voem e árvores mergulhem, pois talvez assim haja liberdade suficiente para que a fé, essa mania impertinente de crer no invisível e no suposto impossível, guie os passos em meio à escuridão do infinito imprevisível, mas absolutamente valoroso.

                Vencida por sua energia cativante, simplesmente sorri, desejando verdadeiramente que, afinal, aquela fosse a verdade de um futuro próximo. Como se lendo meus pensamentos, aquele estranho de olhos de amêndoas simplesmente se levantou dizendo:

                - Essa verdade está mais próxima do que você imagina, minha cara... - E seguiu até um dos grupos de família que ali se encontrava, onde um garoto com cerca de seis anos brincava com seu cachorro.

                Ainda inebriada por suas palavras, me perdi alguns instantes em meio ao que havia escutado. Quando retornei à mim, mirei o lenço ainda enrolado em meu tornozelo e olhei ao redor, procurando-o para devolvê-lo. Avistei o garoto e caminhei até ele, surpreendentemente sem dor e sem esforço algum. Aproximando-me, falei:

                - Olá, tudo bem? – O menino sorriu em resposta, e parou de brincar com o cão, por um instante. - Desculpe incomodar, mas você viu aquele homem que estava conversando comigo?

                O menino assentiu com a cabeça.

                - Então, eu queria devolver uma coisa para ele. Onde ele foi?

                - Ele me disse que estava na hora de ir embora.

                - Ah... – murmurei, algo desapontada. – É seu parente, ou algo assim? Eu gostaria de falar com ele novamente...

                - É meu amigo... Mas não acho que vamos conseguir vê-lo de novo... Ele me disse, quando chegou, que só ia ficar o tempo em que fosse útil, e quando se despedisse, não ia poder mais voltar. Outras pessoas precisariam da ajuda dele, e para que o vissem, eu teria que deixar de vê-lo.

                - Como assim? Ele foi em uma viagem de negócios, ou algo assim?

                - Algo assim... ao menos, acho que se pode considerar isso um emprego... – ele comentou, pensativo.

                - Isso o que?

                - Esse negócio de ser amigo imaginário.

                Silenciei. É óbvio que aquele garoto estava brincando comigo, mas um calafrio que me percorreu o corpo me fez levantar uma pequena mas incômoda dúvida... será?

                - Mas se ele era seu amigo imaginário, como e porque eu o vi?

                - Ele me disse que algumas pessoas só se esquecem, e precisam dele para que acreditem em acreditar, de novo...

                Sorri, e percebi que não precisava de novas perguntas, porque, dentro de mim, eu já sabia a resposta. Olhei para meu tornozelo e não mais vi o lenço enrolado... Olhei ao redor e senti uma brisa fresca me envolver. No céu, eu podia jurar que uma das nuvens se parecia com uma... baleia... voando... Gargalhei, com tanta intensidade que minha barriga doeu. E por fim, virei e voltei para minha árvore. Havia muito, muito o que escrever, afinal.