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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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11/04/2016 às 08h25

“Era louco”

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“Era louco”

E assim resolveram nomear. Não por maldade, obviamente, mas por mero deslize de um, de outro, e de todos, que se esqueceram de um pequeno (mas notável) detalhe característico do ser humano: antes de serem algo, todos são, invariavelmente, alguém.

Mas esse alguém, em particular, não tinha quem se lembrasse de suas travessuras de infância, quem contasse seus grandes feitos da juventude, quem delatasse seus deslizes por amor, quem chorasse junto por seus grandes momentos compartilhados... É claro que ele deve ter vindo de algum lugar e de um outro alguém, visto que todos têm um ninho escondido em alguma esquina da vida, mas por algum motivo esse ovo em especial caiu muito distante de sua origem, perdendo-se em meio à multidão de rostos e nomes.

E assim, lá estava uma caravana de individualidades velando o corpo sem nome que um dia foi alguém, mas que deitado em seu berço de flores se tornou apenas um murmúrio que se repetia vez ou outra... “Era louco”.

Se você está se perguntando o porquê do louco, meu caro, eu realmente não sabia dizer. Para ser bem sincera, estava só de passagem na cidade, quando vi uma multidão se aproximar de uma casa tão pequena quanto a senhora que aguardava na fachada, com uma xícara de café para cada um que adentrava sua singela morada. Como não me foi dado o dom da sensatez, e como bem sabe, meu velho amigo, que não resisto a uma boa (e generosa) xícara de café, me aproximei timidamente, no intuito de receber a oferta da pequena mulher.

A senhora pareceu não se importar com quem eu era e o que estava fazendo ali, mas me entregou a xícara e indicou que eu entrasse. Talvez absorta pelo cheiro delicioso da bebida quente que descia como néctar, e ignorando todo e qualquer senso de educação, adentrei na casa e me deparei com um corpo inerte, envolto por quantas pessoas uma sala menor que um corredor fosse capaz de comportar.

Os grupos se alternavam, permanecendo dentro da casa o tempo suficiente para terminarem sua xícara de café, saindo em seguida e deixando que outras pessoas entrassem. Minha xícara já estava vazia há algum tempo, mas eu simplesmente não conseguia sair dali, magnetizada por essa cena tão peculiar quanto as pessoas que entravam na sala. Eram homens e mulheres, adultos e idosos, senhoras em suas bengalas, jovens com suas máscaras de autoconfiança... Todos entravam com uma xícara de café, bebiam ao lado do corpo, e saiam, em um silêncio que era apenas interrompido com um ou outro sussurro tímido: “Era louco”...

Devo admitir que usei do meu mais alto grau de discrição para não interromper o ato respeitoso e perguntar a alguém o que estava acontecendo, mas não precisei sufocar minha curiosidade por muito tempo... Após a saída do último grupo de pessoas, a senhora entrou na casa. Arrastava vagarosamente seus pés cansados, empurrando seu pequeno corpo encurvado e envolto por um xale tão singelo quanto seu olhar. Parou ao lado do corpo, olhou-o com carinho, e disse:

“Meu querido... Quantos dias e noites você passou vagando em desespero por nossas ruas... Pés descalços, face agredida pelo sol, vestes maltratadas pelo tempo... Quantos risos mal compreendidos, lágrimas que ninguém secou... Lhe tacharam louco, e a loucura passou a ser sua única e melhor companhia. Dia após dia, ninguém compreendia teus murmúrios... Exceto quando vinha até a mim, tomar uma xícara de café. Era só o que me pedia, meu jovem, uma única xícara de café... Todos diziam não ser nada, mas em troca você me concedia tudo... Durante aquela única xícara você olhava para mim e via além de uma senhora que deixou na juventude os sonhos e a vontade de viver. Você escutava minhas memórias, ria das minha peripécias e admirava meus relatos. Se recusava a tocar num passado que só seu coração conhecia, mas a cada dia me dava o mesmo sermão sobre criar novos sonhos a serem alcançados... Sorrir sem motivo, amar mais uma vez, chorar de emoção... Cantar à meia noite para a lua e amanhecer sem planos, para dar uma chance à vida de me surpreender... E após cada xícara de café, eu me via renascida aos olhos de um louco, que eu resolvi chamar de amigo. Por isso, trouxe nossa pequena cidade para tomar uma xícara de café com você, e quem sabe, receber um pouco dessa sua loucura anônima, que trouxe de volta a vida que desaparecia junto com a lembrança que eu existia. Obrigada, meu doce e eterno amigo.”

Com os olhos marejados, a senhora se voltou para mim. Vendo minha xícara vazia, perguntou se eu gostaria de mais um pouco de café. Sem conseguir dar uma só palavra, embargada pelas lágrimas que se recusavam a descer, assenti que sim. E ali passei a noite, tomando café e prosa, descobrindo que às vezes tudo o que uma pessoa precisa é que lembrem que ela é alguém... Alguém que precisa de uma xícara de café, uma dose de atenção e uma pitada de amor.