Colunas

Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

‹ VEJA TODOS OS POSTS
16/06/2019 às 12h25

Além da curva...

Facebook Compartilhar

                E de lá, além da curva que vem de cá, o que pode estar...

                É, meu caro amigo... aqui eu tive que parar. Pode me chamar de covarde, e talvez eu o seja, afinal, já que, assim que desci do trem e recebi a nova brisa desse desconhecido que se pôs a me receber, simplesmente não tive força (ou coragem), para mais um passo dar. Um vazio inexplicavelmente assombroso, formado pelas lembranças do que havia acabado de deixar, como um buraco negro a me puxar para um tempo que não pode mais voltar. E, ao mesmo tempo, algemas invisíveis formadas por correntes de pavor pelo que poderia me aguardar num futuro que eu não conseguia ver, sentir, ou controlar... E uma vez presa nessa lacuna de tempo, onde me fiz prisioneira de mim mesma, simplesmente desci da estação de trem, sentei em uma pedra na beira de estrada, e me pus a chorar.

                Chorei intensa e verdadeiramente, sem constrangimento de mim mesma, sem com o mundo me preocupar. Chorei palavras não ditas, e aquelas que eu poderia ter evitado como arma usar. Chorei abraços não dados, e mãos não estendidas. Chorei agressões camufladas por carinho, e ausências que clamavam piedade de meus braços fechados. Chorei passos não dados por acomodação, e estradas erroneamente trilhadas por uma ignorância aprendida. Chorei perfumes não melhor elogiados, e belezas tão raras que mereciam mais respeito e dedicação. Chorei por orações engasgadas pelo orgulho, e gratidões sufocadas pelo egoísmo. Chorei pelas máscaras que deixei cair pela estrada, e pela face cicatrizada pelo que restou da exposição verdadeira, cruel e tão real, da vida. Deixei que as lágrimas escorressem sem piedade, marcando rosto e alma, regendo a sinfonia formada pelos soluços silenciosos de um grito há tanto sufocado... Chorei e me permiti desmanchar nos orvalhos que pareciam cair e cristalizar, ao meu redor, um oásis de redenção...

                Sim, meu caro... Pois que a cada gota que da minha alma caia, erguia-se uma parte imperfeita, esquálida, deformada, mas tão bela, de mim mesma. Erguia-se, qual metamorfose de belos horrores, a manifestação mais sincera de um eu que nem mesmo eu sabia existir. Pois eis que, para minha surpresa, por detrás da represa de imperfeições sobre as quais eu insistia em me sustentar – com receio da enchente que dali poderia advir – permanecia adormecido um gigante em seu casulo de segurança e conforto. Mas bastou uma discreta rachadura na frágil formação daquela represa para que esse gigante se fizesse vida e realidade.

                Eis que, ironicamente, me desfazendo em pedaços, me refiz em retalhos de experiências e aprendizados, percebendo que a força renasce daquilo que fazemos do que fizeram de nós. Somos o reflexo do que nos permitimos moldar conforme o baile da vida nos convida à valsa de reformas e transmutações. Enquanto nossos conceitos cristalizados e nossas incoerências rochosas são fundidos em vidros e lavas de renovação, nossa alma vai sendo moldada pelas sábias mãos do tempo, pelo sopro paciente da vida, pela força indelével do universo, pelo amor inigualável de Deus.

                E é por isso, afinal, que não temos o direito de parar. O girar do mundo, por entre as paralelas estradas de um infinito que não se pode quantificar, nos fazem constantes manifestações mutáveis e permutáveis de um continum. E eis que precisamos seguir, apesar de, e diante de tudo, já que é no movimento que nos renovamos e nos fazemos ser o que viemos a ser: lagartas em libertação, borboleteando rumo ao arco-íris que não podemos ver, mas que nos aguarda em algum lugar além da curva do rio da vida...

                E é essa curva que vejo daqui, com os olhos ainda marejados, mas em estado de plenitude e... paz. Serena e gratificante... paz.

                A mala de viagem ao meu lado, a brisa de uma primavera que já desponta o nascer de uma vida nova, e o ruflar de folhas da copa de uma árvore que me resguarda, paciente e amorosamente. As correntes são finalmente quebradas, e a força de seguir se torna maior do que o medo de cair. Sorrio para a vida, reverenciando a sua sábia capacidade de aguardar o nosso momento de encontro com a versão mais fragmentada, e ao mesmo tempo, mais completa, de nós mesmos. E, afinal, percebo que para dar voos rasantes, é preciso saltar de nossa caverna íntima rumo ao horizonte que não podemos, em absoluto, controlar. Apenas confiar.

                Ergo-me sem pressa e olho ao redor. Atrás de mim, a estação de trem, com a passagem para o passado. À minha frente não vejo nada, além de uma estrada de terra, que se perdia por detrás de uma curva. Pego minha mala, respiro fundo, e sorrio. Dou um passo, e outro, e mais um... E súbita e inesperadamente estou caminhando rumo ao nada, e ao tudo. Aguarde-me com uma boa e fumegante xícara de café, meu caro, pois eis que eu, em essência e realidade, estou chegando.