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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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19/12/2018 às 16h40

Ed - parte 2

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(Atenção! Este texto é continuação da história iniciada em "Ed - parte 1"! Por isso, sugiro que se aventure por aquele mistério antes de embarcar na continuação dessa aventura! Boa leitura, e até breve!)


               - Ah, não é maravilhoso?!! Eu disse a você que essa viagem valeria à pena, querida! – disse uma titia Gertrudes absolutamente encantada com cada flor do extenso jardim cultivado atrás do hotel onde estávamos. – Você se preocupa à toa, pobrezinha... Assim ficará cheia de rugas, como... Clotilde, do pôquer. – completou, passado as mãos vaidosamente sobre a face docemente semelhante a uma uva passas.

                Sorri discretamente, assentindo com a cabeça. Honestamente eu tinha problemas maiores para resolver naquele momento, do que a incoerente percepção de elasticidade da pele de titia. Após o retorno da energia no hotel, finalmente conseguimos fazer o check in e fomos acomodadas em um aconchegante quarto ao estilo vitoriano, cuja decoração provavelmente havia sido escolhida a dedo. Não era grande, mas estranhamente confortável para uma construção tão antiga, com paredes cobertas por um papel de parede claro e cortinas no estilo floral combinando com cada detalhe. Não havia muito, somente o necessário: duas camas de solteiro (“a da janela é minha! Preciso de ar para o meu reumatismo”, foi logo dizendo titia, me deixando com uma imagem peculiar de suas articulações inalando profundamente o ar fresco da noite), um pequeno armário de madeira antiga, um tapete que cobria quase todo o chão do cômodo e, o que curiosamente me chamou a atenção: uma cômoda na quina do quarto, afastada de todo o resto. Estava tão estranhamente posicionada, alheia ao restante da decoração, que parecia ter sido colocada ali por engano. Me aproximei e percebi pelo desenho entalhado em sua superfície que se tratava de um daqueles móveis feitos à mão, talvez por um artesão local. Havia uma gaveta provavelmente aberta por meio de uma chave, já que no centro uma bela fechadura de cobre aguçava minha curiosidade, mas estava trancada (e extremamente resistente às minhas tentativas infrutíferas de... como posso dizer de uma forma delicada... abrir gentilmente usando toda a força possível... – sim, posso ser muito curiosa mesmo!). Desistindo de arromb... quero dizer, abrir a gaveta, conclui que provavelmente estaria fechada desde os tempos áureos do hotel, há cerca de noventa anos atrás, o que me transferiu minha atenção da gaveta emperrada ao motivo de minha preocupação atual: Ed.

                Ter descoberto que Garibaldi Feliciano havia vindo escondido na mala de titia poderia ter sido o foco de toda a minha indignação (principalmente tendo sentido o ar de satisfação daqueles olhinhos petulantes) se não tivesse me deparado com uma foto datada da inauguração do hotel, há noventa e sete anos atrás, com a imagem indistinguível de Ed, o zelador com quem eu havia travado uma conversação muito peculiar enquanto aguardava o retorno da energia (e da salvação, devo dizer, representada pelo funcionamento do sistema de ar do hotel). Obviamente busquei a explicação mais lógica (sou muito boa nisso), e achei que pudesse ser se pai ou mesmo avó na foto, mas a semelhança era tão marcante que, a não ser que a genética da família fosse insanamente impecável para criar clones, deveria haver uma outra justificativa. E eu tinha que descobrir, já que não consigo manter meu nariz curioso onde não é chamado e isso, meu caro... me cheira a mistério... misturado com algo estranhamente azedo...

                - Ora essa, titia! Que cheiro horrível é esse? – falei, olhando para o que ela tirava da bolsa e cujo cheiro provavelmente mataria todas as flores daquele jardim...

                - Não faça drama, querida! Esse é só o leitinho de cabra com mel e condimentos de Garibaldi... Você me prometeu que iríamos lá mais tarde, e eu não posso deixa-lo sem seu mimo mais apetitoso...

                Eu e minhas grandes ideias! Óbvio que eu não poderia jogar o bendito gato no meio do mato que circundava o hotel, por mais que sua presença ali arriscasse profunda e perigosamente a nossa estadia ali (tendo em vista a placa enorme e ameaçadora dizendo PROIBIDO ANIMAIS DE QUALQUER ESPÉCIE, COR, RAÇA E TAMANHO que se via logo na entrada do hotel...). E sem querer desperdiçar o tempo de viagem (e todo o dinheiro que investi – tudo bem, tudo bem... foi uma promoção fantástica, mas quem está contando?), decidi que a melhor solução seria deixar Garibaldi escondido onde titia o retirara da mala - o quarto abandonado onde eu vira a foto de Ed, ou seja lá quem era aquele –, deixando que ela fosse lá de tempos em tempos ver como ele estava. Deixamos as coisas no quarto e combinamos que daríamos uma volta no jardim e iríamos até ele, antes do passeio ecológico oferecido (gratuitamente – o que? Só estou comentando...) pelo hotel. Mas essa foi, aparentemente, mais uma grande estúpida ideia minha, já que titia resolveu trazer junto consigo o bendito leite de cabra com mel e condimentos do gato, correndo o risco de ser presa por expor a humanidade a um cheiro insuportavelmente terrível e muito provavelmente tóxico (só aquele gato mesmo para gostar disso...).

                Olhei ao redor e percebi, constrangida, que as pessoas começaram a se afastar, lançando olhares reprovadores em nossa direção. Não bastasse a cena que titia já havia feito enquanto esperávamos o retorno da energia, agora estávamos conseguindo destruir o aroma mais incrível que eu já havia presenciado... Inacreditável... Ao longo o mesmo casal de namorados que potencialmente jogaria titia pela janela quando chegamos estava nos encarando, provavelmente articulando um plano silencioso para me distrair enquanto a colocariam no próximo táxi que passasse. Preocupada com sua integridade física, me apressei em pensar em uma solução para retirar aquilo dali.

                - Titia, façamos o seguinte... me dê essa... coisa... que eu levo para Garibaldi e a senhora poderá aproveitar a vista, já que logo vai começar o passeio.

                - Oh, minha querida! Quanta gentileza sua! Meu reumatismo agradece! E no fundo eu sabia que você gosta de Garibaldi tanto quanto eu! Afinal, como não amar aquele doce par de olhos felinos?

                - Hum... claro... só me dê isso aqui rápido, sim? – disse, me apressando em pegar o frasco. – Eu encontro com a senhora aqui em breve, certo?

                - Não se apresse, meu bem! Dê a Garibaldi a atenção e o amor que ele merece!

                Mal escutei o final da frase pois já estava a passos ágeis indo em direção à entrada do hotel, esperando encontrar o mínimo de pessoas possível para compartilhar aquele odor... Ironicamente, pela minha necessidade de chegar depressa o caminho se tornou mais longo, e fiquei me perguntando porque não havia deixando Garibaldi ali... Me pareceu o local mais adequado, pois ninguém o escutaria miar já que o quarto ficava abaixo do térreo. Tinha um basculante decente para ventilação e, o mais importante, estava abandonado. Fiz essa brilhante suposição apenas passando os olhos ao redor do cômodo, muito empoeirado e, mesmo mobiliado de forma a se parecer com um quarto, era tudo muito antigo e não parecia usado há anos, com o tapete se desfazendo no chão. Então, nada melhor do que aquele escondido recinto para esconder um hóspede indesejável.

                Finalmente cheguei ao cômodo e, abrindo a porta com cuidado para evitar uma possível fuga de Garibaldi, quase caí para trás ao me deparar com o que via... O quarto estava absolutamente transformado, em perfeito estado de conservação. A colcha da cama, mesmo antiga, reluzia o brilho do bordado, e até a iluminação era diferente, já que a lâmpada de teto, antes quebrada, estava intacta e demonstrando sua força de luz. Uma música baixa tocava de uma pequena vitrola que estava acima de uma mesa de madeira e, ao seu lado, uma cadeira antiga abrigava Garibaldi Feliciano sendo acariciado por ninguém menos que... Ed.

                - M-mas... C-c-como?... – Balbuciei, sem conseguir equilibrar a lembrança daquele quarto, de apenas algumas horas atrás, à imagem que eu estava vendo.

                - Ah! Veja, pequenino! Temos companhia! – disse Ed, se levantando e deixando um Garibaldi extremamente confortável na cadeira onde estava. Fez a característica reverência com a cartola, e prosseguiu: - Posso ajuda-la em algo?

                - Eu estive aqui mais cedo! Esse quarto não estava assim de jeito nenhum! Eu vi!

                - Você viu o que pensa que viu, ou pensa que viu o que desejou ver?

                - Como é que é?

                - Ora... as pessoas fazem isso com mais frequência do que percebem... Olham para o mundo vendo o que desejam, e acabam enxergando o que querem, e não o que é real. Colorem a paisagem de acordo com suas vontades e nomeiam o desconhecido da forma que desejam. É assim que acabam criando ao seu redor um mundo particular, repleto de eus e meus... eu caracterizo como bom aquilo que me faz sentir bem, e me satisfaço em plenitude com aquilo que posso chamar de meu. Eu sinto alegria ao ver o mar e digo que ele é deslumbrante. Se a noite me faz chorar, digo que ela não é digna de se admirar. Se conquisto os meus sonhos, me digo vitorioso. Se tropeço e me machuco, foi uma terrível falta de sorte... Não me recordo que num momento não muito distante, aquele mar me deu medo, e eu chorei. A noite me trouxe o luar, e eu sorri. Os sonhos não me trouxeram felicidade, e que me senti um perdedor... e a dor do tropeço me fez crescer, e eu agradeci.

“Percebe como criamos a nossa própria realidade, em uma metamorfose de emoções, cores e sabores que determinam o que vemos, como vivemos, e o que somos? Isso que chamamos de hoje, ao que nos agarramos tanto, nada mais é do que o resultado de nossas próprias manifestações ao mundo, naquele recorte de tempo, sendo absolutamente peculiar e único, visto que em questões de instantes pode se modificar, já que nós, em essência, nunca somos os mesmos.

                “Nunca estamos parados, mesmo que nos recusemos a andar, porque o mundo, minha cara, continua girando, independente de nossa vontade. A vida oferece oportunidades para seguirmos junto com a rotação peculiar das experiências que se nos apresentam, mas é nossa a decisão de permitir a translocação de um estado de inércia para uma posição de agentes do nosso próprio destino. Pode ser em formo da dor que ensina, do amor que cura, do sorriso que educa, da lágrima que restitui... Não importa a fantasia que a vida use para se fazer personagem na nossa própria história. O importante é nos fazermos protagonistas, e bailar conforme a harmonia do universo.

                E assim, sendo mestre de nossas próprias cerimônias, não teremos controle do futuro, porque ele, afinal, não nos pertence, mas teremos posse de um presente mais real. Será marcado sim por nossas belas características pessoais, porque a arte sempre traz o perfume do artista, mas será mais sólido e palpável, pois não nos agarraremos a ele, apenas nos deixaremos conduzir. Irônico, não é? Precisamos soltar, para conquistar... deixar ir, para encontrar... ser fluidez, para encontrar nossa própria estrutura interior. Desabrochar, para sermos, enfim, humanidade real, e não humanos esparsos a sonhar.”

                Eu não conseguia tirar os olhos daquele ser esquálido, estranho e ao mesmo tempo fascinante, que parecia falar o que eu nem sabia que faltava na minha alma. Quando ameacei tentar balbuciar alguma coisa, Garibaldi pulou da cadeira, passou por entre as minhas pernas e saiu correndo pela porta do quarto afora, me trazendo à realidade com uma sensação iminente de pânico.

                - Ah, meu Deus!!!! Esse gato não podia ter saído!!!

                - Creio que seja prudente ir atrás dele, não é mesmo, senhorita? Não queremos que Garibaldi se perca na mata ao redor ou pior... que o gerente o veja... – disse Ed, apontando a porta com gentileza.

                - Claro, claro! – e saí correndo pela porta, imaginando as feições de titia se descobrisse que seu precioso gato havia desaparecido. Eu já estava no corredor quando parei de repente, estatelada. Como Ed sabia o nome de Garibaldi? E afinal de contas... o que foi que aconteceu com aquele quarto?

                Contive o impulso de voltar correndo para lá e pedir algumas explicações, sabendo que eu tinha um problema maior para lidar agora: a fuga de Garibaldi Feliciano. Decidida, resolvi que após encontra-lo, iria até Ed e desvendaria de uma vez por todas esse mistério. Seja lá quem ele fosse, uma coisa eu tinha certeza: ele era muito mais do que um zelador de um modesto hotel do vilarejo.