Colunas

Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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18/03/2018 às 23h40

O vôo

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- COMO SE ATREVE?

            - Mas senhora..

            - Não me venha com “mas”! Você não pode me obrigar, e ponto final!

            - Mas as regras da companhia são bem claras...

            - Ora essa! Uma companhia que contrata funcionários mal educados como você não pode querer ser levada a sério! Nós podemos processar todos vocês aqui, está me ouvindo?! Processar a companhia, processar você, processar esse chapeuzinho horripilante que você usa... Não é mesmo? – disse titia Gertrudes, se virando para mim com aquele par de olhos que fervilhavam plena indignação em um rosto tão vermelho quanto sua revolta. Aquele tom rubro, no entanto, só não ganhava da minha própria face, escondida entre minhas mãos, torcendo para que ninguém chamasse a polícia, a guarda nacional ou mesmo o exército para conter uma velhinha que se recusava a entregar a sua bolsa para a aeromoça do avião em que nos encontrávamos.

            - Já não basta o ultraje de colocarem a mim e minha sobrinha em assentos separados e tão distantes nessa máquina absurdamente instável e perigosa! No caso de cairmos no mar, heim?! Quem vai me tirar desse assento terrivelmente apertado, eu lhe pergunto! Eu não sou tão rápida quanto pareço! Respeite a minha artrite, mocinha!

- Senhora... – disse a pobre funcionária, muito provavelmente se perguntando que idiota teria deixado animais raivosos embarcarem no seu turno - Tenho certeza que será um vôo calmo e agradável, se nos permitir inicia-lo me dando sua bolsa para eu coloque no compartimento acim...

- Eu já disse que não vou perder a minha bolsa de vista! Para dar a oportunidade perfeita para que um lunático roube minhas revistas de corte e costura?! Ora, essa! Você acha que eu nasci ontem?

- Com certeza não...

- Como ousa?! Você ouviu isso? – inqueriu titia, me olhando com tanta fúria que por um momento agradeci por sua artrite diminuir sua mobilidade e a capacidade de acertar a aeromoça à sua frente. – Ora, sua...

- Ok, já chega! – disse, já não aguentando mais os olhares de reprovação dos outros passageiros, que passavam da aeromoça para titia, e de titia para mim, culminando com uma provável pergunta: porque elas simplesmente não pegaram um ônibus?

Ah, se arrependimento matasse... Porque sim, eu assumo... A culpa foi toda minha! Eu não imaginava que terminaríamos nessa situação absolutamente constrangedora (e potencialmente perigosa, para a aeromoça, ao menos...) quando recebi a ligação há algumas semanas dizendo que uma grande amiga de titia estava completando noventa e sete anos e ela fazia questão da presença dela na grande festa que estava organizando. Afinal, “não é fácil jogar na cara da morte todo dia uma boa dose de ironia e um balde de decepção!”, como disse a senhorinha aniversariante um tanto quanto sinistra do outro lado da linha.

Titia achou uma ideia formidável, até se lembrar que a tal grande amiga estava morado em outro estado, o que a deixava em um impasse: ir de ônibus e torturar os seus ossos já vítimas da artrite; ou não ir, e deixar de estar presente nesse momento tão único na vida de sua amiga de infância (essa última opção marcada por algumas lágrimas e soluços...). Em minha inocência, sugeri uma opção aparentemente óbvia para jovens que, como eu, “não têm consciência dos perigos de desafiar forças da natureza como fogo e... gravidade”, como titia me disse, ao declinar totalmente minha sugestão.

Vendo, no entanto, seu sofrimento por não poder estar presente na festa, me empenhei durante dias a fio para prova-la que não havia meio de transporte mais seguro que aviões, com suas inúmeras vantagens de lanchinho grátis, ambiente climatizado e profissionais educados e gentis (eu talvez não devesse ter dado tanta ênfase nesse último aspecto...). Enfim... após uma semana inteira de argumentos, chantagens e muita disposição, convenci titia a se aventurar numa viagem de avião...

E aqui estamos nós...

- Veja, titia. Essa simpática moça irá garantir pessoalmente a segurança de sua bolsa! Isso não é fantástico? Ela merece todo o nosso agradecimento, não é mesmo? – disse, puxando a moça à força para um abraço, durante o qual eu sussurrei ao seu ouvido “pegue a bendita da bolsa e guarde num compartimento qualquer lá atrás. Mas por favor, não fale da idade novamente! Não queremos um voo cancelado por morte à bordo...” Saindo do braço, me deparei com uma expressão estática, uma mescla de espanto e medo, mas ela logo se recuperou, sorriu forçosamente e disse:

- C-claro! Cuidarei pessoalmente que seus pertences tenham o cuidado necessário!

- Você tem certeza? Porque...

- É claro, titia! – disse rapidamente, interrompendo-a e imaginando qual suco disponível à bordo a aeromoça iria querer derramar nas revistas de corte e costura de titia, dentro da bolsa. – Pode confiar!

- Hum... acho bom mesmo... – disse, soltando a bolsa demoradamente nas mãos da funcionária. – O absurdo que pagamos de passagem deveria nos dar mesmo o direito a esse tipo de garantia..

- O meu salário que não é o bastante para esse tipo de coisa... – foi murmurando a aeromoça, mas logo sendo cortada por minha entusiasmada e desesperada expressão de:

- Então pronto! – e fui empurrado a moça pelo corredor. – Vamos voar! - E fui até o meu assento, pensando no quanto a viagem de volta seria agradável num ônibus convencional, depois que nossos nomes fossem incluídos na lista de “proibidos de colocarem os pés em qualquer aeronave do território nacional”.

Respirando fundo e agradecendo por sentir o avião iniciar o movimento para a decolagem, sem qualquer indício de que titia estaria tento um colapso no banco há cinco fileiras da minha, comecei a pensar se a aeromoça não-tão-simpática-assim me traria uma xícara de café bem preto quando o avião se estabilizasse no ar e o serviço de bordo iniciasse, quando ouvi uma voz ao meu lado:

- O medo é um tipo de morte que tortura sem matar, não acha?

Olhei para o lado e me deparei com um senhor com cerca de oitenta anos, barbas brancas bem aparadas e um paletó azul claro combinando perfeitamente com seus olhos estranhamente profundos e... serenos. Ele segurava um jornal em uma mão e uma xícara de café fumegante na outra, o qual bebericou sem pressa, e com gosto.

            - Desculpe, como disse? – perguntei, um tanto quanto distraída pelo cheiro divino do café que saia de sua xícara.

            - O medo... – ele repetiu, interrompendo sua degustação. – De todas as formas de morte, creio eu ser o medo a pior delas...

            - Morrer de medo? – perguntei, deixando escapar uma risada sem graça – Imagino que a expressão “morrer de medo” seja realmente uma metáfora, não acha? Não é possível morrer de medo....

            - Ah, como se engana, minha cara! A maioria das pessoas morre de medo todos os dias, e o pior, se matam de medo... Esse mundo está repleto dos que têm medo de falar, e serem criticados por suas opiniões. Medo de sorrir e serem chamados de estúpidos. Medo de arriscar e fracassarem. Medo de chorar e serem vistos como fracos. Medo de cair, e nunca mais conseguirem se levantar. Medo de amar e se ferirem tão profundamente que não possam mais se curarem. Medo da dor, pois não desejam sofrer. Medo da saúde, porque ela implica ação, e às vezes a única coisa que se deseja é não fazer absolutamente nada... Medo de tentar, para não se comprometerem. Medo de perder, pois o que foi pode nunca mais voltar...

            Olhou para a direção do assento de titia, e completou, com um sorriso de tristeza:

- Medo de voar, medo de soltar, ou medo de, simplesmente, se deparar com o desconhecido que não se pode controlar. Medo, medo, medo... As pessoas vivem cercadas de medos, se cercam com medo de viver, e temem não viver o bastante para superar tantos medos.

            “E dessa forma, se matam diariamente... Ficam no silêncio, matando as oportunidades de mudarem vidas, de impactarem o mundo com seus pensamentos e suas visões. Escolhem o rancor e a tristeza, matando o sopro de leveza que invade aqueles que se permitem ser, superado cada “se” e “apesar de”. Escolhem a inércia, matando o ímpeto de buscar cada dia um pouco mais, e mais, e mais um pouco. Permanecem angustiados, com represas íntimas a transbordar, matando a oportunidade de limpas as veredas da alma por meio do aconchego, do consolo ou do silêncio amigo. Ficam estagnados... Se isolam... Buscam a dor, ou afastam a saúde... Não arriscam. Não amam. Matam, diariamente, cada manifestação da existência que lhe convida a embarcar nessa aventura incerta, maluca, possivelmente  perigosa, mas absolutamente valorosa, que é viver.

            “Assim, vivem uma tortura diária, que é temer, matando-se gradualmente ao fecharem-se em si próprios, com medo demais para olharem até para o que pulsa dentro de suas mentes. E seguem, até que um dia o medo se torna tão grande que os enterra em sus próprios túmulos consciências.”

            Olhei para aqueles profundos olhos azuis sem conseguir expressar uma palavra que fosse, inebriada por um silêncio que estava dizendo tanto... principalmente aos meus próprios medos... Consegui, por fim, com lágrimas que não soube justificar de onde vinham, perguntar:

            - E como fazer para que esse medo vá embora?

            - Ah, minha cara... – disse, bebericando novamente seu café. – Quando o medo chegar, basta lembrar que ele não passa de uma porta que lhe mantém trancada em si mesma, separando-a de um outro lado que lhe reserva o mais valioso presente da vida...

            - O que é?

            - A liberdade de ser, em profundidade, você.

            Após aquela frase fui, inexplicavelmente, fechando meus olhos, mergulhando naquele mar profundo que me fitava, sorrindo.

            Quando acordei a aeromoça estava realizando o serviço de bordo, oferecendo lanches e bebidas aos passageiros. Ela olhou para mim e disse sorrindo:

            - Sua tia está tendo um excelente vôo! Desde a decolagem conversa com a senhora ao seu lado sobre as indecorosas vestimentas dos jovens de hoje em dia, e já me chamou para agradecer os cuidados com sua bolsa. Tudo ficou bem, afinal!

            Sorri em resposta, ainda um pouco sonolenta, quando olhei para o lado e vi... ninguém. Não havia ninguém sentado no assento ao meu lado. Perguntei à aeromoça:

            - O senhor que está sentado aqui comigo. Foi ao banheiro?

            - Desculpe, mas não há ninguém nesse assento. Ele está vago desde o início do voo.

            - Mas isso é impossível! Eu estava conversando com um senhor de blusa azul, que tomava um café durante a decolagem e...

            - Isso não seria possível, senhora, pois só começamos a servir as bebidas agora. Aliás, a senhora gostaria de uma xícara de café? Parece estar precisando...

            Concordei com a cabeça, sem entender bem o que havia acontecido. Olhei novamente para o banco ao meu lado e vi, no encosto, o jornal que ele segurava. Peguei e abri, me deparando com o seguinte:

            “E a chave da porta? Bem... Essa você tem que encontrar... Sugiro que comece procurando no canto mais escondido de sua alma, onde você não arrisca chegar. Onde você encontra sonhos caídos, sorrisos não desenhados, sussurros não declamados, mas no canto, bem no canto, uma dose pequena, mas suficiente, de força para recomeçar.”