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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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10/02/2018 às 13h20

É preto... e velho

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“É preto... e velho.”

            Titia revirou os olhos à minha vigésima primeira reclamação do dia. Já estava perdendo a paciência, mas em minha defesa, não era eu quem havia tido a brilhante ideia de ir a uma excursão para assistir às “maravilhosas e raras espécimes de gansos do bico verde que surgiram em nossa adorável reserva de proteção ambiental”, como disse (e repetiu, não apenas uma vez...) a pitoresca guia da exposição, cuja vozinha fina e sorriso forçadamente congelado em seu rosto a tornaram mais um ponto de minha lista de comentários sutilmente irônicos (talvez não tão sutis assim, já que titia parecia querer me engolir viva caso eu ousasse reclamar de algo mais... Nunca duvide de titia...). A questão era que: um, aquele parque no meio da mata que circunda a cidade estava longe de ser uma reserva de proteção ambiental, tendo apenas pernilongos e seres rastejantes para protagonizar as lendas que envolviam o lago central da “reserva”, e que agora virara alvo dos holofotes por conter quinze maravilhosas e raras espécimes de gansos do bico verde (que muito provavelmente se perderam no meio do caminho em busca da extensa plantação de batatas da cidade vizinha); e dois (e mais importante): eu tenho pavor de aves.

            Por favor, entenda bem: não é como um receio de ser assaltado numa cidade grande, ou medo de adoecer num dia frio e chuvoso. É pavor, absoluto e completo estado de pânico quando me encontro diante a esses perigosos e traiçoeiros vertebrados botadores de ovos, coberto de penas e com um par de asas ameaçador o suficiente para nos atacar quando menos estamos esperando...  Tudo bem, eu sei que parece exagero... Mas é exatamente como me sinto quando estou frente a frente qualquer (repito, qualquer...) tipo de ave (já passei alguns vexames com pombas e rolinhas na rua... Mas não falemos sobre isso...).

            Portanto, eu tinha todos os motivos do mundo para estar contrariada. Eu só havia aceitado acompanhar titia porque, já disse em outras ocasiões, simplesmente não sei dizer não àquele par de grandes olhos pidões e melodramáticos, que sempre vêm junto da famosa frase de titia Gertrudes: eu já pedi alguma coisa a você, minha querida? Sim, titia... Inúmeras... Mas em nome desse meu amor imensurável a titia (e da minha incapacidade de dizer não), lá estava eu, caminhando no meio da “reserva de proteção ambiental”, vulgo “mata”, em direção ao local onde estavam os tão esperados (por todos, exceto eu) gansos.

            Para aliviar a tensão, resolvi tomar um gole de café de uma garrafa térmica que titia havia trazido (como parte do processo de chantagem para me convencer a acompanha-la). Porém, não posso dizer que minha adorável titia Gertrudes domine a arte de degustar essa bebida dos deuses, e por isso não se preocupou com o fato de que aquele líquido preto que ela chamou de café estava naquela garrafa há dois dias... estando, portanto, velho.

            Escondendo a careta que fiz quando aquela bebida desceu fria e impalatável garganta abaixo, dei uma olhada em volta, em busca de uma lata de lixo onde pudesse jogar fora o copinho (e de preferência, o café todo) que acabara de usar. Ao longe vi o que parecia ser uma cesta acoplada a uma das árvores, na direção contrária à que seguia o grupo de cerca de vinte pessoas que participava da excursão conosco. Apressei o passo para chegar até a lixeira, sem perder o grupo de vista (e correr o risco de me perder naquela mata, à mercê de não sei que tipo de aves... Deus me livre!).

            Ao alcançar a árvore da cesta, no entanto, percebi que ela, na verdade, escondia uma clareira, espaço aberto circundado por outras árvores como ela. Os tímidos raios de sol daquele dia nublado alcançavam aquela área de uma forma esparsa, marcando penumbras e clareando um único galho grosso e bem ressecado, que em alguma época do passado, possivelmente fizera parte de umas daquelas enormes árvores que circundavam aquele espaço. A cena em si chamava a atenção de uma forma muito peculiar. As folhas das árvores daquela área não acompanhavam o farfalhar que o vento provocava no restante da mata, e o silêncio... Aquele silêncio pesado, preenchido por alguma coisa quase... palpável. Eu podia respirar aquele silêncio, como se meus pulmões fossem preenchidos por uma espécie de substância densa o suficiente para ser sentida, mas leve o bastante para encantar os meus sentidos e me fazer experenciar uma sensação de completa e absoluta... plenitude.

            Quase que impulsivamente fechei os meus olhos e dei um passo em direção à clareira, caminhando, sem pressa, e sem direção, em meio àquela sensação quase que hipnotizadora... Quando parei e abri os olhos, estava exatamente no centro daquele espaço, diante do galho caído, encima do qual estava sentado, com as pernas cruzadas, um homem. Era preto... e velho.

            Ele tinha o rosto marcado por tantas rugas que era quase impossível distinguir os detalhes de sua face. Vestia uma roupa gasta, mas extremamente limpa, e usava um chapéu de pano, remendado, cuja barra cobria seus olhos, já que estava com a cabeça virada para baixo, olhando uma pomba que, entre suas mãos enrugadas, piava de dor por uma evidente asa quebrada. O pavor foi começando a surgir dentro de mim...

            Olhei para trás, assustada, e mirei a distância que havia caminhado, me perguntando como não havia enxergado esse senhor do ponto onde eu estava. Foi quando sua voz me fez voltar o olhar para sua figura peculiar:

            - Shhh... – disse ele, acariciando as penas da pomba com carinho e cuidado – o sofrimento é passageiro, minha amiga... A dor não está na ferida, mas naquele que foi ferido... a dor é prisioneira daquele que sofre, e deixa de existir quando o sofredor liberta o sofrimento da prisão que ele mesmo criou.

“O sofrimento, minha amiga, não passa de uma das várias formas de recebermos os presentes que a vida nos oferece. Somos ainda crianças em aprendizado diário no educandário da vida, mas insistimos em caminhar como doutores de nossas próprias leis. Vivemos escolhendo caminhos às cegas, ignorando as portas estreitas e tentando saltar abismos que surgem à nossa frente, sem perceber que do outro lado, onde achamos que há uma outra planície para continuar a seguir, na verdade só se encontra o vazio. E como toda causa tem um efeito, a consequência mais óbvia de nossas insistências em avançar sem ainda estarmos preparados, é receber lições que a vida nos oferece, que nada mais são do que oportunidades de nos tornarmos mais fortes, a ponto de aguentar caminhar com os nossos próprios pés, saindo da infância íntima e alcançando a maturidade moral.

“Essas oportunidades nos alcançam das mais diversas formas... Encaramos como derrotas, decepções, perdas, dor... Achamos que estamos sendo castigados, pois sentimos a ferida dilacerar tanto a nossa alma que só haveria sentido de punição para tamanha angústia. Passamos a cultivar um sentimento de revolta, clamando a altos brados o quanto não merecemos aquele mal, reavivando feridas e atrasando sua cicatrização; ou nos fechamos em um casulo de infelicidade absoluta, chorando o quanto somos vítimas de desastres gratuitos, criando novas e viciosas injúrias da alma. E a cada clamor de revolta, e cada lágrima de desânimo, vamos erguendo ao nosso redor barras de uma prisão onde permanecemos cultivando o que resolvemos intitular como sofrimento.

“Ah, se enxergássemos essas ocorrências da vida como degraus, e não como ladeiras... Se percebêssemos o quanto somos privilegiados por receber essas oportunidades que, mesmo aparentemente contrárias as nossas vontades, sempre se constituem como uma chance que a vida nos oferece para vencer provas, conquistar vitórias, e superar desafios. Mesmo aparentemente contrárias à nossa percepção infantil do que é felicidade, do que merecemos, do que deveria acontecer em nossas vidas, essas oportunidades, quando recebidas com garra, são a nossa chave para a liberdade plena e absoluta do que chamávamos sofrimento, e não passava de imaturidade.

“Dessa forma, as feridas se tornam passageiras, as cicatrizes se transformam em aprendizados, as lágrimas viram orações... Orações de agradecimento porque cada instante de uma suposta dor serviu para que surgisse uma nova fibra de força. Força de vontade, força para lutar, força para vencer. Orações de agradecimento porque fomos capazes de aprender com a queda, reerguer com dignidade, e recomeçar a caminhar, na certeza de que alcançamos um degrau a mais de nossa própria renovação. Ainda vamos cair, e muitas vezes... mas a cada queda a dor é menor... a cada reerguida a força é maior... a cada passo, o doce sabor da vitória é mais próximo.”

Nesse instante, a pomba piou diferente, e ele, sorrindo, disse:

“Ah, pode acreditar no que lhe digo... Entre tantas quedas e jornadas, sou velho preto dessas tantas alvoradas.”

E nesse instante a pomba soltou mais um pio e, batendo suas duas asas perfeitamente saudáveis, voou para fora da clareira.

Segui seu movimento com os olhos e terminei por descer o olhar na direção da entrada da clareira, por onde eu havia entrado. Lá se encontrava uma titia Gertrudes aos prantos, uma guia turística extremamente brava, e dezoito pessoas absolutamente impacientes.

Titia correu ao meu encontro, gritando:

- Por onde você se meteu, menina? Pelo amor de Deus! Pensávamos que havia se perdido no meio dessa mata toda! Você quase me mata do coração!

- Eu estava aqui vendo esse senhor e... – fui dizendo, e me virei para apontar para o homem. Mas ele não estava mais lá.

Olhei ao redor, procurando algum sinal dele, mesm porque a única saída era por onde eu havia entrado, e onde agora estava todo o grupo à minha espera. Mas nada...

Escutei um barulho acima de mim, e olhei. Lá estava a pomba voando sobre nossas cabeças. Ela foi desceu vagarosamente... estranhamente, eu estendi minhas mãos, e ela ali pousou.

Acariciando suas penas, eu sorri.

Era preto... era velho. E real.