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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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03/12/2017 às 21h40

Acasos

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“T... T... Ta... Tas... Ou será Taws?.. Talvez Tasw? Não... Não é isso... Como era mesmo o nome?!...”

Eu murmurava, agachada rente ao chão, corajosamente recepcionando em meus pulmões uma assembleia de ácaros e poeira de um carpete possivelmente adquirido na virada do século, fortemente sujeita a ser tachada de louca caso não estivesse em um sebo, procurando um livro que titia Gertrudes havia “discretamente” sugerido que gostaria de ganhar em seu aniversário de “não ouse sequer tentar adivinha quantos” anos. Já fazia uma semana que ela vinha dizendo, repetindo e comentando (“aleatoriamente”, incontáveis vezes ao dia) o quanto gostaria de ler novamente uma obra que marcara sua juventude, sobre um romance proibido entre uma donzela e um cacheiro viajante... Não sei bem a validade de reler a história, já que ela foi capaz de me contar (com detalhes, e quantos detalhes!) a narração em cada instante em que ressaltava minha “incrível capacidade de usar essa tal de internet para encontrar tudo, e quem sabe até livros antigos, para comprar”. E foi o que eu fiz (não me julguem. É difícil, eu diria impossível, dizer não à titia).

Acontece que foi bem mais difícil do que eu imaginei. A tal obra estava esgotada, e não era mais distribuída pela editora original. Alguns dias de busca me levaram a apenas dois exemplares restantes. Um sendo oferecido por um sujeito nada digno de confiança (cuja foto no perfil de vendas online mostrava um desenho de um coelho segurando uma sacola, fugindo de um carro de policiais – ora, por favor, né?!), e outro sendo anunciado num site de um sebo local. Nem preciso dizer qual foi a minha escolha...

A questão é que mesmo com a ajuda da simpática atendente do tal sebo, já fazia cerca de uma hora que eu estava procurando o bendito livro, porque eu só me lembrava do título da obra, e não do nome da autora. E como os registros (centenários) da loja eram organizados por ordem alfabética do nome dos autores (e o precário site também só continha o título do livro – inconveniente, não?), eu precisaria olhar capa por capa, torcendo para o encontrar antes de chegar à idade “que nunca deve ser revelada” de titia.

E lá estava eu, olhando a seção de letra “T” (por uma vaga lembrança de um nome que titia talvez pudesse ter comentado, enquanto falava do livro), desejando ardentemente um café expresso bem forte, concentrada em puxar cada exemplar da antepenúltima prateleira da estante, quando me deparei com um olho negro me observando no espaço deixado pelo livro que acabara de puxar.

- MISERICÓRDIA! – gritei, dando um impulso para trás e deixando o livro cair da minha mão, junto com minha dignidade já que, na posição agachada que eu estava, só me restou cair sentada no chão.

O olho se moveu para o lado e desapareceu, voltando a reaparecer no corredor onde eu estava, junto com o seu par, em um rosto enrugado de uma cabeça pequena, parte de um corpo também pequenino, cuja altura realmente não ultrapassava a antepenúltima prateleira da estante. A dona desse corpo peculiar expressava um sorriso banguela, mas extremamente simpático, ao mesmo tempo em que estendia sua mãozinha e falava:

- Minha nossa! Desculpe por assustá-la desse jeito! Deixe-me ajudá-la a se levantar!

Sorri em resposta à oferta, mas apressei-me em levantar por conta própria, com receio de que ela caísse junto comigo caso tentasse sustentar-me peso naquele corpo tão miúdo e singelo.

- Não se preocupe. – falei, limpando a poeira de minha roupa. – Eu me desequilibrei...

- E não era para menos, com o susto que lhe dei! Hihihi! – sua risada fina ressoou no meio dos livros. – Eu estava olhando algumas opções ali do outro lado, e como pode ver, minha altura limita um pouco os livros que posso alcançar. Hihihi!

Lancei um olhar constrangido para ela porque, de pé, ela tinha que inclinar o pescoço para conseguir me olhar nos olhos. Apressei em dizer:

- Caso a senhora queira, posso pegar algum livro que precise nessas prateleiras mais... hum... distantes...

- Ah, você é muito gentil, muito gentil mesmo! Mas obrigada! Costumo dizer que tudo que precisa chegar até nós costuma arranjar um jeito de nos alcançar. Não há nada muito longe, que não se torne próximo; nem algo muito alto que não se torne... da minha altura! Hihihi! – e virando-se, pegou o livro que eu havia deixado cair no chão, e o estendeu para mim. – Veja! Como esse danadinho aqui! Deu um jeito de chegar até você, mesmo estando tão escondido nessas prateleiras aqui em baixo!

Eu peguei a obra e li o título. Não era o livro de titia.

- Ah... mas esse não é o livro que estou procurando. – disse, distraída, buscando novamente seu lugar na estante.

- Tem certeza? Pode não ser o que esteja procurando, mas o que precisava encontrar.

- Desculpe... o que disse? – me virei novamente, para observá-la.

- Ah, minha querida... as nossas vidas não passam de estradas aleatórias construídas com tijolos que nós nem ao menos sabemos de ondem vêm. Nossa existência vai sendo construída a cada dia, movida por um sentido que nós nem ao menos sabemos explicar. Todos os acontecimentos que achamos que controlamos e determinamos não passam de eventos que obedecem a uma lei muito maior do que os nossos pequenos desejos, do que as nossas ridículas vontades, do que a nossa infantil ideia de que somos senhores de nosso próprio mundo. Como poderíamos ser senhores de nosso reino existencial, quando ainda nos comportamos como crianças, tomando decisões erradas, fazendo birra quando temos de viver as consequências das nossas próprias escolhas, e criando fantasias à nossa vontade, preferindo viver num mundo de ilusões do que encarar a realidade e as responsabilidades que ela traz.

“Como podemos nos dizer donos da nossa jornada, quando não temos maturidade para assumir o nosso “sim” e o nosso “não”. Vivemos de aparências, temendo o olhar de um outro, tão distante, mas tão presente em nosso medo de rejeição. Vivemos sem reconhecer que as nossas ações de hoje afetam a vida de quem nos rodeia, e que da mesma forma que podemos curar com uma palavra, podemos matar com um silêncio. Vivemos sem perceber que cada reação é gerada por uma ação, originada de um pensamento que se tornou real, e que por isso deveríamos rever nossa consciência, e não somente nossas atitudes. Vivemos sem compreender o valor inestimável dos sentimentos, e não somente das emoções. Emoção é imatura, sentimento é concreto. Emoção é aprendiz, sentimento é mestre. Emoção é passageira, sentimento é eterno.

“Como podemos dizer que controlamos o destino desse veleiro que segue pelo oceanos da existência, se ainda estamos aprendendo a velejar? Se ainda confundimos os ponteiros dessa bússola íntima que sussurra o caminho, mas que tantas vezes é ignorada pela nossa prepotência em determinar a direção? E em quantos abismos já nos perdemos pela insistência em assumir esse leme... Quantas vezes já não nos perdemos no deserto, achando que as pegadas na areia eram nossas, quando na verdade eram de quem já trilhou a sua solidão e se encontrou em si mesmo.

“É por isso, minha querida, que as nossas vidas não passam de estradas aleatórias construídas com tijolos que nós nem ao menos sabemos de ondem vêm, mas que sempre surgem, quando nos dispomos a compreender. Compreender que ainda somos a infância de uma humanidade que vem crescendo, gradualmente, e que, portanto, não pode se achar no controle de caminhos que não conhece, ainda. Não pode se achar no controle de verdades que não compreende, e de destinos que não sabe para onde levam. Mas pode, com toda certeza, se entregar aos caminhos que vão se construindo naturalmente, quando se confia. Pode se entregar às verdades que se revelam, quando a busca pela compreensão é executada com a simplicidade de quem nada sabe. Pode se entregar aos destinos que se concretizam, quando fé numa sabedoria maior supera a prepotência que cega, e o medo que paralisa. 

“Ao nos entregarmos a essa força invisível, passamos a escutar o silêncio e receber as indiretas da vida, utilizando todo o “acaso” que nos acontece como guia e direção para as nossas vidas, pois sabemos que nada acontece por acaso. Existe um sentido para tudo. Ele pode não ser estabelecido por nossas mãos de criança, mas com certeza é desenhado por uma mão muito mais sábia, justa e bondosa do que jamais poderíamos ser. Não se trata de nos perdermos na causalidade. Mas de nos encontrarmos no verdadeiro senhor de nossos destinos.”

Estarrecida e sem palavras, eu a observava com o livro ainda em minhas mãos, quando me virei ao ouvir uma voz atrás de mim:

- Encontrei! Encontrei o livro de sua tia, senhora! – era a atendente do sebo.

Voltando-me novamente para a pequena senhora, já não mais a vi. Procurei nos outros corredores, atrás das estantes, na frente da loja. Nada. Voltei para dentro do estabelecimento, ainda com o livro na mão, intrigada. Falei com a atendente:

- Bem, vou levar este da minha tia, e esse aqui também.

Ela pegou o livro, digitou algo no computador, e disse:

- Desculpe, mas essa obra não se encontra em nossos registros.

- Como não? Estava naquela prateleira lá de trás...

- É muito comum, na verdade, encontrarmos alguns desses exemplares assim... São pessoas que vêm ao sebo, deixam os livros aqui como doação e acabamos por não registrar, por não ser de grande relevância. Pode ficar com ele, se quiser. Não fará diferença. – e me devolveu.

Olhei novamente para o livro, intrigada. Abri a contra capa, e me deparei com uma dedicatória, escrita com uma caligrafia antiga, mas muito bonita (que estranhamente lembrava um rostinho enrugado, com um singelo sorriso), que dizia:

“Para você. Que encontre significado no que não há explicação, respostas no que não há perguntas, razão no que não há motivos, e sentido no que eles chamam acaso, e nós escolhemos denominar: fé.”