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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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11/08/2017 às 09h00

Vamos hoje falar sobre amor... e panquecas!

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“Vamos hoje falar sobre amor... e panquecas!”.

            Aquilo não poderia ter ficado pior... Não que eu não gostasse de panquecas, o que na verdade era um acompanhamento perfeito para um saboroso café expresso italiano caramelizado, mas naquele momento a última coisa que eu precisava era de um programa de culinária passando em um televisor posicionado no único ponto da sala de espera onde o aquecedor central do hospital não exercia a sua boa ação para com meus dedos frios e quase congelados...

            Eu sabia que aquela visita à minha tia-avó por parte de pai não sairia impune às ironias que rondam minha pequena (e singular) família... Nada contra minha querida titia Ofelha, que por um caso faz panquecas melhores que as oferecidas pelo mestre cuca do programa “Amor, o tempero especial”, mas a sua capacidade de encontrar distrações nos lugares mais impróprios levava seus familiares mais próximos a situações constrangedoras. E eu, por um acaso próxima o suficiente da casa onde ela mora, acabei por ser fisgada em mais uma de suas peripécias.

            Acontece que titia, ultimamente, se tornou uma paciente assídua do hospital da cidade onde mora. Não que tenha algo a ver com o novo médico que assumiu a chefia da singela instituição, e que lhe leva a vários locais do mundo por meio de suas longas e maravilhosas histórias sobre as inúmeras viagens que fez nos últimos anos com sua (falecida) esposa. O fato é que desde então titia Ofelha tem apresentado dores peculiares ao longo de todo o seu corpo, e hoje, em particular, foi a vez do cantinho mais profundo de seu dedo mindinho do pé esquerdo lhe levar às pressas, em plena madrugada, para o hospital. E eu, como estava pernoitando em sua casa, obviamente fui junto.

            E assim, lá estava eu... Tentando compreender os segredos da massa leve de uma boa panqueca, enquanto ela recebia seu atendimento. Admitindo minha incapacidade de reproduzir a receita que o metre cuca tão animadamente repetia para os desavisados que, como eu, não tinham papel e caneta por perto, resolvi levantar e procurar uma máquina de café.

            Levantei com certa dificuldade, deixando que as gotículas de gelo se desprendessem das minhas articulações (tudo bem, não estava tão frio assim...) e segui por um corredor à minha direita. Andei despretensiosamente, aproveitando a caminhada para me aquecer, observando as portas fechadas dos quartos que resguardavam convalescentes e seus acompanhantes. Segui até o final do corredor, e percebendo não haver máquina de café por ali, estava prestes a voltar por onde havia vindo quando ouvi uma voz vindo de dentro do último quarto.

            Percebi que a porta estava semi-aberta e, movida por minha tão famosa indiscrição, olhei por entre a fresta para dentro do quarto. Me deparei com uma senhora próximo dos seus oitenta anos, pequenina, ligeiramente encurvada. Cabelos alvos e em pequena quantidade, apenas o suficiente para envolver a face enrugada pelo tempo. Estava sentada, com um xale cobrindo seu dorso, ao lado de uma cama onde repousava um senhor também de idade, cujas faces pálidas revelavam seus olhos cerrados e sua respiração fina, mas constante. A senhora olhava para ele de forma terna, e com as mãos sobrepostas em seu braço imóvel, dizia:

            “... não é mesmo, meu querido? Ah, meu bem! Só queria lhe agradecer por não ter desistido de caminhar ao meu lado, mesmo diante todos os desafios pelos quais passamos. Por ter se transformado em rocha quando eu precisava de um porto seguro, e por ter chorado ao meu lado, para que eu não me esquecesse de que és tão humano quanto eu. Por ter me erguido quando eu me estendi ao chão com feridas abertas, e por ter me pedido colo, me lembrando que teus passos são tão aprendizes quanto os meus. Por ter me mostrado o caminho nas inúmeras vezes em que o desespero me cegou, e por ter me feito farol, mostrando que minha tímida luz era importante para você. Por ter sido amigo, confidente, pai, irmão, companheiro, e por ter me apresentando o sentido de amar e ser amada da forma mais sublime e real que poderia existir.”

            E dizendo isso, a senhora adormeceu, de uma forma incrivelmente suave para alguém que provavelmente estava muito mal acomodada numa cadeira de hospital. Não sei quanto tempo permaneci ali, mas foi o suficiente para que uma enfermeira se aproximasse dizendo que estava à minha procura, pois titia já havia terminado o atendimento. Tendo percebido o que eu observava, a enfermeira falou:

            “Bonito casal, não? O homem foi internado aqui há alguns anos, vítima de uma grave doença degenerativa, e desde então vem definhando com o tempo. Progressivamente foi perdendo os movimentos, a capacidade de fala, e o hoje passa os dias na cama. A esposa passou a viver aqui. Faz questão de realizar os cuidados pessoais dele, e conversa constantemente com ele. Há algum tempo, enquanto ele ainda falava, ele despertou gritando, angustiado, e só se acalmou depois que ela sentou ao seu lado e conversou com ele. Desde então, todos os dias, nesse mesmo horário, ela acorda, mesmo exausta, e fala como se ele estivesse ouvindo e respondendo, num diálogo secreto com ele. Desde então ele estabilizou bastante o quadro que, apesar de continuar a deteriorar suas funções, não continua na velocidade que seria esperado.”

            Eu lancei um último olhar ao casal que, adormecido, parecia sorrir, como que se, secretamente, estivessem se encontrando em um lugar que era só deles, em algum recanto de seus sonhos. Me virei e segui a enfermeira de volta à sala de espera, onde titia Ofelha me aguardava pronta para compartilhar a viagem à pirâmides Egito que o médico havia feito há alguns meses.

            Aquela imagem ficou marcada em minha mente e, no dia seguinte, depois de um café da manhã reforçado com as famosas panquecas de titia, voltei ao hospital para perguntar sobre o casal da noite anterior. Quando cheguei, me deparei com a mesma enfermeira que, com os olhos marejados, me falou entre soluços...

            “Ela se foi...”

            Eu a corrigi: ele se foi... Ela repetiu, me encarando:

            “Ela se foi... Hoje de manhã encontramos na mesma posição, já morta.”

            Estarrecida, observei a enfermeira se afastar, e fiquei olhando para o corredor que seguia para o quarto onde ontem eu havia visto tanta pureza em forma de palavras. Caminhei lentamente e, em frente ao quarto, girei a maçaneta e abri a porta.

            O homem permanecia com sua respiração fina e, ao seu lado, a cadeira agora abrigava o xale da velha senhora. Me aproximei e como que num impulso toquei no tecido, antigo e tão presente quanto o corpo que ali se encontrava abrigando uma mente que pulsava, à espera de alguém que havia partido.

            Me preparando para sair do quarto, vi que entre a fresta da cadeira se encontrava um pequeno pedaço de papel. Me abaixando para pegá-lo, percebi que se tratava de um recado, endereçado ao homem, datado do dia anterior. Com os olhos repletos de lágrimas, sussurrei o que estava escrito:

            “E depois, quando nossos olhos estiverem fechados, sem conseguir amanhecer para o mundo, despertaremos para um misterioso infinito, e eu buscarei entre tantos olhares o teu, como da primeira vez que te vi. E eu te amarei novamente e mais uma vez, porque quando eu disse que era para sempre, eu quis dizer que sempre foi, e sempre será, você, meu grande e único amor.”