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Ana Cecília Novaes

Mineira adotada por uma Grande Campina. Viajante de estradas ecleticamente delineadas por seus inconscientes errantes, essa poeta torta de sussurros afônicos não almeja nada mais que fazer ressoar entre as alvoradas gotas de um orvalho que escorre da face do invisível para seu próprio coração de criança, criando, se não for muita ousadia, âncoras onde ela (e quem sabe, nós) possa encontrar seu porto seguro.

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23/01/2017 às 17h55

Era meia-noite...

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Era meia-noite.

            Poderia ser meio dia, ou mesmo nove horas da manhã... Mas como, evidentemente, isso seria normal demais para o gosto peculiar e irônico do um destino, era meia-noite, e eu estava parada diante um casebre que daria inveja aos contos nebulosos e obscuros que assombram as noites de pessoas decentes e honestas como eu. Tudo bem... Talvez eu esteja exagerando um pouco, e a casinha isolada no final da rua de titia não fosse lá essa peça de terror que eu estou dizendo... Mas acho que tenho todo o direito de descrevê-la como eu bem queira. Afinal, era meia-noite, estava fazendo um frio de tremer os queixos, e os meus queixos, particularmente, estavam tilintando junto com cada parte do meu corpo que estava em pé, parado, observando a construção à minha frente.

            Não sou uma perseguidora maluca que fica de tocaia na casa dos outros, se é o que está pensando... E muito provavelmente a própria insanidade resolveu se recolher em seu aquecido recanto particular, com uma boa xícara de café fumegante, rindo da minha incapacidade de dizer não à titia Gertrudes. Acontece que não é difícil ceder àqueles grandes olhos vividos, em meio àquela carinha enrugada e absolutamente inconsolável pelo súbito desaparecimento de Garibaldi Feliciano. Se fosse por vontade de titia, teríamos chamado a polícia, os bombeiros, a guarda nacional... Mas ambas sabíamos que nenhum oficial ficaria muito agradecido ao ser acordado no meio da noite para sair em busca do doce, adorável, fiel, companheiro e confidente Garibaldi Feliciano, por mais atraente que fosse seu olhar felino curiosamente cinza e magenta. Talvez eu tenha esquecido de mencionar... Garibaldi Feliciano é um gato.

            Não um gato qualquer, diria titia, mas um gato que me fez sair de casa a meia-noite, com uma lanterna velha e um roupão surrado, já que os murmúrios de preocupação de titia não me deixavam dormir, fechar os olhos ou mesmo pensar em qualquer coisa que não fosse onde, pelo amor de Deus, poderia estar o bendito gato. Depois de uma meticulosa busca por cada canto da casa, resolvi dar uma olhada nas casas vizinhas e fui me afastando ao redor das outras residências da rua, tentando não me assustar com as sombras que a minha própria lanterna criava, e rezando para não encontrar nada muito morto nas lixeiras que eu abria, em busca do gato.

           Foi quando ouvi o inconfundível miado de Garibaldi Feliciano (não sou louca, já disse... Mas o miado é realmente inconfundível, porque ele foi diagnosticado com uma tal de rouquidão por miado excessivo, o que fez com que ele tenha assumido uma ‘característica única e maravilhosa, além de seu olhar marcante’, segundo titia...). Vinha da última casa da rua, afastada das outras por um lote vago e escondida entre a penumbra formada por uma fraca luz do poste, que heroicamente conseguia atravessar os galhos de uma árvore enorme que, grotescamente, se estendia ao lado da casa.

            A grama já morta dava lugar para ervas se alastrarem ao longo do que um dia, provavelmente, foi um jardim que ornava a entrada. As janelas fechadas resguardavam cortinas velhas que escondiam algum possível sinal de vida dentro da casa, e as folhas que se acumularam na soleira da porta sugeriam que, há algum tempo, ninguém havia andado por ali.

            Fiquei parada em frente à construção tentando descobrir uma forma de entrar naquela casa abandonada e resgatar Garibaldi Feliciano, já que chamá-lo não era uma opção por dois bons motivos: um, ele tinha sérios problemas de audição, o que tornaria meus gritos infundados e inconvenientes já que; dois, eu iria acordar a vizinhança toda. E lá estava eu, à meia-noite, tremendo de frio em frente à casa, quando ouvi um barulho.

        Vinha da lateral da casa, e parecia com o som de algo pesado sendo arrastado pelo chão. Lutando contra o desejo de sair correndo e torcendo para não surpreender nenhum cidadão de bem arrastando um corpo dentro de um saco, me aproximei devagar e o mais silenciosamente possível, tentando espreitar o corredor lateral da casa sem ser vista. E foi quando eu tive a visão mais peculiar da noite.Uma figura magra e abatida, cuja pequenez poderia sugerir a idade de uma criança, mas cujas rugas e cujo branco de seus emaranhados e longos cabelos (desajeitadamente amarrados com um fia velha e desbotada), sugeriam anos e anos além do que se poderia imaginar. No entanto, o que mais chamava atenção era sua vestimenta, ou melhor, suas inúmeras vestimentas... Sim, porque sobre seu ombro, eu conseguia identificar três casacos surrados; ao redor de seu pescoço estava um cachecol bordado e outro, tricotado; em suas mãos viam-se luvas que as cobriam até os cotovelos, e outro par que ia até seu punho; meias longas se perdiam dentro de botinas masculinas velhas, e uma saia com evidentes remendos descia até seus joelhos.

        Apenas percebi que segurava a minha respiração, tamanho o espanto diante a figura que estava encarando, quando ela levantou seus olhos, assustada, e deixou cair o saco que vinha trazendo de dentro da casa, através de uma portinhola que dava acesso às laterais do lote. Sua respiração ficou ofegante, e eu realmente achei que ela fosse ter um colapso, tamanha a palidez com a qual seu rosto me encarava. Resolvi me aproximar vagarosamente, murmurando que estava tudo bem, quando Garibaldi Feliciano saiu correndo da casa e pulou em meus braços. Parei, surpreendida, com o gato no colo, observando-a. Sua respiração gradativamente ficou mais serena, e ela foi se aproximando de mim, estendendo as mãos trêmulos para tocar nos pêlos de Garibaldi Feliciano. Quando ela estava perto o suficiente, notei seus olhos marejados, deixando escapar lágrimas que desciam naquela face marcada pelo tempo, quais orvalhos entre as frestas de um tronco secular. Com o fio de voz que me restava, diante aquela cena, murmurei, com os olhos semicerrados:

            - Quem é você?

        Ela levantou os olhos para mim, deixou que lágrimas abundantes escorressem por sua face sofrida, e afastando-se, correu para sua casa, fechando a porta atrás de si. Permaneci de pé naquele mesmo lugar, absorvendo aquela figura estranha e tão frágil, quando o gato recém resgatado miou em meu colo. Olhei para aquele par de olhos cinza e magenta e, selando uma cumplicidade silenciosa com o felino, andei até a portinhola, e a abri.

        Me deparei com o que um dia muito provavelmente foi uma cozinha, mas que hoje seria mais adequadamente descrito como depósito, já que pilhas e pilhas de móveis e objetos quebrados se acumulavam do chão até o teto. Eram revistas antigas, livros esgarçados por traças, utensílios antigos e enferrujados, móveis empilhados. Eu mal conseguia ver o papel de parede que se escondia atrás de prateleiras repletas de caixas velhas e sacos fechados. Um estreito espaço entre toda essa visão indicava o único caminho por onde era possível transitar, e foi por ele que segui até o cômodo seguinte, para me deparar com uma sala tão preenchida quanto o aposento anterior. As janelas envolvidas por uma cortina pesada impediam que a luz de uma lamparina alcançasse o mundo exterior, e a porta, trancada com barras de ferro, evidenciavam a ausência de uso por anos. Uma escada indicava o acesso para o andar superior, e no canto mais afastado do aposento, entre recortes e vinis antigos, estava a senhora, encolhida em uma poltrona velha, com um álbum de fotografias no colo.

            Não tinha certeza se ela havia notado a minha presença, até que sua voz rouca e fraca chegou aos meus ouvidos:

            - E-eu só queria q-que ele ficasse a-aquecido... – ela disse, sem levantar os olhos para mim.

         Olhei ao seu redor e vi um espaço onde um cobertor indicava uma tentativa de simular uma caminha que poderia abrigar Garibaldi Feliciano. Notei as marcas de poeira no chão e compreendi que o saco que ela arrastava para a lateral da casa antes se encontrava ali.

            Me aproximei devagar, para tentar não assustá-la novamente, e deitei o gato no cobertor. Ele se aconchegou, confortável, e ela deu um tímido sorriso, lançando um breve olhar para mim. Falei:

            - Talvez ele possa aproveitar um pouquinho, antes de voltar para casa.

            Ela então cerrou os olhos, e deixou que mais algumas lágrimas escorressem. Murmurou:

            - E-entendo... Ele pertence a outro lugar...

            Olhei para aquele rosto sofrido, ansiando confortá-la de alguma forma, mas sem compreender exatamente o que se passava. Resolvi então mudar de assunto, e apontei o álbum em seu colo, aberto em uma fotografia de duas crianças.

            - São encantadores! Seus filhos?

            Ela passou os dedos demoradamente sobre a foto, como que acariciando-a, e disse:

            - Meus irmãos... Meus doces irmãos...

            E virou a página, continuando:

           - Essa sou eu com eles, há muitos, muitos anos... Sou a mais nova, e única mulher, de sete irmãos, todos tão ciumentos... – Deu um sorriso saudoso – Aqui estão meus pais... Minha mãezinha sempre alegre, costurava para fora; e papai, que trabalhava na antiga fábrica da cidade. Todos os meus irmão trabalharam lá também... Há muito, muito tempo atrás...

          Olhei ao redor e percebi que seria impossível para aquela casa, naquelas condições, abrigar tantas pessoas, e resolvi perguntar:

           - Eles moram aqui na cidade ainda?

           Ela me olhou com tristeza e falou:

          - Não... Morreram há alguns anos... Primeiro foram os gêmeos, ainda na juventude, e mamãe nunca conseguiu superar... Ela começou a lutar contra uma sensação de ausência profunda. Um dia resolveu se render, e deixou que seu coração parasse completamente de sofrer. As doenças, um acidente na ferrovia e outro na fábrica, levaram os outros. E por fim restaram eu e papai, que se foi há um ano... – ela deu uma pausa para respirar em meio a alguns soluços que haviam surgido, e continuou, olhando para uma foto maior – Tudo que me resta agora são essas fotos, que guardam os sons de seus risos a cada piada sem graça de papai; as danças ao entardecer, quando, escondidos, víamos os dois bailarem ao luar, apaixonados; as peripécias de uma infância alegre; as reprimendas com carinho; as brincadeiras inocentes... Tudo que me resta deles são as fotografias que, mesmo sem o som, sem o movimento, sem a vida, os trazem de volta para mim. São seus objetos, a casa, seus pertences, que fazem com que os sinta ao meu lado, fazendo com que essa solidão não me sufoque ante a tristeza por não tê-los comigo, aqui e agora. Não consigo me afastar daquilo que um dia foi deles... Eu me sentiria tão... só...

            E o silêncio reinou na sala. Olhei novamente para a foto e me surpreendi ao perceber que os casacos que ela usa estavam em três de seus irmãos mais velhos. As luvas eram de dois outros, e a botina, de seu pai. A saia da mãe, sem os remendos que agora a compõe, davam graça à mulher da fotografia, e os dois cachecóis envolviam os irmãos que a abraçavam na fotografia, uma menininha alegria e serena, muito diferente da senhora que, à minha frente, se perdia em uma saudade tão profunda que era capaz de soterrá-la em meio à vontade desesperada de tê-los de volta. Na foto, o único pertence dela era a meia, que hoje se encontrava tão desgastada quanto o coração daquela senhora.

            Com os olhos úmidos, e permitindo que as minhas lágrimas fizessem companhia às dela, agachei ao seu lado. Vendo seu corpo se encolher, fugindo ao meu toque, apenas lhe falei:

            - Não se pode aprisionar o passado entre as quatro paredes inerte da saudade... O passado, assim como o vento, precisa ser livre para que possa ser sentido, pois que a brisa nada representa se não deixamos as janelas abertas para que ele entre, e vá embora, deixando o frescor como prova inegável de sua presença. Se fechar os olhos e prestar atenção ao silêncio, ouvirá o som dos risos batendo à posta de sua mente, e se materializando com suavidade diante os olhos de seu coração. Se permita ser envolvida por uma lembrança viva de um momento que não está morto em sua alma, e verá, sem sombra de dúvidas, cada um de seus queridos se erguer em festa, pois não há laço mais forte e imutável que o amor. Não são seus objetos ou suas fotos que os mantém ao seu lado. É esse pedacinho deles que pulsa dentro de você, envolvido com tantas memórias maravilhosas que não representam o passado que se foi, mas um infinito presente de carinho que envolve vocês, independente da distância física que se interpõe entre seus corpos. As memórias não devem nos prender ao que passou, mas nos manter livres para agradecer por um hoje no qual é possível sorrir ao olhar para trás, diante de tudo que foi vivido; e glorificar, ao olhar para frente, diante de tudo que pode ser experienciado e, novamente, eternizado.

            Não sei dizer ao certo se passei a noite soluçando junto a ela ou se simplesmente adormeci. Só sei que fui acordada em meio a um barulho ensurdecedor, com dores em todo o corpo em razão de ter permanecendo em uma posição desconfortável, recostada ao lado da cadeira da senhora. Olhei para os lados, à sua procura, mas só vi Garibaldi Feliciano me fitando com seu curioso par de olhos, também assustado com o som que vinha do lado de fora. Com dificuldade, pela noite mal dormida, levantei-me e peguei o gato no colo, saindo pela entrada lateral.

            Quando cheguei à frente da casa, me deparei com um trator demolidor com seu motor em pleno funcionamento, direcionado à casa, e uma multidão de vizinhos curiosos (incluindo titia), ao redor. Ao me ver, titia veio correndo até mim e disse:

            - Por Deus! Onde você esteve a noite toda? Pensei que fosse encontrar Garibaldi Feliciano, e não se refugiar com ele! – e pegou o gato de meus braços, aconchegando-o em seu colo.

            - O que está acontecendo aqui? – perguntei.

            - Vão finalmente demolir a velha casa dos Ruicastros. Pobre família... Um casal e seus oito filhos. Tantas tragédias seguidas, não sei se qualquer um aguentaria... No entanto, demoraram demais para tomar essa decisão, se quer a minha opinião... Eu estava dizendo para Gorete que essa burocracia toda só...

            - Mas tem uma senhora lá dentro, titia! – interrompi sua fala, percebendo que o trator se preparava para começar seu trabalho.

            - Não seja tola, minha querida. Há um ano a casa está vazia, depois da morte do senhor e da única filha, que faleceu pouco tempo depois do pai. Creio que a saudade é um sentimento poderoso, capaz de sufocar ou mesmo matar alguém.

            - Não é possível! Eu conversei com ela ontem!

            - Foi uma longa noite, minha querida. Você deve ter imaginado coisas... A casa está repleta de objetos da família, aí deixados até que a justiça decidisse o que seria feito com tudo. Não é possível que ninguém tenha vivido nesse lugar nos últimos meses.

            - Mas eu tenho certeza do que vi! – gritei e saí em disparada em direção à casa, diante os gritos de protesto de todos que aguardavam a demolição. Entrei pela cozinha gritando pela senhora, e subi até o segundo pavimento, apenas para encontrar cômodos vazios e silêncio, em resposta aos meus chamados. Finalmente me dei por vencida e, abismada, resolvi deixar a casa. Quando passei pela sala, vi o álbum de fotografias caído no chão, aberto na última foto que lembro ter visto com a senhora: toda a família reunida, e aquela menininha sorridente, sentindo-se em casa. Peguei o álbum e passei os dedos delicadamente sobre seu rosto eternizado por aquela foto, e sussurrei:

            - Não pode ter sido um sonho...

            Foi quando percebi que aquela não era a última foto do álbum, e virei a página. Prendi a respiração ao ver o meu rosto, encostado na poltrona velha, e a senhora ao meu lado, sorrindo, já sem todas aquelas roupas. Apenas um vestido leve, os cabelos penteados delicadamente e o olhar sereno, observando-me dormir ao seu lado. Assustada e tremendo, deixei a foto cair. Abaixando-me para apanhá-la, notei que algo estava escrito atrás dela.

            “A pior prisão é aquela que criamos dentro de nossas próprias almas. Obrigada por me mostrar a saída.”

            Olhei em volta e, diante o silêncio, senti uma brisa que vinha de uma janela que, tenho certeza, ontem se encontrava fechada. Não pude evitar sorrir, e simplesmente deixar que o vento, livre, entrasse e fosse embora, deixando o frescor como prova inegável de sua presença.